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Lugares inesquecíveis que contam a história de Manaus

No mês de aniversário da cidade de Manaus, o jornal A Crítica vai trazer matérias especiais sobre a capital amazonense 07/10/2013 às 07:48
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Caminhando por Manaus e descobrindo lugares históricos
Robério Braga/ Especial para A CRÍTICA Manaus, AM

Passados os tempos mais antigos dos quais os registros possíveis estão resguardados sob o solo sagrado dos povos tradicionais, a cidade da época atual teve início com a benção de São José, o santo que deu nome ao forte abençoando os canhões que nunca foram utilizados nem nos festejos de São João, e de repente, não mais que de repente, passou a ser a terra de Nossa Senhora da Conceição. É lugar que já teve de tudo um pouco, e até de “terra do já teve” foi chamada. Recheada de caminhos, cantos, recantos, esquinas, altos e baixas, alguns bastante famosos, cada qual no seu tempo e batizado conforme o gosto da época. Nada, ou quase nada, ficou como antes. Agora é metrópole, cidade grande e afamada. Antes, bem antes, era lugar simples, pequeno, que já foi “cidade risonha” ou terra dos Barés embora tenha sido sempre a casa dos Manaós.

 E é do tempo de cidade pacata e de gente simples que vêm as coisas mais curiosas que se pode contar e recontar em prosa e verso, e de tudo relembrar. Se para quem conheceu vai dar gosto ouvir falar de novo em alguns recantos e caminhos nobres, para os mais novos há de despertar interesse pelas coisas antigas da cidade, um pouco que seja.

ALTO DO BODE

 Para quem pensa que tudo era igual ao que está hoje é que pergunto com vontade de saber. Diga lá se você sabe onde eram estes lugares, pode escolher, seja um ou dois, conte até três, mais diga sem pestanejar: Alto do Bode, Alto do Nazaré e Alto do Céu, onde cada um ficava se você tem na lembrança.

 Depois de ir aos altos vamos procurar as baixas da cidade porque pode ser mais fácil reconhecer onde era a Baixa da Imperatriz, a Baixa do Braga, a Ribeira das Naus ou a Rua da Baixa. Talvez ninguém consiga dizer o endereço certo de cada uma, mas com certeza sabe onde fica a Baixa da Égua, tão famosa que ela é. Aliás, como se não bastasse uma, eram duas as tais baixas por onde a égua passava. E davam o que falar. A mais cobiçada era lugar de destaque para bons empinadores de papagaio tal o vento que batia por lá.

Afastando a superstição vamos fazer um passeio mais adiante, às vezes voltando no tempo mais distante, outras nem tanto. Que tal passear no recanto das Almas Penadas e recolher água potável em poço construído nos anos setecentos por Lobo d’Almada?  Ou andar a cavalo na terra de chão batido por entre árvores frondosas e em clima mais ameno nas terras de Miguel Ribasou no bairro do Plano Inclinado. Se quiser pode caminhar lentamente pela Rua da Lua e Rua da Palma em direção à biblioteca da Rua do Progresso. Tem caminho de sobra para quem quer conhecer de verdade a nossa cidade. Se quiser traçar um rango pode voltar ao mercadão e provar do mingau gostoso que reunia muita gente logo que amanhecia.

CANTO DO FUXICO

 E para quem gosta de saudade (eu gosto muito e não sofro nada, até parece que fico mais vivo depois de cada fornada de lembrança) ou quem gosta de coisa mais recente na história da terrinha, falo do Canto do Fuxico que é referência de anteontem no qual a conversa comia no centro e a vida alheia sofria. Era ali que se resolvia de tudo um pouco: política, futebol, mulher bonita, compra, venda, futricas e intrigas como em nenhum outro lugar de Manaus. Mas era um recanto de respeito porque qualquer coisa o Lúcio Cavalcanti gritava de sua janela pondo ordem na esquina. 

Não muito antigos porque me veem à memória num relance era a Parada Campelo, o buraco do Pinto, a curva da morte, a Casa Amarela, referências bastante conhecidas de uma cidade que dormia de janelas abertas para aproveitar o ventinho frio da madrugada.

Pouco depois veio o bate-papo na porta do Frial, na frente da Pensão Maranhense e do Fazano, na nossa principal avenida. Olhos vidrados (um no vinho e outro na missa) nós ficávamos esperando as meninas passarem em desfile de beleza e charme transformando a rua em paraíso. Depois, bem depois, foi a vez da loja do Zequinha Reston, grande figura, reunindo o que havia de melhor em conversa e simpatia. Para conversa mais séria, à moda dos românticos que vão transformar o mundo, o bom mesmo era tomar o café do Pina e aproveitar a prosa que ali teciam as figuras mais lendárias das letras e das artes.

Enquanto isso, em vários lados da cidade havia outros pontos de encontro igualmente festejados. Havia quem se reunisse no Bar Pérola da Visconde, no Canto do Quintela, no Bar do Quintino, no Abrigo Pensador, no Pavilhão do Pará e até no campo do Duca Brito no qual o futebol era a principal atração com a presença do velho jogador, que dava alegria especial ao recanto mais conhecido do bairro do Giráo. Era muito fácil de chegar por lá, descendo o Boulevard Amazonas até o Seringal Miry e rompendo a Praça da Liberdade por entre os terreiros mais famosos de Manaus. Em lá chegando qualquer um podia descer o malho na bola e encontrar o velho Duca sempre alegre e feliz em receber a qualquer pessoa, posto que mestre do futebol e da gentileza. Só não podia era tratar mal a pelota.

ARCO DA VELHA

 Se ainda agora você quiser aproveitar tudo que havia de bom em cada um desses lugares, é só puxar pela lembrança de um vizinho ou amigo mais antigo de tudo fazendo para trazer à tona coisas do arco da velha que fazem parte da vida de todos nós. Afinal, pior seria se estivesse sendo convidado a visitar a Rua da Matança, o Muro das Lamentações, o Igarapé do Pau Cagado, a Avenida do Pau Seco, o Largo do Pobre Diabo, a Rua da Putada, a Ladeira do Quebra Cu, o Vale dos Necessitados ou a Rua do Vigário.  Não sei se tal convite seria aceito, ainda que feito de todo coração.

Ah! Manaus...Manaus que mestre Áureo Nonato cantou, que foi risonha e Genesino abençoou, a mesma cidade que Mário Ypiranga desvendou em cada recanto e pedacinho, estudando de tudo um pouco. A cidade a qual André Araújo deu a vida como muitos outros mestres de escola. Terra que apaixonou meus pais e onde Lourenço Braga brincou de brigue e fez história e mestra Sebastiana ensinou a muitas gerações. Manaus... Manaus terra de São José e Nossa Senhora, casa de todos nós.

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