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Luta como razão para viver: Lucinha Araújo e os 25 anos da Viva Cazuza

Mãe de Cazuza comemora, com pés no chão, aniversário da instituição de assistência que ajudou a fundar após morte do filho, em 1990 11/09/2015 às 14:34
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À frente da Viva Cazuza, Lucinha Araújo é figura de destaque em campanhas de combate à aids e ao preconceito
Jony Clay Borges Manaus (AM)

Após testemunhar a via-crúcis do filho Cazuza na luta contra a aids até sua morte aos 32 anos, em 1990, Lucinha Araújo não sucumbiu ao luto: transformou a dor da perda do único filho em força para iniciar uma cruzada contra a doença. Naquele ano, ao lado do marido João Araújo, amigos e médicos, ela fundou no Rio de Janeiro a Sociedade Viva Cazuza, com o intuito de dar assistência a jovens, crianças e adultos soropositivos. Para ela, foi menos uma escolha que uma necessidade.

“Depois que você passa por isso, não pode cruzar os braços, colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo. Tem de fazer algo por quem está vivendo esse problema e precisa de ajuda”, declara ela, em entrevista exclusiva ao VIDA & ESTILO. “A iniciativa surgiu da necessidade de ajudar pessoas que não tiveram, como nós, dinheiro para custear um tratamento caro como é o da aids”.

Na semana que passou, a Sociedade Viva Cazuza celebrou seus 25 anos, com leilão e jantar beneficentes, mais show com gente como Djavan, Diogo Nogueira, Baby do Brasil, Ney Matogrosso e Alcione. A instituição é mantida desde 1990 com os direitos autorais da obra musical de Cazuza, além de apoios, parcerias e doações. Lucinha também comemora ao fazer o balanço do primeiro quarto de século da Viva Cazuza, embora mantendo os pés no chão.

“Já passaram por aqui 119 crianças, e 200 adultos, que não moram aqui. Das crianças, que são completamente dependentes da instituição, algumas foram adotadas, outras voltaram para a casa dos pais. Considero um projeto de sucesso, se é que algo relacionado a essa doença pode ser considerado sucesso, pois ela não tem cura”, pontua.

Mostrando a cara

A fala ponderada de Lucinha é a de quem já testemunhou o sofrimento de quem perde a luta para a doença. Antes da morte de Cazuza, ela viu o filho definhando não só na intimidade, mas ainda nos palcos e na mídia.

“À época, eu e João éramos contra. Mas ele dizia, ‘Mãe, eu canto ‘Brasil, mostra tua cara’. Se eu não mostro minha cara, ninguém vai acreditar no que eu canto’. E tive de concordar”, afirma ela, que define a decisão de Cazuza como um “ato de extrema coragem”. “Ele mostrou com isso que não era só um artista de belas canções, mas também um ser humano muito corajoso. E ajudou muitos pacientes a não ter vergonha de sua condição”.

De lá para cá, a realidade de quem vive com a doença mudou bastante, graças ao surgimento de novos medicamentos além do AZT – primeira droga a demonstrar eficácia contra a aids, e único tratamento existente na época de Cazuza. “Os efeitos colaterais ainda são terríveis, você toma remédios duas vezes por dia. Mas as pessoas estão tendo maior qualidade de vida”, diz.

Por outro lado, ela contrapõe, isso escondeu o perigo da contaminação, levando ao aumento recente no número de novos casos, especialmente entre os jovens de 17 a 25 anos. “A aids hoje mudou de cara e de nível social. Hoje em dia todo mundo fica bem de aparência. As pessoas esqueceram a cara da aids e voltaram a se relacionar sem cuidado”.

O crack, ela acrescenta, vem sendo outro pivô no agravamento do problema. “Hoje temos na casa nove bebês, filhos da população de rua. Nós os chamamos ‘filhos do crack’, pois a droga trouxe de volta a aids e essas crianças contaminadas. Elas chegam na maioria das vezes já apresentando outras doenças, como sífilis, tuberculose. Tratamos os bebês, graças a Deus com sucesso, e eles são adotados”, conta ela, que vê com tristeza o ressurgimento de um problema que parecia superado.

“Há oito anos, não recebíamos um bebê. Quando abrimos a casa, chegava um bebê por dia”, recorda.

Foco na prevençâo

Tal retrocesso leva Lucinha a defender o reforço na prevenção, algo em que ela planeja investir mais com a Viva Cazuza. “O único jeito de jeito de se evitar uma doença que não tem cura é a prevenção. Quero começar a investir em mais campanhas de prevenção. Costumávamos fazer uma por ano, mas é muito pouco. O Dia Mundial de Combate à Aids também é um só, dia 1º de dezembro. Mas todo dia é dia de lutar contra a doença”.

Os planos para o futuro reforçam o compromisso de Lucinha com a Viva Cazuza. Aos 79 anos, lúcida e enérgica, ela nem pensa em deixar de lado o trabalho na Viva Cazuza. “Não está nos meus planos. Isso é a minha vida. Não tenho mais filho ou marido (João Araújo faleceu em 2013), e isso talvez seja 80% da minha vida”, declara ela, dizendo que “não tem pretensões a ser feliz”.

“Vivo as felicidades da Viva Cazuza, as festas, as homenagens. Fico feliz a cada vez que ouço alguém cantando Cazuza. As felicidades da minha vida são as felicidades possíveis”.

Lucinha com Cazuza nos anos 1980 (Foto: Divulgação)

Trilogia de Cazuza e novo livro

Lucinha Araújo é autora de três livros que define como um trilogia com foco em Cazuza. “Só as mães são felizes”, de 1997, fala sobre sua vida ao lado do filho. "Preciso dizer que te amo", de 2001, reuniu 205 poesias e letras de Cazuza, sendo 78 inéditas. Em "Viva Cazuza – O tempo não para", de 2012, fez um balanço dos então 21 anos da Sociedade e contou histórias de crianças e jovens que passaram pela instituição.

Atualmente, Lucinha Araújo hoje produz um livro sobre o marido, João Araújo, morto em 2013. “Foi o maior homem da indústria fonográfica brasileira, e o único que teve um filho famoso”, diz, lembrando que João relutou em acreditar no talento do filho.

“Ele acreditava, mas tinha medo de ser acusado de nepotismo. Ele era muito ético. Precisou Guto Graça e Ezequiel Neves defenderem para ele mudar de ideia. Cazuza gravou com o Barão Vermelho, e o primeiro disco já foi um sucesso. Ele teve de se render e reconhecer o talento do filho", conta.

Álbum pelos 25 anos

Ainda em comemoração pelos 25 anos da Sociedade Viva Cazuza, será lançado um CD de canções inéditas de Cazuza musicadas por outros artistas. Seu Jorge, Rogério Flausino, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marisa Monte são alguns nomes confirmados, adianta Lucinha Araújo.

Bazar

Além de doações, é possível contribuir para a Sociedade Viva Cazuza com a compra de produtos à venda no site da instituição, no endereço http://vivacazuza.org.br/. Na seção Bazar, é possível adquirir camisetas com letras de canções de Cazuza, além dos livros de Lucinha sobre o filho.

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