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SUCESSO

Aos 69 anos, cantor pernambucano Alceu Valença lança seu primeiro filme

Artista mostra vigor e versatilidade e lança o filme “A luneta do tempo” no circuito comercial, após ser premiado no Festival de Gramado 16/03/2016 às 12:18 - Atualizado em 29/03/2016 às 10:25
Show alceu
O pernambucano demorou uma década e meia para realizar o filme (Divulgação)
Rosiel Mendonça MANAUS

Do além, Lampião aponta sua luneta para o horizonte e vislumbra o mundo 25 anos à frente. Interpretado pelo talentoso Irandhir Santos, o cangaceiro é um dos personagens do filme “A luneta do tempo”, que marca a primeira incursão de Alceu Valença no cinema depois de uma vida quase inteira dedicada à música – e que música!

O longa, premiado em Gramado e selecionado para outros tantos festivais, estreia no circuito comercial no próximo dia 24, incluindo Manaus. Coincidentemente, o cantor e compositor fará um show na cidade uma semana depois, no Dulcila Festas e Convenções.

Em uma longa conversa com a reportagem, o autor de “Anunciação” contou que a perseguição da polícia ao cangaço é apenas o pano de fundo do filme, que na verdade se resume a uma tragédia com elementos de circo, literatura de cordel e humor.

Apesar de roteiro, direção, montagem e trilha sonora serem de Alceu, o pernambucano demorou uma década e meia para realizar o filme, das ideias iniciais até a finalização.

“Eu pararia com os shows, como parei, mas passei muito tempo em busca das locações e de patrocínio”, explica ele, que calcula ter se dedicado ao projeto ao longo de dois anos intercalados.

Além de Irandhir Santos, “A luneta do tempo” tem no elenco atores como Hermila Guedes, no papel de Maria Bonita, e Ceceu Valença, filho do diretor. Mas a produção também teve reforço de não-atores, a exemplo do caseiro de Alceu, Evair Bahia, que interpreta o cangaceiro Severo Brilhante.

“Rodamos o filme em dois meses e depois paramos por falta de patrocínio. O projeto teve uma produção muito grande, todos amigos da arte, do tamanho que o filme precisava. Um ano depois retomamos os trabalhos e conseguimos terminar tudo perfeitamente”, completa Alceu.

Relatos e cordéis

O diretor comenta que as referências para o filme vêm das suas próprias experiências, em especial da infância vivida em São Bento do Una, no agreste pernambucano.

“A inspiração veio de um grupo de cangaceiros que ia invadir a fazenda do meu tio. Isso acabou se misturando com a mítica criada pelo cordel em torno do assunto, como um que li quando menino que falava da chegada de Lampião no inferno”, disse.

Mas o cinema também é parte da memória afetiva do cantor desde que ele era garoto. “Eu morava numa cidade de cinco mil habitantes, com cinco grupos de teatro e dois cinemas. Minha mãe era cinéfila e gostava de fazer cinema de sombras em casa, onde eu também brincava de ver películas numa caixinha de sapato”, relembra.

Quando se mudou para Recife, ele conta que conseguiu muitas namoradas imitando um dos atores de “Acossado”, de Godard. “Aí entrei na faculdade, comecei a me engajar na luta contra a ditadura e fui esquecendo o cinema. Ele só veio entrar de novo na minha vida nos anos 70, quando fui convidado para atuar em ‘A noite do espantalho’, filme de Sérgio Ricardo”.

Uma ideia e uma câmera

O enredo de “A luneta do tempo” começou a surgir em cordéis que Alceu passou a escrever após a morte do pai, outra fonte importante de histórias sobre o cangaço.

“A trama foi aparecendo aos poucos, mas sem uma lógica e sem eu perceber. Até que eu encontro o diretor Walter Carvalho, mostro o trabalho que vinha fazendo e ele me diz que aquilo era cinema”, comentou.

A partir daí, o futuro diretor tomou algumas aulas com Alessandra Lessa, que havia estudado cinema em Los Angeles, e passou a fazer maratonas de filmes para entender a “gramática” da Sétima Arte. Com uma câmera portátil na mão, ele enfim resolveu pôr a sua intuição cinematográfica à prova.

Desse processo, Alceu só traz boas lembranças, e ainda filosofa ao explicar a experiência de trabalhar com as imagens: “Demorou muito, mas para mim o tempo não tem tempo. Acho que a gente vive nos três tempos ao mesmo tempo: passado, presente e futuro. Futuro é o que você projeta, e o filme é muito sobre isso”.

Trilha

Não que a música tenha ficado de lado no processo. A trilha sonora foi composta pelo cantor e foi ganhadora do Festival de Cinema de Gramado de 2014.

As 26 faixas compostas por Alceu Valença serão lançadas em disco duplo pela gravadora Deck. “O Sertão Precisa É Disso” é um dos destaques, assim como “Paraíso”, que canta a chegada de Maria Bonita e Lampião ao céu.

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