Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
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'Mãe, quero peito': quando o desmame se faz necessário

Se o seu filho tem mais de dois anos e rejeita comida para mamar, é melhor procurar um especialista para ajudar



DESM.jpg Guilherme, de 2 anos (esq.) e Arthur, de 1 ano e 6 meses (dir.) vivem as dores e as delícias que o desmame traz (Fotos: Evandro Seixas e Antonio Lima)
03/07/2016 às 06:35

“Uma sensação indescritível, uma conexão linda entre mãe e filho”. Assim a universitária Nayara Rocha, 26, define o ato de amamentar. Mãe do pequeno Arthur, de um ano e seis meses, ela optou por amamentá-lo exclusivamente até os seis meses e em livre demanda até agora, porém, percebeu que o pequeno já estava recusando comida para mamar e perdendo peso. Veio o alerta para início de um processo difícil para muitas famílias: o desmame.

“Fiquei bem preocupada e toda vez que ele pedia o peito passei a oferecer água, leite, suco, uma fruta e ele acabava esquecendo [o seio]”, declara ela.

Arthur costuma ficar super tranquilo longe da mãe. “Dorme sozinho sem precisar mamar, come direitinho. Mas quando estou perto, ele pede para mamar antes de dormir. Tem dias que ele dorme sem pedir, mas raras as vezes. Agora tirei a livre demanda. Ele passou a mamar exclusivamente à noite, na hora de dormir”, declara a mãe, que depois de ter iniciado o processo do desmame notou que ele pede cada vez menos o seio e que o apetite dele aumentou.

A contadora Nayara Melo, 25, alega que iniciou o desmame do filho Guilherme, 2, pelo mesmo motivo da sua xará. “Já estava afetando a saúde e o desenvolvimento dele. Ele deixava qualquer refeição para mamar. O desmame é muito difícil e sofrido nessa idade. Eles já têm vontade própria, o que dificulta muito o processo, além de tornar muito mais longo até o total desmame. O Guilherme reage com muito choro quando digo que ele não vai poder mais mamar”, relata Melo.

Ela aponta que o filho estava com dificuldades de ganhar peso, e que por conta disso a pediatra foi a primeira a lhe recomendar o desmame. “Sempre disse que seria muito difícil, mas que a escolha era minha. Ou para de mamar, ou ele não engorda”, recorda a contadora, que declara que vai sentir muita falta dos momentos de mãe e filho. “Por outro lado tem a questão dele deixar de ser tão dependente de mim, inclusive para dormir. Se eu precisar viajar a trabalho, meu marido vai ter bastante dificuldade para colocar ele para dormir. E com certeza ele irá sentir muita falta se ainda continuasse mamando”, explica.

Processo

Segundo o pediatra Paulo Wagner Brandão, o desmame, quando é precoce demais, não é visto com bons olhos pela pediatria, por ser o aleitamento materno, na nutrição do recém-nascido e do lactente jovem, fator redutor de morbimortalidade infantil. “De acordo com a pesquisa ‘Prevalência de aleitamento materno nas capitais brasileiras e no Distrito Federal’ realizada em 1999, a prevalência média de aleitamento materno em crianças aos 6 meses de idade, no Brasil, é de 72,9%, porém, a prevalência de aleitamento materno exclusivo é de apenas 9,2%”, pontua.

Entretanto, o médico diz que é necessário lembrar que a decisão final sobre a amamentação cabe exclusivamente à mãe. “E o papel do médico pediatra é orientá-la e apoiá-la a fim de que tome a melhor decisão possível para si e seu filho”, destaca.

“A OMS recomenda manter o aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses de vida da criança e de forma complementar até os 2 anos. O consenso se baseia no conhecimento de que o leite materno é capaz de fornecer todos os nutrientes que a criança necessita até aos seis meses de idade. A partir daí as necessidades nutricionais do lactente (proteínas, calorias, ferro, vitaminas A e C ) não podem ser supridas apenas pelo leite humano”, aponta.

Mudança

Ainda conforme Paulo, também é a partir dessa idade que a criança atinge um estágio de desenvolvimento geral e neurológico (mastigacão, deglutição, digestão e excreção) que a habilita receber alimentos sólidos ou semissólidos. “A aquisição de marcos como a sustentação da cabeça, pescoço e tronco, perda do reflexo de protrusão da língua e a capacidade de mastigação aos 5 meses, são exemplos de habilidades necessárias ao início da alimentação complementar. O aparecimento dos primeiros dentinhos também auxilia no processamento dos alimentos”.

Além do objetivo nutricional, o médico comenta que a oferta de outros alimentos além do leite materno cumpre também um objetivo educacional, estimulando o desenvolvimento da criança, acostumando-a a novos sabores (salgados), cores (além do branco), consistência (sólido e semi-sólido) e a mastigação.

“Dá início também ao processo de desapego na relação materno infantil, que até então é muito estreita, iniciada na vida intrauterina e continuada durante a amamentação exclusiva. E que começa a se tornar necessária para o crescimento da criança e da sua mãe (desmame físico e psicológico)”, explica o pediatra.

O especialista assegura que é importante a mãe que deseja iniciar o desmame precoce do seu filho por alguma razão converse com um profissional para que este possa acompanhar o seu bebê nessa transição, na expectativa de evitar danos ao mesmo - já que cada caso é um caso.

“Desde o leite a ser introduzido, diluição, volume, horários, na tentativa de evitar perda de peso (talvez o mais complicado e o mais presente), até aparecimentos de patologias voltadas para alergias alimentares e infecções intestinais, não esquecendo da predisposição do mesmo às infecções de origem respiratórias”.

Para Nayara Rocha, desmamar o Arthur tem sido como assumir que ele não é mais um nenenzinho completamente dependente dela, como costumava ser há um ano. “No início foi difícil para nós dois, ele sentia falta e eu me sentia mal por negar. Mas hoje nós dois estamos melhor adaptados e sei que logo tudo será uma lembrança maravilhosa”, garante ela.


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