Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
Vida

Mães com filhos em tratamento de câncer encontram na arte-terapia fonte de bem-estar e renda

A CRÍTICA foi até o Gacc conversar com mães que participam de terapia ocupacional; para elas, atividade representa mais que uma fonte de renda



1.jpg Nilda Benevides (segunda da esquerda para a direita), Maria do Carmo (de branco) e Mônica Gomes (vestido florido)
10/05/2015 às 13:32

A sede do Grupo de Apoio à Criança com Câncer do Amazonas (Gacc) é daqueles lugares transformadores, de onde não se sai do mesmo jeito que entrou. Na última quarta-feira, um grupo de mães manuseava peças e enfeites de biscuit em uma das salas da casa, localizada no Dom Pedro. Elas participavam de mais uma oficina do projeto de arte-terapia, em atividade desde 2006 e patrocinado há dois anos pelo Oi Futuro. 

A instrutora do dia era a artesã Nilda Benevides, de 41 anos, que trabalha com a técnica há mais de uma década e participa da terapia ocupacional desde o início, quando ela não tinha nem lugar definido, obrigando as mães a produzirem na cozinha da antiga sede. Há quatro anos ela perdeu o filho Marcos Paulo para um tumor cerebral, após 11 anos de tratamentos em Manaus e São Paulo. Desde sempre, porém, Nilda buscou nas suas habilidades artísticas uma fonte de força para as lutas diárias.

“Durante os cinco anos que moramos em São Paulo, ensinei a arte do biscuit para as mães da casa de apoio de lá. Foi quando a Maria do Carmo disse que as mães daqui também precisavam disso, e desde então eu ensino aquelas que passam pela mesma situação que eu passei”, conta, fazendo referência à psicóloga do Gacc, Maria do Carmo Façanha, responsável pelo projeto.

“Gosto de dar esse apoio e passar as experiências que já tive. Muitas chegam tristes e chorando, porque quando o médico entrega o diagnóstico é como se o mundo desabasse”, acrescenta Nilda, que sabe valorizar as conversas e a ajuda mútua entre as mães. 

“Têm muitas que vêm do interior pra cá e depois vão pra São Paulo, então é um mundo diferente. Infelizmente, esse é um tratamento prolongado que muitas vezes tem um final feliz, outras vezes não, como foi meu caso. Mas a gente tem que saber enfrentar, não pode fraquejar, afinal de contas eles dependem da gente”.

A história de Nilda é duplamente dolorosa – ela conta que perdeu a mãe poucos meses antes do filho. Desde então, o Dia das Mães não foi mais o mesmo. “Sinto falta, muita falta, porque eu sabia que um dia antes ele tava preparando uma surpresa pra mim... Aí mergulho no trabalho”. Para ela, o artesanato foi o remédio contra a depressão. “Também tenho uma filha mais velha, que hoje tem 25 anos e é advogada, então ela me ajudou muito na época e me ajuda até hoje, principalmente nessa época comemorativa”.

GERANDO RENDA

“Geralmente, é a mãe que fica com a criança em tratamento, então ela não pode trabalhar nem passar o dia fora porque precisa dar assistência ao filho”, explica a diretora assistencial do Gacc, Joyce Loureiro, resumindo a situação de muitas mães que procuram o grupo de apoio. 

A necessidade de oferecer uma alternativa de trabalho e fonte de renda a essa mulheres é o que está por trás do projeto de arte-terapia, mas os reflexos dele vão além disso, já que os pacientes também podem participar das oficinas, que vão do biscuit, fuxico e corte e costura à serigrafia e confecção de bonecas de pano.

Gacc oferece oficinas de biscuit, bonecas de pano, entre outras (Antonio Lima)

“Aqui elas têm lanche e podem ficar a tarde toda, de segunda a sexta. Nossa responsabilidade é colocar o que elas produzem em exposição nas feiras, instituições e empresas parceiras, como a Procuradoria-Geral do Estado, o Cecon, o Café Tapiri e agora o Hemoam”, completa Joyce. Metade da renda que as mães conseguem vendendo as peças fica para elas e a outra metade entra como capital de giro para investimento em novos materiais. 

A coordenadora Maria do Carmo Façanha destaca que, além de desenvolver habilidades artísticas, as mulheres que entram no projeto adquirem noções de empreendedorismo e economia solidária. “Isso é para elas se colocarem como artesãs profissionais e terem visão de negócio com os clientes, tornando esse trabalho autosustentável”, afirma. Segundo ela, a terapia ocupacional do Gacc atendeu 140 mães e 113 famílias desde 2013.

MINIMIZANDO AS DORES

Natural de Tabatinga, Mônica Gomes (40) relutou muito antes de ser convencida a se abrir à arte-terapia. Ela é mãe de Monik, hoje com 18 anos, que está em fase de controle de um câncer no ovário. Mônica começou a frequentar as oficinas quando a mais nova dos quatro filhos estava começando a quimioterapia, há cerca de três anos e meio. 

“Eu não estava tão interessada porque nessas horas a gente não tem ânimo para fazer outras coisas. Na época, a Maria insistia dizendo que seria bom pra mim e pra Monik, até que resolvi dar uma chance e estou até hoje aqui”, lembra, sorridente. Para ela, o importante é tirar o foco da doença, que não distingue idade nem classe social. “Quando estou aqui até esqueço o o que tem lá fora”.

No caso delas, ambas compartilham o gosto pelas técnicas manuais e ambas voltaram a ser estudantes – Monik passou a frequentar o primeiro ano do Ensino Médio e Mônica ingressou no curso de Enfermagem. “Quero ter mais conhecimento nessa área da saúde até pra poder ajudar minha filha caso seja preciso. Não vou ser uma médica, mas vou saber pelo menos o básico pra ajudá-la, afinal a gente não sabe se de repente pode ter reincidência da doença”, declara.

Nas horas vagas, quando bate a vontade, as duas saem “por aí” para bater perna, mas Mônica está sempre atenta aos sinais vindos da filha. “Tem momentos que o próprio paciente fica meio tristinho, aí digo para ela ir pro Gacc, onde ela pode interagir com outros pessoas ou mesmo conversar com a Maria”.

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