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Mestre do cartum, Georges Wolinski disse a A CRÍTICA que humor ainda é fundamental

Para Wolinski, saber achar a graça no cotidiano é essencial para quem usa desenho como forma de fazer sátira 07/01/2015 às 16:39
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Nos anos 60, Wolinski destilava seu humor anárquico e erótico em revistas como “L’Enragé” ou a célebre “Charlie”
JONY CLAY BORGES Manaus (AM)

NOTA DO EDITOR: Em novembro de 2007, Georges Wolinski, cartunista francês nascido na Tunísia considerado um dos símbolos de Maio de 68, veio a Manaus como jurado do Amazonas Film Festival daquele ano. Ele aproveitou sua passagem pela Amazônia para conceder uma entrevista exclusiva ao jornalista Jony Clay Borges, do caderno Bem Viver do Jornal A Crítica. O mundo se despediu do gênio dos quadrinhos políticos e eróticos nesta quarta-feira (7), quando um atentado terrorista na sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo matou 12 pessoas - entre elas Wolinski, com 80 anos. Confira abaixo a matéria na íntegra, reproduzida mais de sete anos depois em forma de homenagem e mais atual do que nunca.


Ele foi um dos nomes-chave do “desbunde” dos quadrinhos adultos na França dos anos 60, quando o espírito de anarquia e revolução da época explodiu em cartuns de alto teor político e erótico publicados em revistas independentes de humor. Para Georges Wolinski, cartunista francês nascido na Tunísia, muita coisa mudou no mundo de lá para cá, mas na arte de fazer sátira em quadrinhos, ainda vale o óbvio: é preciso ter humor.

“Você pode fazer cartuns de caráter político, erótico ou outros, mas se não tiver humor, você não é nada”, sentenciou o cartunista, que esteve na última semana em Manaus como integrante do júri de Ficção do Amazonas Film Festival, em uma entrevista a A CRÍTICA.

Wolinski fala do alto de uma experiência de mais de quarenta anos de colaboração com charges e cartuns em revistas de humor, jornais e periódicos franceses. Seu primeiro trabalho foi na revista “Hara-Kiri”, para a qual contribuía com cartuns e quadrinhos que satirizavam e chocavam a sociedade, de humor corrosivo e desenhos simples, muitas vezes pornográficos.

Mulheres livres

Nesse campo, aliás, um de seus trabalhos mais conhecidos é a HQ “Paulette”, em parceria com Georges Pichard. Integrante de uma galeria de personagens que inclui a conterrânea Barbarella e a italiana Valentina, a protagonista do título é a filha de um rico industrial sadomasoquista, e cujo maior passatempo era... fazer sexo.

“Com Paulette, o que queríamos mostrar era a mulher livre, que era capaz de olhar para um homem e dizer, ‘Quero transar com você’”, conta Wolinski, que diz ter tido a sorte de ter conhecido a época pós-anticoncepcional e pré-aids.

“As mulheres eram muito fáceis naquela época”, diz ele, que por outro lado desaprova a facilidade com que as pessoas hoje têm acesso à pornografia. “Elas não têm mais respeito, não há mais relacionamentos”, opina.

Até hoje, Wolinski manifesta sua visão mordaz sobre a política ou os problemas da França para a “Paris-Match” ou “Charlie Hebdo”, esta uma revista de humor que existe desde os anos 70.

E faz questão de dizer que vida de cartunista, ao contrário do que as pessoas possam achar, não é nada fácil: “O cartunista não tem tempo nem de pensar. Temos que ficar sempre procurando idéias, pensando no que vamos desenhar. Termina uma revista, já temos de começar outra”, comenta o artista, já calejado pela guerra diária do humor. “Esta é a minha vida”. 

Desenhos para narrar viagem

Georges Wolinski aproveitou sua passagem por Manaus para produzir um especial em quadrinhos para a revista de humor “Charlie Hebdo”. Em seu “caderno de viagem”, ele rabiscou locais como o Teatro Amazonas e o Ariaú Towers, e figuras como dançarinas de boi-bumbá e macacos, que viu durante um passeio pela floresta. “Adorei. Era tudo tão bonito, e com tantos macaquinhos”, confessou.

Frase

"Humoristas raramente são filhos de gente rica, pois desde cedo eles mandam os filhos para escolas caras, que os ensinam a ser pessoas ‘sérias’. E o humorista não pode ser religioso: humor e religião não se bicam. O humorista não gosta de mentiras, e a religião, a meu ver, é uma mentira".

Perfil

GEORGES WOLINSKI, CARTUNISTA E AUTOR DE HQS

Nascido em Túnis, em 1934, Wolinski cresceu lendo grandes autores da literatura universal e desde cedo revelou talento para o desenho. Nos anos 60, após servir na Argélia por pouco mais de um ano e abandonar a faculdade de Arquitetura, começou a fazer cartuns para a “Hara-Kiri”, dirigida por François Cavanna. No histórico ano de 1968, fundou a revista de humor político “L’Enragé”. Nos anos 80, escreveu roteiros para filmes baseados em sua obra e até trabalhou como ator. Conhecido por séries de quadrinhos com títulos curtos e marcantes, como “Je ne veux pas mourir idiot” (Não quero morrer idiota), o trabalho de Wolinski ainda pode ser visto no diário francês “Libération” e nas revistas “Paris-Match”, “L’Echo des Savanes” e “Charlie Hebdo”. 

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