Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
DOCUMENTÁRIO

Missão de Roger Casement à Amazônia é tema do novo filme de Aurélio Michiles

Cineasta amazonense resgata viagem do cônsul britânico, que denunciou genocídio indígena na região do Rio Putumayo



b0305-11f_CF99F6BC-8455-40B5-94C2-2CEFD85C0D72.jpg Aurélio Michiles também dirigiu "O cineasta da selva", filme sobre Silvino Santos (Fabio Bardella/Divulgação)
05/05/2019 às 17:11

Em 1910, a Amazônia colombiana foi palco de uma série de violações aos direitos humanos, num caso que acabou ganhando repercussão internacional. Em La Chorrera, na bacia do rio Putumayo, mais de 30 mil indígenas foram submetidos a um regime de escravidão para manter em funcionamento um dos maiores centros de extração e produção de borracha da época, propriedade da Anglo-Peruvian Amazon Rubber Co, dos irmãos Araña. 

Com a notícia correndo o mundo, a coroa britânica enviou para lá o cônsul Roger Casement (1867-1916), que tinha a missão de investigar essas atrocidades. O relatório que Casement entregou ao parlamento britânico não só impôs um freio às violências no Putumayo, mas valeu ao diplomata de origem irlandesa o reconhecimento como humanista e o título de Cavaleiro (Sir).

A trajetória de Casement na Amazônia será o ponto central do documentário “Em nome desta terra”, que o cineasta amazonense Aurélio Michiles começou a rodar no mês passado. A equipe passou dez dias filmando em La Chorrera, onde encontrou os descendentes dos Uitotos, Boras, Ocainas e Muinanes. Também estão entre as locações as cidades de Letícia, na Colômbia, além de Tabatinga e Manaus, no Amazonas. 

Para Michiles, é como se “Em nome desta terra” estivesse dentro dele desde sempre. “O ciclo econômico da borracha é uma marca indelével da nossa história. Uma história de um fracasso e que ainda hoje nos desafia. Como transformar em riqueza a potencialidade vegetal que se encontra em nosso banco genético? Como explorá-la sem exauri-la? São perguntas que tenho feito e que se encontram em minha filmografia”, afirma.

No documentário “A árvore da fortuna” (1992), que conta a saga da borracha, o amazonense chegou a citar de passagem os feitos de Casement, mas à época ele ainda não tinha informações aprofundadas sobre a figura histórica. Em 2010, Mario Vargas Llosa registrou a vida do irlandês no livro “O sonho do celta”, mas, segundo Michiles, o seu documentário e a biografia têm em comum apenas a fonte de informação – o historiador inglês Angus Mitchell, que morava no Brasil na década de 90, quando ele e o amazonense se conheceram. 

“Quando assistiu a ‘O Cineasta da Selva’, Angus me procurou e deu de presente o seu livro sobre Casement, em que ele revelou ao mundo a existência do ‘Diário da Amazônia’, com o dia a dia do diplomata britânico em sua passagem pela região. ‘Em Nome Desta Terra’ é uma interpretação do ‘diário’, claro que com algumas referências biográficas para situar o personagem”, explica Aurélio.

Memória

Com o novo documentário, o cineasta quer ampliar o conhecimento sobre o lado sombrio do ciclo da borracha, que envolveu a matança indiscriminada de indígenas e outros crimes aos direitos humanos. Para ele, a relação gananciosa em que a riqueza era transformada em ganho de uma família ou um grupo de pessoas é uma realidade que se impõe ainda hoje.

“Casement emprestou o seu prestígio para defender os interesses das populações indígenas, contrariando o objetivo da missão que era somente livrar a cara dos cidadãos envolvidos neste escândalo. Em paralelo a essa missão, ele se envolvia de corpo e alma na luta armada para emancipar a Irlanda do império britânico e transformá-la em República. Por causa disso, os britânicos criaram uma contrapropaganda cujo objetivo era desmoralizá-lo, tornando pública a sua orientação sexual. Ele acabou condenado à morte por traição”.

"Os descendentes daqueles que vivenciaram e sobreviveram ao massacre mantêm viva a memória daqueles tempos. Continuam falando e refletindo não de uma maneira chorosa ou nostálgica, mas como uma lição que não se pode esquecer jamais.”  - Aurélio Michiles , cineasta

Duas perguntas para: Aurélio Michiles

A história do cineasta Silvino Santos (1886-1970) também se entrelaçou com o caso Putumayo. O filme vai abordar isso?
"Na guerra de narrativas, sobrou para Silvino aprender a filmar e realizar um documentário chapa-branca para livrar os seringalistas envolvidos nos episódios dos massacres do Rio Putumayo. No filme não pretendo fazer essa relação. “O Cineasta da Selva” traz um pouco dessa guerra de narrativas".

Com o projeto atual, você espera contribuir para a discussão em torno dos direitos humanos dos povos indígenas, levando em conta que eles enfrentam hoje uma ameaça institucional mais forte?
"De alguma maneira a realidade indígena tem permeado a minha filmografia. Gostaria que isso fosse de outra forma, mas, infelizmente, a realidade tem se imposto como uma espécie de ação única: as ameaças aos povos indígenas não somente continuam como agora elas parecem querer se multiplicar sem controle, como um vírus exterminador".

Receba Novidades

* campo obrigatório
Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.