Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
Discussão

Moda militante: quando as roupas dão lugares às lutas sociais nas coleções

Isso mostra o papel decisivo da moda, nos dias de hoje, em criar e recriar conceitos e ideias para, acima de tudo, empoderar quem precisa.



b0404-23f.jpg Ronaldo Fraga chora emocionado ao ser ovacionado no desfile (Nacho Doce/Reuters)
04/12/2016 às 05:00

“Nós não precisamos mais de roupas. A moda precisa começar a dialogar em outras frentes". Foi o que declarou o estilista Ronaldo Fraga durante o desfile-manifesto que fez durante a última edição do São Paulo Fashion Week, no fim de outubro. No desfile, modelos transgêneros verbalizavam a sua luta contra a transfobia, e a coleção colocava em foco as modelos e suas histórias, ao invés das peças de roupa. 

Intitulado “O corpo aprisiona, as roupas libertam o ser”, o desfile de Ronaldo propôs uma reflexão sobre a realidade de muitas mulheres e homens que não se encontram em seus próprios corpos, e que, na maioria das vezes, buscam refúgio nas peças de roupa para mostrarem quem realmente são. Isso mostra o papel decisivo da moda, nos dias de hoje, em criar e recriar conceitos e ideias para, acima de tudo, empoderar quem precisa.

Em Manaus, a estudante de design de moda Samantha Neves milita a favor dos direitos das mulheres. Como parte do seu trabalho de conclusão de curso, ela criou a coleção “Meu Corpo, Minhas Regras”, inspirada em cantoras brasileiras que marcaram a história como Maria Bethânia, Elza Soares e Elis Regina. “Eu procurei ressignificar a flor, colocando-a como sinônimo de força, beleza e poder feminino. Para isso utilizei estampas floral e fuxicos em tamanho máximo”, destaca a estudante.

Neves lembra que, durante muito tempo a moda incentivou o consumo desacerbado. “Mas, a moda e os movimentos sociais sempre andaram lado a lado, grandes revoluções na modelagem, feminina vieram principalmente das mudanças provocadas por alguma revolução”, pondera ela. 

Ainda segundo Neves, a moda tem essa capacidade de cativar as pessoas quando se fala sobre algo que elas desejam falar, mas não sabem como fazer. “Tenho amigos que passaram a adotar um estilo diferente depois que perceberam que a moda estava mais aberta e que ela poderia oferecer aquilo que eles buscavam, além de promover a autoaceitação. Muitos se tornaram pessoas mais confiantes e engajadas nos movimentos sociais em Manaus”, diz ela.

Social

A diretora de estilo da revista Vogue Brasil, Donata Meirelles, aponta que a Internet veio para democratizar o mundo da moda e dar espaço a todas as pessoas e lutas. “Sou a favor dos direitos de todos. Acho o fim ter preconceito racial e social. Acho que o mundo da moda é poder mostrar a diversidade e às vezes tem pessoas que não conseguem respeitar”, pondera ela. 

Para ela, o cenário é crescente e começou desde o momento em que as grandes redes começaram a abrir possibilidades de consumo para o público de baixa renda, “para que comprarem moda e o que apreciam”. “Está tudo mais popularizado. Estamos em um momento legal de transformação, não só na moda, mas no comportamento do mundo em geral”, reflete Donata. 

Histórico

Desde a década de 60, no período pós-guerra, a moda tem sido usada para militar em prol de causas que a sociedade julga ser importante, quebrando paradigmas e a favor da liberdade de expressão. “Daí vejo que moda é usada como plataforma de conscientização”, declara Eriana Calderaro, coordenadora do curso de moda do CIESA. 

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