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Monge e pop star: lembranças de um amigo de Leminski

Com narrativa pouco convencional, Domingos Pellegrini lança biografia não autorizada pela família do poeta 07/09/2014 às 13:04
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Pellegrini entrou em contato com a obra de Paulo em 1964, por meio de um artigo de revista
ROSIEL MENDONÇA ---

Foi preciso o “fantasma” de Paulo Leminski lhe aparecer em sonho para que o jornalista e escritor Domingos Pellegrini enfim aceitasse o convite para biografar o amigo e poeta curitibano, morto há exatos 25 anos. A recomendação de Leminski, no entanto, foi expressa: “Biografia é muito convencional, eu não mereço algo melhor?”. O sonho não revelou, porém, os percalços que Pellegrini enfrentaria até ter suas memórias de duas décadas de amizade enfim publicadas.

A aprovação do finado poeta, que teria completado 70 anos no mês passado e é quase tão popular no Facebook quanto Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, esbarrou no veto das suas herdeiras ao texto final de “Minhas lembranças de Leminski”. Sem se dobrar à censura familiar, Pellegrini resolveu colocar a íntegra do livro na Internet ainda em 2013, e só em abril deste ano a obra ganhou as livrarias em versão impressa pela Geração Editorial.

O que chegou aos leitores foi uma biografia bem ao estilo do curitibano, apelidado de Polaco pelo amigo Pé Vermelho, de Londrina. O resultado é um livro dividido não em capítulos, mas em facetas que revelam a natureza poliédrica do bigodudo. Com uma narrativa que segue o caminho da trucagem, “Minhas lembranças de Leminski” mistura informação, romance e poesia num caldeirão de “real-ficção” (como define o autor), facilmente devorável em um par de dias.

Revivendo Leminski

Sobre o estilo dado à biografia, que intercala as “vozes” de Pellegrini e Leminski, o autor justifica: “Meu desejo foi escrever uma biografia compósita, mostrando como esse homem agia e pensava. Quando o ‘coloco para falar’, são coisas que ele falaria. Não inventei nada que não fosse verossímil. Não quis inventar um Leminski, mas oferecer a oportunidade de os leitores penetrarem na cabeça e no discurso mental dele”.

Domingos, que por diversas vezes defendeu publicamente o amigo das críticas, acredita que Leminski só tende a crescer como mito literário. “Ele falava que não queria ser apenas escritor, mas um pop star, uma figura instigante, cativante, envolvente. Esse desejo de se fazer mito também tem muito da geração beat. Tem gente que sente inveja dele por isso, por despeito, mas ele merece. Leminski renovou a poesia brasileira”, crava.

Polêmicas

“Minhas lembranças de Leminski” acaba sendo uma afetuosa carta de amor ao amigo, em que Pellegrini relata momentos inspiradores com o poeta, os papos sobre a arte da guerra e a função da poesia (Leminski defendia o verso como “inutensílio”). O biógrafo tampouco se esquiva de temas considerados tabus pela família do amigo, como os seus hábitos etílicos e o estilo de vida que levava.

“A Alice pediu que eu fizesse dois reparos no livro: que ele bebia demais e que eles viviam pobremente. Seria desonesto. Ler, escrever e beber foi o que ele fez mais na vida. E viver pobremente não foi um demérito. O Leminski era um cara que tinha alguns suéteres, um tênis, um chinelo, e umas calças. Ele só comia porque a Alice fazia a comida dele. Ele era ligado em discutir e criar”, revela.

Na opinião de Pellegrini, o desapego demonstra um estilo de vida monástico que Leminski adotou. “É um grande mérito porque ele optou pela vida artística como os românticos do tempo de Castro Alves. Falo isso simpaticamente no livro. Ou a Alice não entendeu ou queria controlar mesmo a biografia”.

Segundo o autor, o poeta chegava a beber duas garrafas de vodca por dia, intercaladas com cervejas. O vício teve influência direta no óbito de Leminski, aos 44 anos. “A morte dele me chocou muito. Dois anos antes eu deixei de encontrá-lo porque me deprimia ver que ele estava só pele e osso, destruído pela bebida. O Paulo jogou com a vida dele, e não foi o primeiro a fazer isso. Foi uma morte lenta, e ele se orgulhava de não ir ao médico. Na verdade, ele não quis se salvar”, conclui Pé Vermelho.

Destaque para o alcoolismo irritou herdeiras

Um dos motivos para as herdeiras desaprovarem o livro de Pellegrini é que o autor teria dado destaque desnecessário ao alcoolismo do poeta e ao seu desapego ao banho, assim como a outras particularidades que passariam uma imagem negativa dele. Também no ano passado, a família impediu que Toninho Vaz, outro biógrafo de Leminski, lançasse a quarta edição do seu “O bandido que sabia latim” por conta de um novo parágrafo que fala sobre o suicídio do irmão do curitibano.

Depois de duas editoras desistirem de publicar o livro de Pellegrini, a biografia finalmente ganhou versão impressa pela Geração Editorial, que decidiu assumir os riscos em lançar sem cortes o material não autorizado. “Curiosamente, na mesma semana em que lançamos o livro, a Câmara dos Deputados aprovou a Lei das Biografias, que agora precisa passar pelo Senado. Acho que elas [as herdeiras] viram que não podiam fazer nada”, conta o escritor.

Inevitável, segundo ele, foi a deterioração da sua relação com a família do amigo. Domingos explica que o livro continua desaprovado, mas não embargado.

“Depois da decisão da Câmara, ninguém vai mais tentar embargar nada, porque que juiz vai deferir? Agora a democracia ganhou liberdade e responsabilidade. Ninguém vai sair escrevendo bobagem porque sabe que a família ou o biografado podem conseguir na Justiça com que o escritor se repare em uma próxima edição, mas sem tirar a obra de circulação. O que não podia continuar era aquela história de biografia chapa-branca. Isso ofendia a livre expressão, que é garantida constitucionalmente”, defende.

Andamento da lei

Depois de três anos em tramitação, a Câmara dos Deputados aprovou em maio deste ano o Projeto de Lei 393/11, que modifica o Código Civil e libera a publicação de “imagens, escritos e informações” biográficas de personalidades públicas, sem necessidade de autorização do biografado ou de seus descendentes. O texto ainda deve ser votado pelo Senado após audiência pública a ser agendada e, se aprovado, segue para sanção da presidente.

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