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Movimento cultural 'Clube da Madrugada' comemora 60 anos de fundação no AM

Clube reuniu artistas e intelectuais do AM e contribuiu para renovação da cultura em várias expressões. “Foi um movimento que deixou suas marcas na literatura, na música, nas artes plásticas e no pensamento amazônico", diz escritor 16/11/2014 às 15:40
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Placa na Praça Heliodoro Balbi registra tradicional local de reuniões do Clube
JONY CLAY BORGES Manaus (AM)

Um dos clubes mais célebres de Manaus jamais teve sede própria: seus membros se reuniam à sombra de um mulateiro, na Praça Heliodoro Balbi. Mesmo assim, os artistas e intelectuais que passaram pelo Clube da Madrugada contribuíram para renovar a cultura e as artes do Amazonas, colocando-as em sintonia com novos ideais e reflexões trazidos pelo Modernismo, a partir dos anos 1920. A trajetória do importante movimento artístico e literário do Amazonas volta à tona hoje, por conta das celebrações pelos 60 anos da fundação do Clube, a se completarem no dia 22.

Embora tenha deixado de existir como clube há muitos anos, o Madrugada deixou um legado que perdura até os nossos dias. É o que comenta o escritor Tenório Telles: “Foi um movimento que deixou suas marcas na literatura, na música, nas artes plásticas e no pensamento amazônico, com inúmeras reflexões que nos ajudaram a compreender a nossa realidade e a olhar a vida social regional sob uma perspectiva mais objetiva e crítica”, declara ele, lembrando que a produção cultural do Clube se manifestou com maior força na literatura.

“Seus autores legaram à produção literária do Amazonas obras expressivas que se equivalem ao que de melhor se produziu no contexto da literatura brasileira”, afirma ele, citando obras como “Alameda”, de Astrid Cabral, “Aparição do clown”, de L. Ruas, ou “Barro verde”, de Elson Farias, dentre inúmeras outras. “Não é exagero dizer que a literatura do Amazonas não seria a mesma sem a contribuição desses escritores de alto nível literário”.

Movimento deixou marcas na literatura amazonense (Foto: Divulgação)

Márcio Souza, que foi filiado do Clube, aponta o otimismo como uma marca do movimento. “Acreditar no ser humano e no futuro da sociedade brasileira é algo que está presente na produção do Clube. Uma nota presente em cada expressão dele é a coisa bonita da esperança”, declara o escritor, lembrando que o movimento trouxe inspirações da segunda fase modernista, “com a derrota do nazismo e o sonho de se construir a democracia, um planeta com paz entre as nações”.

Clube nas ‘trevas’

Por outro lado, o Clube também sofreu um golpe com a ditadura militar. “Uma das maiores expressões da literatura no Estado, Astrid Cabral, foi perseguida pela ditadura”, lembra Souza.

Francisco Vasconcelos, que entrou no Madrugada em 1956, assumiu a presidência da instituição justo em 1964, e lembra das “trevas” do período. “Eu acabara de voltar de um período em Santos (SP), e o Clube estava praticamente esfacelado. L. Ruas e Ernesto Pinho Filho haviam sido presos. Havia uma perseguição a quem pensava”, conta ele.

Mesmo temeroso por conta de seu passado de líder estudantil, Vasconcelos assumiu o cargo e, com o apoio do governador Arthur Cezar Ferreira Reis, conseguiu mais tarde movimentar o Clube e a cidade com eventos artísticos e literários. “As pessoas se admiravam de conseguirmos colocar 300 pessoas num auditório”, conta.

Legado a celebrar

Manter vivas as realizações do Clube da Madrugada, embora cada vez mais distantes na História, é mais necessário do que nunca, como contraponto ao cenário atual, por vezes desalentador. “A partir dos anos 1970, com a Zona Franca, Manaus tomou outro rumo. Mas culturamente, tudo o que o Clube realizou foi válido. Seu legado é histórico, e isso ninguém pode tirar”, diz Vasconcelos.

“O movimento Madrugada nasceu para questionar o status quo de uma sociedade provinciana e apegada a valores academicistas. Celebrar o Clube hoje tem outro sentido: é uma forma de denunciar a violência, a barbárie, a ignorância. Celebrar a cultura em nossos dias é celebrar o pensamento e uma forma de dizer não à degradação da vida e dos valores espirituais”, declara Telles.

Márcio Souza é ainda mais incisivo: “Hoje, a grande cultura de exportação são cunhãs rebolativas e rapazes que dão e levam porrada. Nada contra, mas não pode ser assim. Este é um Estado que já teve Thiago de Mello e Claudio Santoro como seus grandes nomes. Não se pode deixar que se perca essa herança”.

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