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Mulheres deixam a chapinha e dividem amor pelo cabelo natural

Algumas mulheres decidiram não se render aos tratamentos químicos e outras ferramentas de alisamento para defender o 'poder dos cachos' 10/01/2015 às 20:09
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Michelle nunca usou produtos químicos de alisamento
Natália Caplan ---

“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar...”, já cantava Roberto Carlos, em 1971. Diferentemente daquela década, hoje os cabelos lisos tomam conta de capas de revistas, passarelas e da preferência nos salões de beleza. Porém algumas mulheres decidiram não se render aos tratamentos químicos e outras ferramentas de alisamento para defender o “poder dos cachos”.

“Quase todos têm o cabelo liso, são iguais. Eu penso: ‘você foi escolhida por Deus entre tantas pessoas para ter um cabelo cheio de molinhas! Você tem que sentir bem, diferente da maioria’. Hoje, é assim que eu me sinto. Falem o que quiser. Não me importa”, diz Rafaela Santos, 21. A universitária do curso de fisioterapia, porém, já passou por uma “crise capilar” na adolescência por conta da influência de amigas.

“Alisei, quando eu tinha 15 anos. Não gostava, tinha vergonha do meu cabelo. Todas as minhas amigas tinham cabelo liso natural e eu era a única cacheada. Então, fiz defrisagem para ficar na moda”, lembra, ao ressaltar que fez o procedimento por dois anos.

Segundo Rafaela, a experiência não valeu a pena, apenas resultou em cabelos secos e gasto desnecessário com os produtos — quase R$ 1 mil em 24 meses. Ela aprendeu a aceitar e cuidar das madeixas naturais. “Na semana passada, uma colega da faculdade me disse ‘pelo menos, o meu cabelo não é pixaim igual ao teu’. Se fossem outros tempos, acho que eu teria alisado. Mas hoje tenho maturidade para não ser influenciada. Amo meus cachos”, enfatiza.

Quem também lidou com a pressão de pessoas próximas foi Michelle Freitas, 25. Entretanto, ela não se rendeu aos produtos químicos. “Nunca pensei em alisá-lo, pois me baseei nas experiências frustrantes das minhas amigas. Na adolescência, eu fazia escova e chapinha, mas apenas quando tinha um evento que julgava ser importante. Eu achava o máximo o fato de o meu cabelo perder todo volume e ficar lisinho”, lembra.

Diferentemente da futura fisioterapeuta, que sofreu na escola, a assistente de qualidade teve problemas no ambiente de trabalho. Como usava o cabelo preso em coque, recebeu apelidos pejorativos. “Aos 21 anos, não alisava, mas também não gostava dele solto. Até que, um colega de trabalho, começou a me apelidar de ‘velha do Chaves’. Os comentários começaram a incomodar e passei a soltá-lo aos poucos. Depois disso, meu cabelo virou minha paixão”, diz.

Atualmente defensora ferrenha dos cremes para pentear e hidratar, Michelle não apenas aceitou os cabelos cacheados, como abriu mão totalmente da ideia de alisá-lo novamente. “Eu fui amadurecendo e percebi que, quem tinha cabelo cacheado queria ter liso e quem tinha liso queria ter o meu cabelo. Pensei: ‘sou privilegiada por ter cachinhos’. Passei a gostar, a me aceitar. Meu cabelo é uma das coisas que mais prezo em mim”, afirma.

Já a estudante Carina Sigmaringa, 18, exibe o cabelo natural com orgulho. Já usou tranças afro e, agora, optou pelo black power. “Fiz a transição para o black e me sinto premiada por representar uma etnia que há muito tempo foi reprimida com o uso de química e até da chapinha. Não sou contra o uso, porém sou totalmente a favor do uso dos cachos naturais, pois demonstra quem eu sou e de onde eu vim. Sinto orgulho dos meus cachos crespos e de ser um referencial de mulher afro-descendente”

‘Faça amor, não faça chapinha’

Esse é o nome da página no Facebook criada por um grupo de amigas de Pernambuco para exaltar a beleza e a cultura dos cabelos naturalmente cacheados. “Gostei do efeito que a página ‘Faça amor, não faça a barba’ teve na visão estética das pessoas, que passaram a ver a barba como algo bonito. Achei que seria bom se tivesse um projeto desses relacionado aos cabelos crespos e cacheados”, diz Letícia Carvalho, 17.

Ela, então, desenhou uma mulher de cabelo Black Power, com a legenda ‘faça amor, não faça chapinha’ e publicou no próprio perfil. O objetivo era desmistificar o conceito social de que o liso é o ‘cabelo bom’. O resultado foi um pedido para que a estudante colocasse a ideia em prática. “A Amanda (Bonfim, 19, uma das administradoras) compartilhou a imagem, pedindo que a página fosse criada”, lembra.

Desde a criação, em julho de 2013, o “Faça amor, não faça chapinha” conquistou mais de 111 mil seguidores, que compartilham fotos e depoimentos pela liberdade de expressão capilar. Algumas histórias, inclusive, marcaram o grupo de administradoras da página, também integrado por Alice do Monte, 18, Katarina Mendes, 19, e Nathália Ferreira, 20.

“Uma menina mandou uma foto da irmã mais nova, que estudava em um colégio onde todas as crianças da sala dela eram brancas e de cabelo liso. Diziam que ela tinha ‘cabelo ruim’ e ela odiava o próprio cabelo. Postamos a foto e, quando ela viu no Facebook, disse ‘que menina linda’. A irmã mais velha disse ‘é você!’. Ela ficou encantada e, quando disseram que o cabelo dela era ruim, ela disse que não, que o cabelo dela era lindo”, conta Amanda.

‘Papo reto’

Na opinião de Letícia, os estereótipos são prejudiciais à sociedade por estabelecer o conceito de que uma etnia, cultura ou moda é superior. “Na verdade, elas só são diferentes. Esse pensamento de que um é melhor que o outro é o que move o racismo”, concluiu.

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