Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
Vida

Mundo próprio: Desafios de socialização dos autistas

Seja nos folhetins ou na vida real, familiares de autistas e portadores do transtorno convivem com as necessidades da disfunção



1.jpg Neuropediatra diz que os pais de autistas devem receber informações sobre potencialidades e limitações dos filhos
24/11/2013 às 17:08

O universo particular da personagem Linda, da novela “Amor à Vida”, certamente se assemelha à realidade de muitos portadores de autismo no Brasil. Conhecido por ser um transtorno definido por alterações presentes desde idade muito precoce – tipicamente antes dos três anos de vida – e que insere características peculiares de socialização e comportamento em seus portadores, está longe de ser algo que inferioriza ou limita totalmente: desmitificação que muitos especialistas e familiares de autistas lutam para consolidar de vez na visão da sociedade.

Segundo a médica Lívia Vianez, especialista em Neuropediatria pela USP-Ribeirão Preto, em Neurofisiologia e Epilepsia pela UNIFESP (Escola Paulista de Medicina) e em Neurofisiologia Neonatal pela Children’s Hospital of Philadelphia (EUA), a disfunção afeta a vida das crianças em três esferas: a capacidade de comunicação, socialização e comportamento.

“De uma maneira sucinta, a criança com autismo terá dificuldade ou falta de interesse em se relacionar com crianças da sua idade, principalmente as desconhecidas, olhará pouco para os olhos das pessoas (mesmo quando pede algo), não responderá ao chamado de seu nome com a frequência usual. Haverá atraso de fala e o ato de apontar será um complemento da comunicação verbal”, explica Vianez.

Acerca das muitas limitações aos autistas, impostas muitas vezes por seus entes próximos, a especialista afirma que muitas vezes os pais e familiares não sabem como abordar a criança acometida e adoecem junto com a mesma, mudando suas rotinas, seus hábitos e até abdicando de suas vidas. Vianez ressalta que os profissional deve levar em conta cada caso isoladamente, para orientar a melhor abordagem.

“Ainda nos dias de hoje, existe muito preconceito acerca da criança autista, e nesse aspecto, é bom salientar que existem classificações e graus de acometimento. Há o autista grave, com deficiência mental severa; o grupo do autismo clássico que tem comprometimento moderado e os indivíduos com a síndrome de Asperger, que são autistas com linguagem e intelecto preservados. A inserção de cada indivíduo no convívio social vai depender desses aspectos e do quanto o tratamento para controle de certos sintomas está sendo eficaz, seja ele medicamentoso ou não”, pondera.

Alguns autistas surpreendem com um nível altíssimo de inteligência, conforme a médica. “Quando o portador tem boa inteligência, ele vai apresentar o que antes chamávamos de ‘autismo de alto funcionamento’ ou síndrome de Asperger. Geralmente os portadores desta última condição chegam a ser confundidos com gênios, por serem verbais, inteligentes e quase imbatíveis nas áreas de conhecimento em que se especializam”, aponta.

Apoio familiar

O presidente da Associação Amigos dos Autistas do Amazonas (AMA-AM), Edmando Saunier, é pai do primeiro autista diagnosticado no estado, o jovem Edmando Viga, 32. Na época do diagnóstico, em 1985, ele vivenciou um período escuro em relação ao transtorno, quando pouco se sabia o que era autismo. O médico que assinou o diagnóstico o incentivou a estudar para que ele conhecesse mais sobre a condição de Mandinho (como ele chama o filho), e foi o que ele fez: hoje ele totaliza mais de duas mil horas de estudos sobre o tema.

“Fiquei preocupado de ver que, na época, pessoas autistas não tinham um suporte. Eu e minha esposa nunca vimos por esse lado do preconceito. Fiquei com medo de ele não sobreviver, porque nasceu pesando 1 kg. Hoje ele convive legal com a gente, não fala, mas entende o que dizemos. Ele passeia, gosta de pintar e de culinária. O problema do autista é apenas comportamental”, alega Saunier.

Conexão emocional

Em meio às dificuldades de interação com o filho Eli, 12, o fotógrafo americano Timothy Archibald preferiu criar uma outra forma de se comunicar com o garoto. A partir do dia a dia do menino, ele criou a série fotográfica “Echolilia: Sometimes I Wonder”, para poder mergulhar um pouco mais na atmosfera do filho. “É onde me permito saber mais sobre mim também”, disse o fotógrafo, em entrevista ao Jornal A CRÍTICA.

Archibald, que descobriu o autismo em Eli quando ele tinha 5 anos, afirma que não é um ativista do autismo ou algo parecido. Sua defesa está a favor da construção de relacionamentos para que pais se conectem com seus filhos.

“Qualquer pai pode usar as ferramentas que tiverem para tentar compreendê-los. Não tenho nenhum conselho aos pais, pois não sou especialista. Mas eu conheço o valor da conexão emocional, e sobre como uma relação em que se investe pode alimentar a todos”, conclui.

Dados

Segundo Edmando Saunier, há cerca de 20 mil autistas no Amazonas. O caso de autismo surge a cada 368 crianças de 7 a 12 anos, diz o 1º estudo do transtorno na América Latina, de fevereiro de 2011.

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