Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019
Vida

Não vivo sem ela!

Décadas de convivência e amizade garantem a domésticas espaço no coração de famílias



1.jpg Confiança e apoio mútuo são base da relação de Andrea Cavalcanti e família com Cila (à dir.), há mais de dez anos
14/04/2013 às 10:49

 “Empregada”, não! Para pessoas que convivem com elas há muitos anos em suas vidas, essas verdadeiras “gerentes do lar” conquistaram um status mais importante – já são praticamente “parte da família”. Por isso, mesmo após a recente promulgação da nova lei para domésticas, que torna mais caro ter uma profissional dedicada em casa, nem pensam em dispensar os serviços de quem tem estado ao seu lado por tanto tempo.

Quase irmãs



No caso de Maria José Ferreira e Maria Madalena da Silva, esse tempo já soma quase quatro décadas. São patroa e empregada, respectivamente, mas tantos anos trataram de transformar a diferença semântica em igualdade quase fraterna. “Nem a considero bem uma empregada, pois Maria Madalena está comigo há 38 anos. É uma ‘caboquinha’ do interior, muito calma. Eu a considero uma irmã, uma confidente. Tenho 67 anos, e ela é uma amiga que eu tenho”, declara Maria José, que é funcionária pública.

Madalena, 54, entrou na vida de Maria José num episódio triste desses que aconteciam pelo interior, que esta até tem vergonha de recordar. “O pai me ‘deu’ ela. E ainda disse, ‘No dia que a senhora não quiser mais, bote na rua’”, lembra. Nem Maria José seguiu o mau conselho, nem Madalena deixou a ela. E, após a morte do pai, meses depois, a família da funcionária pública se tornou a sua. “Ela diz que não pretende sair nunca. A família dela somos nós, e ela é a nossa”.

Maria José até já busca garantir o bem estar da amiga de tantos anos em sua possível ausência, incluindo Madalena ao lado dos quatro filhos (três homens e uma mulher, todos casados) na divisão da venda de seu apartamento. Nem no fim dos trabalhos ela deverá ser esquecida. “Já disse aos meus filhos, ‘Quando a Maria morrer, se eu não estiver mais viva, vocês vão colocar a Maria na minha sepultura. É como se fosse uma irmã de vocês’”.

Aniversários

Quem também já é “da família” é Neusa dos Santos, que há 23 anos trabalha com a desembargadora Liana Mendonça de Souza e seus familiares. Na última terça, ela estava ansiosa para comparecer à missa de formatura da neta de Liana, como esta conta: “Ela praticamente criou meus netos. Há pouco ela dizia, ‘Tenho muita coisa para fazer, mas não posso faltar, já fui à formatura dos dois mais velhos’”.

Neusa é tão parte da família que faz parte do calendário festivo da família de Liana. É na casa da desembargadora que Neusa comemora seus aniversários, e até os 15 anos da filha. A copeira Francisca Antonia, há 15 anos com a família, também entra nas celebrações. “Festejo os aniversários delas na minha casa, na Vivenda Verde, e convido meus amigos também”, conta Liana. A Neusa ela vê “como uma irmã”, e não lhe poupa elogios: “É muito honesta, séria, trabalhadora. Mora na minha casa e é muito fraterna. Se eu precisar viajar para um congresso em Roma, ela vai comigo”.

Na intimidade

A confiança e o apoio mútuo são a base da relação de Andrea Regina de Castro e Cavalcanti com Maria das Graças Cunha Nascimento, 56, e Maria Ecília Ferreira Lima, a Cila, 40, que trabalham para ela há mais de dez anos. E é por causa disso também que não pretende abrir mão das duas em casa. “São pessoas da família já, e da mesma maneira como precisamos delas, elas precisam da gente”, afirma a procuradora que, antecipando a lei, desde o início vem remunerando as horas extras das trabalhadoras.

A relação de Cila e Maria das Graças com a família, naturalmente, vai além do serviço cotidiano. “Elas participam de nossa intimidade. Nos aniversários da casa, participam como convidadas. E sabem que podem contar comigo para todas as adversidades do cotidiano, seja uma questão financeira ou uma palavra de conforto”, afirma Andrea. Sila confirma: “Nossa relação é muito boa. Ela (Andrea), o esposo e a filha, com todos é uma relação de amizade e reconhecimento”.

Além de oferecer emprego, Andrea ainda abriu a casa e o coração para receber o filho de Cila, Filipe. O garoto, criado pela procuradora desde os 4 meses, hoje tem 9 anos. “A preocupação que eu tenho com a educação dele é a mesma que tenho com a da minha filha. Ano que vem ele entra na aula de inglês”, comenta ela, que espera com isso mudar não só a vida do garoto. “É minha maneira de ajudar: é dar ao filho uma oportunidade de mudar a vida dela”, conclui.

‘Secretária’ e amiga


Assim como Maria José, Anadir Soares de Mendonça desgosta do termo “empregada”. Falando à reportagem, prefere definir Lucimar da Costa, 60, que trabalha em sua casa há 14 anos, como sua “secretária”. Mas, no dia a dia da casa, as duas se tratam mesmo pelos nomes e apelidos familiares. “Ela tem tanta amizade comigo que é difícil me chamar de ‘dona’, mas simplesmente Anadir ou Lalá, que é como me chamam em casa. Quer dizer, ela é uma pessoa de dentro da família”, conta a senhora, de 77 anos.

Anadir não tem a mais remota intenção de dispensar Lucimar do trabalho que esta executa quatro dias por semana. E, mesmo depois da aposentadoria próxima da secretária, apreciaria manter seus serviços. “Em setembro ela se aposenta, mas se quiser continuar trabalhando para mim, ela continua”, diz ela, falando como empregadora e como amiga: “Ela já conhece todo o serviço, e temos confiança nela. Ela sabe de tudo que se passa em casa, a gente já a considera da família”.


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