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EXPOSIÇÃO

No RJ, festival 'Multiplicidade' reúne obras de arte produzidas a partir de erros

Evento faz homenagem à apresentação do multi-instrumentista Naná Vasconcelos, ocorrida há sete anos e que ficou marcada por um blecaute. Mostra fica em cartaz no teatro Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro 20/07/2016 às 14:01
Show nana
Evento faz homenagem a Naná Vasconcelos, falecido em março deste ano (Foto: Divulgação)
Rosiel Mendonça* Rio de Janeiro (RJ)

Na noite do dia 10 de novembro de 2009, o Brasil viveu o maior apagão da sua história, quando uma falha nas linhas de transmissão da Usina Hidrelétrica de Itaipu afetou o fornecimento de energia em 14 estados do País. O blecaute, no entanto, não foi o suficiente para o multi-instrumentista Naná Vasconcelos interromper a apresentação (coincidentemente batizada de “Blind Date”) que fazia para uma plateia de mil pessoas no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, durante a programação do festival Multiplicidade.

Sete anos depois, o festival se reporta àquele momento de eminente colapso para falar de um tema improvável nas artes: o erro e seus potenciais criativos. É nesse clima que o Multiplicidade realiza a sua primeira edição em formato de exposição, com obras de artistas brasileiros e estrangeiros que trazem em seu DNA inquietações poéticas, investigações tecnológicas e linguagens híbridas. A mostra fica em cartaz no Oi Futuro Flamengo, no Rio de Janeiro.

“Nunca foi tão importante ressignificar nossos acertos a partir de nossos erros, e a arte pode ser esta fonte rejuvenescedora. É importante estar em movimento constante. O momento político-cultural não permite inércia alguma, sobretudo mental. A nova regra é olhar com afeto para a exceção, a intuição, o improviso e o aleatório. A arte só existe entre nós quando ela transcende a realidade para se expressar e atingir outras dimensões”, explica o curador do festival, Batman Zavareze.

Segundo ele, esta edição do Multiplicidade não deixa de ser uma homenagem a Naná Vasconcelos, falecido em março deste ano. “O combinado era que o Naná estaria aqui para recriar aquela experiência e tocar nesse prédio às escuras”, disse Batman, durante o lançamento do festival, na última segunda-feira.

“Aquela apresentação de 2009 foi muito marcante, porque mesmo com o blecaute que aconteceu ele tocou durante duas horas além do combinado. Ele não deixava as pessoas saírem do teatro fazendo com que elas interagissem com ele por meio dos sons. Quando convidei os artistas a entenderem o conceito do festival desse ano tive que falar daquela situação calamitosa e de como o Naná conseguiu transformá-la em beleza”.

Tecnologia e arte

Uma das características principais do Multiplicidade é a simbiose entre recursos tecnológicos (de hoje ou do passado) e artes visuais. “Temos uma histórica relação com a tecnologia. O que mais nos interessa, porém, é da poética e da transformação que surge no momento em que enxergamos o mundo por outros olhos”, explica o curador.

Um dos destaques da exposição é o francês Joanie Lemercier, com a impronunciável obra “Eyjafjallajokull” (2010), uma instalação audiovisual que remete ao vulcão islandês que dá o nome ao seu trabalho. “Nesse trabalho ele cria uma relação bidimensional com o maping até então pouco explorada na arte digital”.

“Ele estava na Europa no momento em que o vulcão entrou em atividade e fechou diversos aeroportos da região. Então o Jonaie começou a mapear diversos vulcões e provocou os desenvolvedores de software de maping de era válido também trabalhar com estruturas bidimensionais, e não só tridimensioanais. Mas isso só foi possível porque ele viveu uma situação improvável que o levou a ressignificar essa técnica”.

Nomes como Matheus Leston, Tomás Ribas e Giuliano Obici também ocupam o Oi Futuro Flamengo com suas instalações. Este último apresenta pela primeira vez no Rio de Janeiro a obra “Concerto para Lan House” (2010), primeiro trabalho brasileiro premiado no ZKM, mais importante centro de pesquisa em arte digital da atualidade, localizado na Alemanha.

“Concerto para Lan House” é uma experiência de imersão sensorial que envolve luzes e sons numa verdadeira “sinfonia digital”. Trata-se de uma instalação audiovisual para computadores conectados em uma rede local (LAN), ou seja, fazendo uso das possibilidades de transmissão de dados de uma máquina para outra.

O trabalho surgiu de experimentações realizadas durante oficinas e hacklabs de áudio e vídeo interativo ministradas em salas de acesso livre à internet pelo Brasil. Segundo o artista, aobra enfatiza uma espécie de “performatização midiática” da rede local de computadores. “É um exercício estético ‘performidiático’ e também uma singela homenagem às 108 mil lan houses espalhadas pelo Brasil”, afirma.

Também no Canal Brasil

Uma das novidades da temporada é a estreia da série Multiplicidade, dia 07 de setembro, no Canal Brasil. No programa, o festival revisita seu acervo e conversa com figuras emblemáticas da vida digital em uma atração sobre música, arte e tecnologia.

A série realiza uma versão televisiva do Multiplicidade com depoimentos, encontros e vivências marcadas pelas novas ferramentas do futuro, bem como ampliando a reflexão sobre certos temas do universo digital.

Com 10 episódios, de 15 minutos cada, destacam-se temas como “Tudo é Tela”, “Novos Olhares”, “Tecnologia e Periferia”, “Linguagens Híbridas”, “O Futuro das Tecnologias”, “Detox Digital”, entre outros.

*O repórter viajou a convite do Oi Futuro

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