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O homem mais odiado da TV: Iwan Rheon fala sobre seu personagem em 'Game of Thrones'

Iwan Rheon, mais conhecido como o odioso vilão Ramsay Bolton de "Game of Thrones", sem dúvida é o homem mais execrado da TV no momento. Ele admite, no entanto, se preocupar de estar sendo definido por apenas este um personagem 05/05/2016 às 11:45 - Atualizado em 05/05/2016 às 11:52
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Na sexta e nova temporada, Rheon dá a entender que Ramsay irá mais além, chegando até a sentir algo próximo à emoção humana (Foto: Elizabeth Weinberg/The New York Times)
Stephanie Saul/New York Times News Service

Como muitos atores de sucesso, Iwan Rheon, mais conhecido como o odioso vilão Ramsay Bolton de "Game of Thrones", sem dúvida o homem mais execrado da TV no momento, admite se preocupar com o fato de estar sendo definido por um personagem só. Porém, ao responder a pergunta seguinte – "Em que mais você está trabalhando?" – fica bem claro o tamanho do desafio enfrentado pelo rapaz.

"Estou fazendo uma versão jovem de Hitler", responde ele, referindo-se ao filme para a TV britânica "Adolf the Artist". Aí cai a ficha e seu rosto se contorce em um desespero fingido: "Ah, já virei ator estereotipado!".

Essa é a vida do homem por trás do personagem que, em três temporadas de "Game of Thrones", se tornou o símbolo dos impulsos mais sombrios e perturbadores da série. Desde que chegou, na pele de um sádico, na terceira temporada, esse ex-bastardo ambicioso cresceu para não só representar a obsessão dinástica da história como infligir algumas de suas piores violências. A lista inclui esfolar e castrar os inimigos, caçar uma garota só por diversão e, a mais controversa, estuprar sua noiva/refém, Sansa Stark (Sophie Turner), na noite de núpcias.

E o fato de fazer tudo isso com um sorriso infantil no rosto o torna muito mais desgraçado. Rheon explica que criou Ramsay como a mistura do Coringa alucinado de Heath Ledger e Denis, o Pimentinha com um toque de Liam Gallagher, o ex-vocalista mal-humorado do Oasis. O resultado lhe garantiu o topo de muitas listas dos "mais odiados" da internet. Em dezembro passado, os leitores do The Atlantic elegeram Ramsay como "o pior pesonagem da televisão", batendo Hannibal Lecter e Walter White, além de Joffrey Baratheon, o desprezível rei-menino que Ramsay substituiu como o vilão-símbolo de "Game of Thrones".

"Depois que perdemos Joffrey, ficou um buraco no 'espaço psicopata' do mundo de 'Thrones', mas Iwan acrescenta um toque de horror, uma insanidade que Joffrey nunca teve. Precisávamos ter alguém a quem odiar e adoramos odiá-lo", escreve Sophie por e-mail.

Na sexta e nova temporada, Rheon dá a entender que Ramsay irá mais além, chegando até a sentir algo próximo à emoção humana ao lamentar a morte de uma namorada, ocorrida no final da fase anterior. ("Até eu fiquei surpreso com essa", confessou.) É claro que ele também está louco de ódio com a fuga de seus prisioneiros, Sansa e Theon (Alfie Allen), o jovem nobre que ele castrou, forçado a viver como escravo e rebatizado de Reek. E já sinaliza quem talvez seja sua vítima mais estarrecedora até agora: o meio-irmão não-nascido que pode ser um herdeiro concorrente.

Os criadores da série, David Benioff e D.B. Weiss, tão obcecados com o sigilo que se recusam a enviar cópias screener aos críticos, dizem apenas que Ramsay vai "aprontar coisas muito ruins".

"Às vezes dá até para pensar, 'Poxa, mas não dá para fazer uma coisinha legal?'", diz Rheon, rindo. "Mas é que nessa série os heróis não seguem o padrão, então os vilões têm que ser mesmo terríveis."

Rheon, 30 anos, assume a posição de mais odiado com facilidade. Inegavelmente charmoso, o galês que nasceu em Cardiff e hoje vive em Londres se diverte com a fama e garante que é "uma honra" ser considerado o mais desprezível em um seriado de desprezíveis.

"Pelo que dizem, sou mais assustador que um Caminhante Branco. E um gigante. E um dragão", comenta.

No geral, os fãs não o culpam pelas atitudes de Ramsay e a realidade técnica da produção impede que as más ações de seu personagem pesem demais em sua alma. As castrações, por exemplo, envolvem um pedaço de borracha e uma faca falsa, que ele tem só que segurar para que a luz registre os ângulos mais malévolos, deixando pouco espaço para a preocupação excessiva com a dimensão moral do ato.

Uma exceção foi o estupro de Sansa, na temporada passada. "Foi muito complicado; não consegui dormir na noite anterior", confessa.

Como outros atores, porém, ele continua um tanto surpreso com a indignação que gerou, menos pela fúria em si que pela proporção e a natureza seletiva da coisa. Alguns episódios depois, a imolação de uma menininha, em comparação, praticamente não gerou reações.

"Não quero ficar comparando qual barbaridade é pior que a outra, mas queimar uma criança na fogueira? É medonho demais, não?".

Para um homem conhecido pela crueldade na tela, Rheon não poderia ser mais gentil no diálogo. Autodepreciativo e solícito, é dado a piadinhas e evasivas bobinhas – como quando pergunto quem são seus canalhas favoritos e ele menciona Stringer Bell de "The Wire" e o tiranossauro de "Jurassic Park". Talvez mais chocante para os fãs de "Thrones" seja o fato de ele passar seu tempo livre compondo e gravando canções folk-pop, quase sempre sozinho, mas de vez em quando na companhia do irmão, Aled. No ano passado, lançou seu primeiro álbum, "Dinard".

"Ele é um cara muito legal; não sei dizer por que dá um psicopata tão bom", diz Allen, alvo dos atos mais cruéis e grotescos de Ramsay. (Os atores, que são amigos na vida real, de vez em quando encontram fãs incrédulos, que não se conformam de ver os dois se divertindo juntos. "Dá vontade de perguntar se a pessoa acredita em dragão, sabe?", confessa Allen.)

Pessoalmente, fora dos ambientes escuros que seu personagem assombra em "Game of Thrones", o rosto de Rheon está mais para angelical que demoníaco, com um desleixo estudado e um cabelo cuidadosamente desgrenhado que vai ganhando novas formas conforme vai sendo ajeitado durante a conversa. O que o define, porém, são os olhos azuis, que tendem a se arregalar maliciosamente em "Game of Thrones", animados com a perspectiva de uma crueldade ou outra.

"Ele tem um jeito de encarar, um olhar sorridente, aberto, que parece ver o que vai por dentro da gente", comenta Sophie.

Nascido em Carmarthen, Rheon e a família se mudaram para Cardiff quando ele tinha cinco anos; cresceu tocando em bandas punk e sonhando em ser astro do rock – mas a participação no Eisteddfod, maior festival cultural do País de Gales, o levou a ser recrutado para participar de uma novela local e, dali, a estudar na London Academy of Music and Dramatic Art. O papel que o revelou veio logo depois de se formar: Moritz, o suicida da produção londrina de 2009 do musical "Spring Awakening".

O personagem foi um dos muitos sujeitos problemáticos, atormentados ou esquisitos que já foi convidado a interpretar. Foi um delinquente juvenil na série britânica "Desajustados"; um traficante errático em "Wild Bill – Uma Lenda do Oeste"; um soldado traumatizado no drama da BBC, "Our Girl". (A exceção foi sua participação como o vizinho sério de Ian McKellen e Derek Jacobi no sitcom "Vicious".)

Para "Game of Thrones", a princípio fez teste para disputar o papel do heróico (e temporariamente morto) Jon Snow, que, como se sabe, foi para Kit Harington. "Mas não nos esquecemos de seu talento e versatilidade", comentam Benioff e Weiss em um e-mail conjunto; e ele entrou para a série na terceira temporada. "A faísca de humanidade que Iwan revela de vez em quando torna todas as suas maldades ainda mais escabrosas", completam.

A tortura que Ramsay infligiu a Theon, durante toda a temporada, testou a paciência do público, mas sua profundidade se revelou quando ficou óbvia a motivação, uma mistura tóxica de adoração e ressentimento pelo pai, Roose Bolton (Michael McElhatton).

"A combinação de garotinho e psicopata faz de Ramsay muito mais que um vilão caricato", afirma McElhatton. E também o coloca indiscutivelmente como parte do ciclo multigeracional brutal do legado e vingança que move "Game of Thrones", mesmo que o ator ainda não saiba direito por que se adequou tão bem.

"Fico tentando descobrir o motivo, mas é difícil analisar objetivamente por que acabo sendo escalado para dar vida a tantos tipos estranhos. Os olhos grandes, será?", arrisca Rheon. "Bom, não estou reclamando, não", conclui.

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