Quarta-feira, 19 de Junho de 2019
Vida

O mundo fora do ‘tamanho P’: blogueira incentiva diversidade em ensaio ousado

Blogueira Ju Romano pousou semi-nua para a revista Elle e reacendeu discussões sobre imagem corporal. Ilustradora mineira e cantora amazonense comentam o assunto



1.jpg A capa da revista Elle para tablet traz a blogueira Ju Romano semi-nua
08/05/2015 às 13:37

A capa da versão tablet da revista Elle deste mês estampa a blogueira Ju Romano, do site “Entre Topetes e Vinis” (http://juromano.com/), semi-nua, vestindo apenas um casaco Prada e sapatos Miu Miu. Até seria uma capa comum - visto que as blogueiras de moda mais famosas atualmente são verdadeiras Barbies - porém Ju não é como a maioria delas. Ela é como boa parte das mulheres que geralmente ficam fora do alcance dos holofotes de revistas de moda de grande circulação, como a Elle. Mulheres com quilos a mais, com estrias, celulites. Que não vestem tamanho P. E, para completar a ousadia, a foto em questão não traz retoques de photoshop ou maquiagem carregada. Crua e real.

A edição não trata, porém, de moda plus size (voltada para gordinhas). A ideia é trazer à tona a ainda tímida representatividade diversa - também das sardentas, das albinas e de certa forma, de todas aquelas fora no padrão de beleza imposto. O assunto é até discutido com frequência, mas pouco se vê na prática ensaios como os de Ju Romano em veículos que não sejam especializados. Para a blogueira, isso ocorre porque a indústria está acomodada em lucrar com a infelicidade da mulher. 

“Se uma revista, jornal ou site tem um anunciante que vende um produto contra estrias, por exemplo, e isso é o que paga o salário dos funcionários no final do mês, esse veículo vai estimular a compra de tais produtos. Falando assim parece uma decisão fácil e uma questão de ética, mas a verdade é que é uma prática tão enraizada no jornalismo feminino que as repórteres e editoras estão acostumadas a escrever e pensar assim”,  comentou Ju, que também é jornalista.

Quando recebeu o convite da Elle, a blogueira foi informada que se tratava de um ensaio abordando a diversidade e mulheres que estão mudando a Internet nesse sentido. Ao ver o resultado final, Ju tomou consciência da magnitude do feito. No seu Facebook, o post com a foto de capa teve mais de 18.600 curtidas, mais de 5 mil compartilhamentos e muitos, muitos elogios. A repercussão a fez se questionar o motivo de tão poucas iniciativas do tipo. “Quando comecei o blog em 2009, queria que as revistas tivessem essa coragem. Desde então, venho brigando por mais representação na mídia. Essa foto é o fechamento de um ciclo e a abertura de novas possibilidades”, disse.

Desconstruções 


Assim como Ju Romano, outras mulheres estão saindo da sombra opressora da imagem corporal perfeita retratada em grandes meios de comunicação. A atriz, roteirista e cineasta  Lena Dunham é criadora e protagonista da série “Girls” (da HBO), na qual aparece nua (ou semi) em diversas cenas. A frequência com que Lena expõe seu corpo fora dos padrões já recebeu críticas duras - que não lhe afetaram.

A designer e ilustradora mineira Carolina Rossetti ganhou fama na Internet por conseguir fazer com que o público se enxergasse em suas ilustrações carregadas de críticas sociais. Carol desconstrói questões não apenas relativas à imagem corporal, como também a comportamentos, orientação sexual, sensos comuns, racismo, etc. Suas inspirações começaram a partir do círculo de amigos, experiências pessoais e pessoas que ela observava. Depois, a Internet lhe proporcionou um mundo de exemplos reais - e eles aparecem cada vez mais. 

“Nós somos seres sociais e necessariamente temos uma grande bagagem cultural que vem com vários preconceitos. É um processo constante de aprendizado e desconstrução”, afirma.A cantora e produtora cultural amazonense Elisa Maia é militante nesse processo de desconstrução. Feminista assumida, ela já participou de eventos como o Encontro Latinoamericano de Mulheres (Ella) e o Seminário Nacional Mulher e Cultura, nos quais teve contato com mulheres de realidades bem vulneráveis.

“A gente vive travestindo o nosso preconceito com o incômodo em relação à imagem do outro. Ouvimos frases ‘Ah, você deveria emagrecer para ficar mais saudável’, por exemplo. Fico analisando como aquilo que está fora do padrão estético que é imposto, incomoda”, opina. Mais confortável com sua própria imagem após vencer preconceitos de alguns “incomodados”, a cantora diz que enxergar-se em pessoas reais, como Ju Romano, é uma parte fundamental desse processo. “A gente precisa se visualizar para começar a se aceitar”.

Saiba +

O projeto “Mulheres” de Carolina Rossetti, que traz diversas ilustrações com críticas sociais, irá virar livro em setembro pela editora Sextante. Enquanto este não sai, as imagens podem ser vistas em Facebook.com/carolrossettidesign e http://www.carolrossetti.com.br/.

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