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O preço da beleza: elas investem e refletem sobre o bem-estar

Pesquisa indica que mulheres gastam 54% do salário com produtos de beleza; itens de beleza femininos são de 4% a 13% mais caros do que os produtos masculinos 24/07/2016 às 05:00
Show thayna
Thayná acredita que sentir-se bem com a imagem impulsiona nas áreas da vida (Fotos: Evandro Seixas e Renan Oliveira)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

Das necessidades básicas de cada um, todo mundo reserva uma pequena parte – por menor que seja – da vida para cuidar do visual. Mas uma pesquisa encomendada pelo site de relacionamentos MeuPatrocinio.com indica que as mulheres gastam 54% de seus salários com produtos de beleza. A pesquisa ouviu 2.591 pessoas, entre homens e mulheres. Só que a mesma pesquisa mostra que os itens voltados à beleza feminina custam de 4% a 13% a mais que os produtos voltados aos homens. O que as mulheres teriam  dizer sobre isso?

A estudante de moda Rebeca Oliveira, 25, afirma que costuma gastar um pouco mais com roupas. “Mas desde os 23 comecei a me preocupar de verdade com minha pele. Passei a comprar cremes, hidratantes, protetor solar... hoje, já cheguei àquele ponto de não sair de casa sem protetor e de não consegui dormir sem passar meus cremes. Minha mãe tem 54 anos e é super elogiada em relação à pele e sua boa forma, ela é daquelas que faz ginástica no banho e limpeza de pele caseira desde a adolescência. Então me sinto praticamente obrigada a passar esse cuidado adiante”, destaca ela.

Oliveira coloca que sobrancelha, depilação e unhas não são cuidados apenas uma vez por mês. Fora a academia e a limpeza de pele mais profunda. “Não sou tão regrada, mas deve sair em torno de 300 a 400 reais por mês [do salário] voltado só para isso”, pontua ela. Rebeca afirma que um dia já chegou a gastar mais do que 54% do que ganhava com a própria beleza. “Hoje eu consigo achar um pouco exagerado. Sou casada, tenho outras prioridades também, como estudos, lazer, planos. Gastar mais da metade do meu salário com beleza estava me tornando uma pessoa um tanto superficial. Mas nada contra”, conclui.

Desigualdade

A servidora pública Monique Oliveira, 30, compra itens de beleza todos os meses, ou quando acabam os produtos que ela utiliza. “Eu sempre compro esmalte. Nunca consigo resistir e compro pelo menos um quando estou na fila do supermercado, aguardando minha vez”, diz ela, que normalmente gasta de 100 a 200 reais por mês com a beleza. Para Monique, se deve considerar que além de haver uma desvalorização na história do trabalho da mulher em relação ao homem, os cosméticos femininos são bem mais caros do que os masculinos – o que justificaria a porcentagem.

“Na minha opinião, isso se deve à desigualdade de gênero arraigada em nossa sociedade. Por exemplo, dia desses fui ao supermercado e fiquei me perguntando o porquê de as lâminas barbeadoras serem mais baratas que as lâminas depiladoras, já que possuem o mesmo propósito. Isso é injusto. E prefiro investir em produtos de boa qualidade e com boas recomendações, independente do valor. Mas tento gastar meu salário de forma consciente, com bom senso e equilíbrio, com domínio próprio”, assegura.

Impulso

Há pouco tempo, a bacharel em direito Thayná Valente, 25, não maquiava profissionalmente.  Hoje ela costuma todos os meses comprar produtos de beleza, para os clientes e para si mesma. “Aprendi a maquiar assistindo vídeos na internet e posteriormente fiz por hobby um curso de auto-maquiagem”, conta. “O que mais tenho comprado são produtos de maquiagem, bases de rosto, batons em cores variadas e etc. Compro também produtos de cabelo como cremes de hidratação, shampoo para o dia-a-dia e outras coisas mais. Mas, não com a frequência que compro maquiagens”, pontua.

Para Valente, que também é maquiadora (@thaymaquia), as mulheres têm se aliado ao uso de maquiagens de uma forma significativa. “Não é trabalhoso ir casualmente a um lugar e se deparar com uma mulher maquiada a qualquer hora do dia. Isso porque existem maquiagens para o dia, para a noite e outras ocasiões. A mulher atual entende que a maquiagem é algo que infla o ego e algumas mulheres maquiadas se sentem mais seguras e transformadas para exercer sua função no trabalho ou ir a um evento por exemplo. A maquiagem serve para realçar pontos e completar sua imagem”, completa.

Estética e a alma

A antropóloga Iraíldes Caldas declara que é preponderante a cultura desenvolvida em relação à beleza feminina: de que esta é uma beleza vaidosa, e não de que é uma beleza que reflete também o interior da mulher. “Isso é o que chamamos de autoestima e está conjugado no psicossocial de cuidar da beleza externa e de cuidar também da beleza da alma. As mulheres buscam esse embelezamento porque a história as colocou em desvantagem em relação aos homens e cuidar da beleza levanta a autoestima delas. Não acho que [cuidar da beleza] seja um quesito fútil”, orienta a pesquisadora.

Engana-se quem pensa que a beleza física reflete mera estética: ao cuidar da beleza e gostar do que vê no espelho, a mulher consegue ter autoconfiança para desempenhar melhor suas atividades do cotidiano, confirma a antropóloga. “Não tem a ver com padrões. Tem a ver com a liberdade dela, em que ela se agarra. Nessa liberdade está a realização do seu eu. Assim, elas desenvolvem força interior encontrada na afirmação de si mesma no mundo. Só que tem mulheres que entram nos padrões, porque o mercado está aí e é sedutor. Os produtos cosméticos são bem desenvolvidos tecnologicamente. São bons, mas são caros”, define ela.

Caldas lembra que, na mitologia indígena, as mulheres mais belas das tribos também eram as mais fortes e inteligentes. “A estética da mulher indígena é sua alma. Isso está ligado ao mito de Homero, onde as amazonas, que desenvolviam inteligência sagaz na arte da guerra eram também muito bonitas, com feições e corpos esculturais. São tidas como as mais guerreiras na mitologia indígena, pois não mandavam recado, não dependiam dos homens. Tem a ver também com a forma que o ser se põe no mundo, não somente por meio da beleza exterior, mas dentro de uma beleza que transcende”, encerra.

Saiba +

Pesquisa do Departamento de Assuntos de Consumo dos Estados Unidos apontou que os itens voltados às mulheres custam de 4% a 13% a mais do que os produtos masculinos. E o salário das mulheres é 30% menor que o dos homens.

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