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Obra do amazonense Milton Hatoum inspira escritor de SP

O paulista acaba de lançar um título, um diálogo entre o romance “Dois Irmãos”, a Bíblia e a mitologia ameríndia 10/01/2015 às 10:22
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Escritor paulista Lucius de Mello
laynna feitoza ---

A riqueza das obras do escritor amazonense Milton Hatoum certamente inspira diversos formatos de projeção ao público. Logo após o anúncio de que seria lançada, em 2015, uma minissérie homônima inspirada no título “Dois Irmãos”, em dezembro de 2014 o livro “Dois Irmãos e os seus precursores – o mito e a Bíblia na obra de Milton Hatoum”, de autoria do escritor paulista Lucius de Mello, caminhou rumo às prateleiras das livrarias. Em entrevista exclusiva ao BEM VIVER, o autor explica as semelhanças entre o diálogo do romance de Hatoum, da Bíblia e da mitologia ameríndia – o cerne de sua obra.

O que o motivou para analisar estas relações entre a obra de Milton e os outros temas propostos?

A ideia surgiu quando comecei a pensar no meu mestrado em 2009. Queria estudar o livro do Gênesis como obra literária e não religiosa. E os embates fraternos presentes na narrativa bíblica sempre me atraíram como leitor. Depois de ler o ensaio de Jorge Luis Borges - Kafka e seus precursores -, tive a ideia de investigar como as narrativas milenares (a bíblia e a mitologia)  influenciam a ficção dos autores contemporâneos. Aí, então, cheguei ao romance do Hatoum. Para a obra, trabalhei principalmente com o conceito de dialogismo e polifonia de Bakhtin.

Você teve algum contato com o escritor Milton Hatoum para escrever a obra? Se sim como foi? Quais as principais notações do diálogo entre vocês?

Sim. Nos falamos algumas vezes por e-mail. Mais para confirmação de dados biográficos do que para conversar sobre o tema da pesquisa. Procurei não ouvir muito o Hatoum sobre o assunto para não me influenciar pelo autor e manter um certo distanciamento que, na minha opinião,  se faz necessário e é produtivo ao pesquisador.

Quais são as principais semelhanças notadas por você entre o diálogo do romance com a Bíblia e a mitologia ameríndia?

O meu livro “Dois irmãos e seus precursores - o mito e a biblia na obra de Milton Hatoum”  é  um ensaio literário que detém-se na análise e na comparação do romance “Dois Irmãos” com a mitologia ameríndia e a narrativa bíblica dos embates fraternos. O relacionamento conflitante entre irmãos é um constante leitmotiv, um foco de interesse que se desenvolve de diversas formas ao longo de todo primeiro livro da Bíblia Hebraica. Jacó e Esaú estão em constante diálogo com os gêmeos de Hatoum. O motivo dos irmãos bíblicos, mergulhados em ira, inveja, ciúme e outros pecados capitais, é redimensionado na ficção, e a análise empreendida aponta para a reversibilidade de papéis, pondo em xeque verdades inquestionáveis e cristalizações  de lugares, de poderes, de sentidos. Nos meus estudos, busco os vestígios da narrativa bíblica presentes na obra de Hatoum, seguindo os rastros de Omar, Yaqub e, especialmente, de Nael, um narrador intervalar, meio índio, meio árabe, filho bastardo de um dos gêmeos do romance com a cunhantã, empregada da família de origem libanesa.

E o que descobriu com o personagem?

Nael me conduziu a uma surpreendente descoberta: é ele quem acende o foco nacional na pesquisa e, como descendente do povo indígena do Amazonas, revela-se o mais legítimo herdeiro de toda ancestralidade mitológica, originária das lendas e mitos que envolvem gêmeos inimigos em narrativas tão ou mais milenares que a Bíblia. Na mitologia ameríndia também encontramos o mito dos gêmeos inimigos - como nos revela os antropólogos Alfred Métroux , Claude Lévi-Strauss e Betty Mindlin. Foi Benedito Nunes, em uma de suas últimas conferências em São Paulo, quem me falou pela primeira vez nos gêmeos  tupinambá Tamendonare e Aricoute,  só para citar um exemplo de irmãos mitológicos indígenas trabalhados na minha análise. 

Você já esteve em Manaus? Se sim, no que essa visita o ajudou na composição da obra?

Nunca estive fisicamente em Manaus.  Mas na imaginação.... Como não se deixar levar pela narrativa e pelas personagens de Hatoum? De tanto ler e reler o romance, já me sinto parte dessa cidade que está para Hatoum assim como a pequena cidade colombiana de Arataca está para García Marquez.

Perfil - Lucius de Mello

É mestre em Letras pelo Programa de Estudos Judaicos e Árabes da Universidade de São Paulo. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2003 com o livro “Eny e o Grande Bordel Brasileiro” (2002). É autor de contos “Um Violino Para Os Gatos” (1995), do romance histórico “A Travessia da Terra Vermelha -Uma saga dos refugiados judeus no Brasil” (2007) e do romance “Mestiços da Casa Velha” (2008).

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