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Obra polêmica abre discussão sobre performance em Manaus

Concebida pelo grupo de pesquisa Tabihuni, "Prisão de ventre na academia" é uma crítica ao tolhimento da criatividade, inclusive nas universidades 26/12/2014 às 16:42
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Performance "Prisão de ventre na academia" foi realizada durante evento na Ufam
ROSIEL MENDONÇA Manaus (AM)

Noventa e sete anos após o dadaísta Marcel Duchamp subverter o conceito de obra de arte com o seu ready made “A Fonte”, um urinol de porcelana que hoje vale em torno de 3 milhões de euros, um conjunto de vaso sanitário e alguns livros causou polêmica em duas universidades de Manaus. A curiosa imagem remete à intervenção artística “Prisão de ventre na academia”, na qual artistas aparecem sentados em vasos sanitários enquanto leem trechos de um manual de normas da ABNT, uma crítica à normatização do processo criativo, inclusive dentro da academia.

O trabalho é de autoria do grupo de pesquisa Tabihuni, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), liderado pelo professor mestre Luiz Davi Gonçalves, que o apresentou por lá no mês de outubro. A intervenção voltou a ser apresentada na semana passada, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), e nas duas ocasiões a obra foi motivo de rebuliço, abrindo uma discussão sobre a natureza da performance e o “desconforto” que a arte pode causar.

“O professor Davi me falou sobre a performance, qual era a proposta e explicou como era executada”, conta a professora mestre Stéphanie Girão, que convidou o Tabihuni para participar de uma semana de literatura francesa na Ufam, na última quarta-feira (17). “Para mim foi muito natural eu me interessar, porque tinha tudo a ver com a transversalidade do evento, que falava de literatura e criação na arte. Além disso, o projeto do evento aprovado pela Universidade foi pensado com intervenções artísticas, então essa apresentação não fugiu da proposta”, defende ela.

Segundo a professora, como a performance estava aberta à participação, o trabalho também ganhou adesão do público que transitava pelo hall do Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) da UIfam, e um aluno chegou a tomar assento em uma das privadas. “Em nenhum momento houve nudez explícita, nada que realmente fosse motivo de choque. No momento a interação foi ótima, com a presença de alunos a professores e pós-graduandos e muita gente filmando e fotografando. Mas, obviamente, não podemos controlar esse tipo de registro”, pondera.

Porém, a reação de outra parcela do público, especialmente nas redes sociais onde algumas fotos foram publicadas, surpreendeu a professora. As interpretações foram muitas – de atentado ao pudor a manifestação contra a falta de água no campus. “Houve muito sensacionalismo em cima de uma situação que nem procuraram saber o que era, além de uma crítica extremamente agressiva a essa forma de expressão artística”, completa Stéphanie. 

Sindicância

Para Luiz Davi Gonçalves, professor titular do curso de Teatro da UEA e mestre em História pela PUC de Goiás, a repercussão do trabalho também foi uma surpresa, ainda mais por se tratar de uma “performance primária”. “Faço performance desde o meu primeiro ano de graduação, inclusive já participei de algumas mais agressivas e que não deram em nada”, conta. 

Gonçalves acredita que o espanto da comunidade acadêmica se deve mais ao fato de o curso de Teatro ser muito recente. “Somos um curso de cinco anos ainda, e por mais que na cidade já haja um movimento em torno da arte performática, a UEA ainda está se acostumando com suas próprias pesquisas”.

A reitoria, no entanto, sequer encarou a intervenção como uma “manifestação artística”. Segundo informações da assessoria de imprensa da UEA, foi aberta uma sindicância para apurar as circunstâncias da realização de “Prisão de ventre na academia”. Nesta segunda-feira, o relatório final será entregue ao reitor da Universidade, que poderá advertir ou até punir os responsáveis.

Na época da polêmica, universitários chegaram a se mobilizar em torno de um abaixo-assinado que pedia “liberdade para a produção artística da comunidade da Escola Superior de Artes e Turismo da UEA”. A carta de repúdio cita que “a coordenação do curso de Teatro também foi notificada pela direção da Esat sobre a necessidade de que toda apresentação artística dentro da unidade seja comunicada com antecedência à direção”. A assessoria da universidade negou a existência de norma com esse teor.

Relações

Estudioso da performance a partir do diálogo entre o teatro e as artes visuais, Gonçalves agora investiga no doutorado a relação entre corpo, música e espaço no xamanismo Ianomâmi. O goiano explica que “Prisão de ventre” é um reflexo da própria passagem dos artistas pela universidade.

“Uma das coisas mais primárias quando se estuda performance é questionar as normas da ABNT. Nós atores passamos por um processo de criatividade enquanto artistas, mas quando vamos para a faculdades nos deparamos com normas de TCCs, dissertações e teses”.

Fusão

A performance é um gênero artístico que resulta da fusão do teatro, cinema, dança, poesia, a música e artes plásticas. Tem origem nos anos 1960, mas carrega influências de movimentos como o futurismo, dadaísmo e surrealismo.

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