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Obra resgata fase erótica da escritora Hilda Hilst

Lançado pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, “Pornô chic” reúne a chamada trilogia obscena da autora, formada por obras de prosa escritas entre 1990 e 1991 15/12/2014 às 12:58
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A escritora radicalizou sua carreira com as obras compiladas no livro
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

A escritora paulista Hilda Hilst (1930-2004) é a mais nova contemplada com uma coletânea produzida com capricho e material inédito para os fãs de literatura brasileira.

Lançado pelo selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, “Pornô chic” reúne a chamada trilogia obscena da autora, formada por obras de prosa escritas entre 1990 e 1991 – “O caderno rosa de Lori Lamby”, “Contos d’escárnio/Textos grotescos” e “Cartas de um sedutor” – além do livro de poemas “Bufólicas”, o inédito “Fragmento pornográfico rural” e um apanhado de críticas que tratam dessa fase polêmica de Hilda.

Nascida em uma família rica e tradicional de Jaú, no interior de São Paulo, a escritora viveu os últimos 38 anos da sua vida na Casa do Sol, projetada por ela nos mínimos detalhes como reduto de criação artística, onde escreveu a famosa trilogia erótica.

Com “O caderno rosa de Lori Lamby”, obra inaugural dessa fase polêmica, Hilda radicalizou a própria carreira; a essa altura, a senhora de 60 anos já não conseguia esconder o incômodo com o pouco reconhecimento que recebia dos críticos e editores, que só a publicavam em pequenas tiragens.

Professor da Unidade Federal do Amazonas e doutor pela Universidade de São Paulo, o amazonense Gabriel Albuquerque é especialista em narrativa hilstiana e publicou pela Valer, em 2012, o livro “Deus, Amor, Morte e as atitudes líricas na poesia de Hilda Hilst”.Para ele, a fase obscena da escritora é a melhor da obra dela. “Na época ela disse que estava escrevendo ‘adoráveis bandalheiras’ e que estava se divertindo”, conta.

“Essa trilogia é uma resposta a quem não soube acolher a chamada literatura séria que ela produziu até então. O que não significa que em outras obras não seja possível encontrar momentos de erotismo em voltagens muito elevadas, como em ‘Do Desejo’ (1992), que não faz parte desse famoso conjunto obsceno”, explica Albuquerque.

Segundo ele, mesmo em obras anteriores, como “Trovas de muito amor para um amado senhor” (1961), o erotismo já era latente. “O que se convencionou a chamar de obsceno na obra dela são descrições mais cruas e palavras de baixo calão, além de maneiras risíveis de abordar as práticas sexuais”.

Mas o obsceno, em Hilda Hilst, vai além: em “Pornô chic” é possível encontrar uma narrativa ao mesmo tempo humorada e crítica à sociedade, com boas doses de ironia e deboche. “Quem vai procurando só a obscenidade acaba encontrando uma literatura refinada, que dialoga com os clássicos”, completa o professor.

De hermética a obscena

Afinal, a aventura obscena de Hilda Hilst na literatura foi uma tentativa de se tornar uma escritora mais lida ou não passou de um ato irônico de um bufão? As duas coisas são plausíveis, na opinião de Albuquerque. “Em algum momento ela chegou a dizer que precisava vender mais porque estava passando por dificuldades financeiras. Não lembro de ela dizer que queria se tornar mais popular, mas queria ser reconhecida”, diz.

Para o amazonense, Hilda conseguiu o que queria. “Em especial depois da morte dela, a Hilda vem se tornando uma voz cada vez mais audível e rendendo ainda mais admiração. Talvez ela seja mais lida hoje do que antes”, pondera.

O professor conta que, num primeiro momento, a recepção às obras eróticas da escritora foi “divertida”. “Alguns disseram que Hilda Hilst tinha deixado de fazer literatura hermética para fazer uma de apelo. Para um grupo seleto de leitores, os livros dessa fase devem ter significado uma queda de qualidade, como se ela tivesse perdido a mão, o que não é bem verdade”, conta.

Temas e enredos

Com um desfecho surpreendente, “O Caderno Rosa de Lori Lamby” apresenta uma menina de oito anos que relata suas experiências sexuais. “Cartas de um Sedutor” narra o cotidiano de um homem rico, amoral e culto que recorre ao sexo em busca de respostas para a vida. Por outro lado, “Contos d’escárnio” é uma reunião de textos satíricos. Fechando o ciclo, “Bufólicas” é um livro de “fábulas safadas” concluídas com uma “moral da estória”.

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