Domingo, 16 de Junho de 2019
Centenário Claudio Santoro

Ópera 'Alma' ganha remontagem a partir de nova versão da partitura

Única ópera do amazonense Claudio Santoro estreia no Festival Amazonas de Ópera no dia 26 de maio



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18/05/2019 às 16:48

Em 1922, ano em que a Semana de Arte Moderna abriu novos horizontes para a arte brasileira, o escritor Oswald de Andrade também lançou o primeiro volume da sua Trilogia do Exílio. Ambientado em São Paulo, o livro “Os condenados” conta a história da conturbada relação entre a prostituta Alma, o cafetão Mauro e o romântico João do Carmo. Mais de 60 anos depois, o maestro amazonense Claudio Santoro (1919-1989), que a essa altura já era um dos grandes nomes da música clássica, debruçou-se sobre a obra oswaldiana para compor a única ópera da sua prolífica carreira. 

Santoro não chegou a ver o trabalho encenado, o que só veio a acontecer no fim da década de 90, quando “Alma” foi apresentada pela primeira vez no Teatro Amazonas, como parte da programação do recém-criado Festival de Ópera. Em 2019, para celebrar o centenário de nascimento do compositor conterrâneo, o evento lança um novo olhar sobre a ópera de Santoro. A segunda montagem tem estreia marcada para o dia 26 de maio, com récitas nos dias 28 e 30. 

A novidade é que, desta vez, os diretores tiveram acesso à versão mais completa do manuscrito deixado pelo compositor, com trechos da partitura e do libreto até então desconhecidos. Quem descobriu os “enxertos” feitos pelo autor foi o filho do maestro, o cravista Alessandro Santoro. 

“Papai levou muitas obras inacabadas em sua última viagem à Europa, e ‘Alma’ foi junto, até para ele mostrar para pessoas interessadas em montar a ópera. Os ajustes que ele fez nessa época foram mais na parte instrumental, tentando criar uma proporção entre as peças para deixá-las mais orgânicas”, conta ele, que vai conferir a reestreia em Manaus ao lado da mãe, Gisèle, a quem Santoro dedicou a obra.

Alessandro chama de heróico o trabalho do festival para essa remontagem, que até então se baseava unicamente numa partitura editada pela Funarte em 1999. “Quando o Alessandro contou que tinha encontrado vários trechos que tinham ficado de fora da edição da Funarte, fiquei sabendo que o Santoro não tinha feito apenas a revisão de algumas notas, mas de trechos inteiros de música, interlúdios e trechos de canto”, lembra o maestro Marcelo de Jesus, diretor musical de “Alma”. “Agora estamos resgatando esse original e vamos entregar para a família uma edição de performance, pronta para ser executada por qualquer orquestra”.

Segundo o maestro, “Alma” tem influência dos compositores que sempre marcaram a trajetória de Santoro, como Shostakovich, mas com uma linguagem própria. “É uma música facilmente identificável, muito bem orquestrada e super contemporânea no sentido de não ter aquela estrutura tradicional de ópera, com árias, duetos, trios e grandes finais. Ele compôs algo bem cênico, que já começa com ação e imediatamente passa para outro lugar. Musicalmente é muito interessante porque tem várias mudanças que são quase cinematográficas”, completa Marcelo.

Mundo das ruas

Para a segunda montagem de “Alma”, o Festival de Ópera reunirá o Corpo de Dança do Amazonas, o Coral do Amazonas e a Amazonas Filarmônica. Para interpretar os protagonistas foram escalados a mezzo-soprano Denise de Freitas (Alma), o tenor Juremir Vieira (tenor) e o barítono Homero Velho (Mauro). A direção cênica está a cargo da carioca Julianna Santos, que começou a pesquisa a partir do livro de Oswald de Andrade. 

“Essa obra rompeu os padrões, saindo do romantismo de Machado de Assis e entrando no mundo das ruas, da prostituição, da vida cotidiana. Para mim, hoje é difícil falar disso sem nos remetermos à questão da violência contra a mulher. Diariamente abrimos os jornais e revistas e nos deparamos com fatos graves nesse sentido”, comenta ela.

Segundo a diretora, a cênica de “Alma” terá referências à década de 1920, onde a história é ambientada originalmente, mas com uma pegada contemporânea. “Estamos apostando muito na intensidade dos personagens e nas amarras que cada um cria para si de um jeito bastante específico”.

Cenário tem inspiração modernista

Há oito anos colaborando com o Festival Amazonas de Ópera, a italiana Giorgia Massetani emprestou seu talento à concepção da cenografia de “Alma”. Ela conta que teve contato com o livro “Os condenados” antes mesmo de acessar o libreto de Claudio Santoro. “Achei a obra de uma força enorme. É vanguardista, levando em consideração a época em que foi escrita. Tem temas como sexo, violência e aborto, tabus até hoje”, diz.

A estrutura presente no livro de Oswald, que desenvolveu a narrativa em blocos, acabou inspirando Giorgia. Ela revela que cada personagem também terá seu próprio “bloco” de encenação no palco. “Teremos carros de tamanhos consideráveis que serão o eixo de atuação dos personagens, o mundo, a casa, o espaço deles. Existe também uma relação com os ‘bairros vermelhos’, onde as mulheres se expõem em caixas de vidro para vender o corpo, e com os quadros modernistas em que a cidade é vista como caixas coloridas, numa perspectiva de geometrização da vida e do olhar”.

Segundo Giorgia, o cenário chegará a seis metros de altura e será movimentado com a ajuda de trilhos. A uma semana da estreia, a construção está a todo vapor na Central Técnica de Produção (CTP), onde os projetos cenotécnicos do festival ganham vida. 

Projeções visuais serão outro recurso usado no palco, acrescenta a cenógrafa. “São imagens mais líricas e alegóricas, remetendo ao corpo feminino no espaço e à ideia de aprisionamento. É interessante que a reestreia de ‘Alma’ aconteça agora, num momento em que os pensamentos sobre a mulher e a própria questão da violência vêm sendo questionados. A montagem reflete um pouco disso”.

Repórter de A Crítica

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