Domingo, 20 de Setembro de 2020
Literatura

Oswaldo Guimarães revela o poder da poesia concreta

Escrito pelo poeta paulistano radicado no Amazonas há 20 anos, o livro "absteatro" está sendo lançado virtualmente em Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Estados Unidos e Irlanda



Oswaldo_Guimaraes_Carvalho_4_62EA9A04-C83A-435A-BDC8-641813A81736.jpg O poeta vive na vila Céu do Mapiá, localizada na Floresta Nacional do Purus, em Pauini. Foto: Divulgação
08/09/2020 às 12:20

Na poesia concreta, a palavra é um "tijolo" usado na construção de uma mensagem visual juntamente com o emprego de caracteres tipográficos, desenhos e formas. Esta é a tônica do livro "absteatro" (da editora Chiado, e grafado propositalmente com inicial minúscula), do poeta Oswaldo Guimarães - paulistano que vive há 20 anos na vila Céu do Mapiá, em Pauini, distante 923 quilômetros de Manaus. Apresentado primeiro ao público na capital amazonense em dezembro de 2019, o livro está sendo lançado virtualmente na Europa, África e Estados Unidos.

Em miúdos, ‘’absteatro’’ ilustra a dança do som, da imagem e da ideia em suas 102 páginas, com uma linguagem que se adapta bem no meio virtual. ‘’O fazer poético deve se utilizar das ferramentas que precisar para a sua expressão. Acho limitado o expressar poético baseado só na rima do som ou da ideia. O espaço da página é uma tela branca que (a)guarda [sic] uma forma. A poesia concreta foi o plano piloto para uma linguagem do meio virtual - mesmo antes dele existir’’, pontua Oswaldo Guimarães, em conversa com o BEM VIVER por e-mail.



Para situar brevemente o leitor, a poesia concreta surgiu no Brasil na década de 1950, através da arte dos poetas Décio Pignatari (1927-2012), Haroldo (1929-2003) e Augusto de Campos (este atuante até hoje), com o objetivo de eliminar o verso tradicional, dispondo as palavras de forma não linear, explorando bem o espaço gráfico de uma página – o que postamos hoje nas redes sociais, em especial nos ‘’stories’’, com filtros, figuras e palavras que podemos posicionar em qualquer espaço de uma imagem, os concretistas já faziam isso com maestria no papel na década de 1950.

Não à toa, o livro traz referências carregadas não só ao ‘’trio concretista’’, mas também aos poetas Oswald de Andrade, E. E. Cummings, Manoel de Barros e Paulo Leminski. Aliás, um dos ícones do Concretismo brasileiro, Augusto de Campos, de 89 anos, celebrou o livro ‘’absteatro’’ com um “só viva”, à moda de seu famoso poema “viva vaia”, publicado em 1979.

‘’O livro foi recebido com entusiasmo pelo fundador do Concretismo, Augusto de Campos, que mandou um "só viva", com sua aprovação, para ser publicado na contracapa do livro. Acompanho o grupo Noigandres, formado por ele, seu irmão, Haroldo, e Décio Pignatari desde o início dos anos 1980 - sempre me envolvi no movimento vanguardista desencadeado e encadeado por eles’’, conta.

“Expus dois poemas na I Mostra Internacional de Poesia Visual, em São Paulo, e compus, para a rádio Cultura FM da capital paulista, uma sinfonia poética baseada nos ensaios do Noigandres, chamada ‘’Oswald e a Invenção’’. Com poemas em oito línguas, citações musicais e composição original, a obra demonstra a invenção de novas formas de expressão linguística, comparando-as com as de outros autores nacionais e estrangeiros, anteriores, contemporâneos e posteriores”, completou o poeta.

Sagrado

Além das referências literárias, Oswaldo Guimarães não se furta de também buscar inspiração na vila Céu do Mapiá, localizada na Floresta Nacional do Purus, no município de Pauini, onde ele vive há duas décadas.

Para os seguidores do Santo Daime, a pequena comunidade isolada no meio da floresta, onde vivem cerca de 600 pessoas, é o lugar mais sagrado do mundo. Nas palavras do poeta, "é uma morada e fonte de inspiração para o teatro abstrato encenado no livro".

‘’Absteatro é uma encenação abstrata, narração do inefável, retrato do indelével’’, reflete Guimarães. ‘’Foi concebido nas andanças pelo Brasil e finalizado na Amazônia, no Céu do Mapiá, sede mundial do Santo Daime, bebida sacramental original da floresta. Um lugar único no planeta onde os amazônidas se reúnem com habitantes do mundo inteiro para um ‘’religare’’ [ligar o humano com o divino] mediado pela magia das plantas sagradas’’, conta ele, citando a ayahuasca, chá com potencial alucinógeno originário da Amazônia Ocidental e usado há séculos por xamãs indígenas.

Lançamento

O primeiro lançamento de "absteatro" aconteceu no final do ano passado, no Museu da Amazônia, no Largo São Sebastião, Centro de Manaus - o que também seria feito em outras capitais brasileiras não fosse a pandemia da covid-19. Por isso, está sendo lançado virtualmente, e simultaneamente, em Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Europa, Estados Unidos e Irlanda.

No Brasil, o livro pode ser encontrado nas livrarias Martins Fontes (martinsfontespaulista.com.br), Cultura e Saraiva (nas duas últimas sob encomenda).

O livro de poemas concretos está sendo lançado virtualmente na Europa, África e Estados Unidos. Imagem: Divulgação

Blog

Oswaldo Guimarães, poeta

A dança das palavras formando rimas em sons, ideias e formas. 

‘’Na rima visual, as formas minúscula e maiúscula da tipografia passam a ser usadas pelo seu formato, enquanto que na das ideias, traduzem hierarquia. Duma e doutra a grafia de ‘’absteatro’’ se serve. Na primeira, a letra inicial em minúscula mantém a palavra linear, forma fluída. Na segunda não há letra mais importante, há a palavra. A percepção inicial foi de e. e. cummings [poeta norte-americano], que grafava assim seu nome em suas obras’’.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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