Domingo, 26 de Maio de 2019
Vida

Pais de crianças com autismo falam sobre o 'outro lado' da condição e quebram estereótipos

Ao contrário do que filmes e novelas “ensinam”, a maioria dos portadores do transtorno não têm comportamento agressivo ou gosta de se isolar



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Mion fez um post intitulado “Lições que aprendi com meu filho autista” no seu perfil pessoal do Facebook
10/01/2016 às 15:28

A dedicação de Marcos Mion, 36, ao filho Romeo, 9, fez com que muitas pessoas mudassem a forma de enxergar o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). No fim do último ano, o apresentador de televisão fez um post intitulado “Lições que aprendi com meu filho autista” no perfil pessoal do Facebook e comoveu milhares de seguidores.

Ele mostrou o “outro lado” da dificuldade de desenvolvimento e restrição comportamental, totalmente distante da visão perpetuada na mídia e pelo imaginário popular. Na publicação, exaltou a simplicidade do menino ao ganhar o presente de Natal: uma escova de dentes.

“Ele abriu o embrulho com uma expectativa tão grande, uma ingenuidade e um doutorado em desapego que, quando o último pedaço de papel revelou sua escova de dentes azul, ele foi tomado de emoção! Abaixou a cabeça num alívio e se atrapalhou de tão forte que essa emoção veio. Sim, ele chorou. Chorou de alegria, inundado pela mais pura e bela emoção! Eu e Suzana choramos juntos”, escreveu.

Vida normal

Ao contrário do que filmes e novelas “ensinam”, a maioria dos portadores de TEA não têm comportamento agressivo ou gosta de se isolar. O próprio Romeo é descrito pelo pai como “iluminado, carinhoso, falante, esperto, cheio de vontades” e com algumas dificuldades de aprendizagem.

Entretanto, leva uma vida normal, vai à escola e tem amigos. Segundo Mion, o garoto não se encaixa completamente no autismo, mas em uma variação chamada Not Otherwise Specified (NOS) — “Sem Nenhuma Especificação”.

Estereótipo

E foi justamente este estereótipo comumente difundido que dificultou a análise de Cauã, 4, há um ano e meio. A mãe, Andréia Tavares, 32, desconfiou da possibilidade, mas como o pequeno sempre foi hiperativo e nunca teve problemas para manter contato visual, até os médicos ficaram em dúvida.

“O levei à fonoaudióloga e ela disse que ele tinha preguiça de falar; daí fomos ao neurologista, que ficou confuso, porque Cauã olha nos olhos e não foge das pessoas, não tenta se isolar”, lembra.

Tríade de sinais

Na leitura de relatos de outras famílias que levaram anos para chegar ao diagnóstico, a dona de casa aprendeu sobre a tríade de sinais de uma pessoa no espectro do autismo: restrição nas interações sociais, dificuldade na comunicação, comportamento focalizado e repetitivo.

Ao procurar orientação de um instituto de autismo, ela foi aconselhada a gravar o filho em “momentos autistas” e anotar todos os sinais para apresentar ao médico. Após exames neurológicos para descartar outras possibilidades, obteve resposta.

“Falta divulgação de todos os tipos de autismo, principalmente do leve. As pessoas acham que autista não olha no olho, não gosta de estar com pessoas e fica se balançando. O meu filho é o contrário disso (risos). Ele é hiperativo, adora estar com pessoas e crianças, porém, não sabe como interagir com elas. Fica por perto, rindo das brincadeiras. Olha muito nos olhos da gente, quase não tem estereotipias corporais [movimentos repetitivos]; Ele balança os braços com força só quando fica muito eufórico”, afirma.

Descobertas e desafios

Com o diagnóstico, Andréia Tavares foi encaminhada a uma organização não governamental (ONG) de TEA e a um centro psicossocial público de Porto Alegre (RS), onde mora.

Porém, a espera na fila de ambos seria de, no mínimo, um ano. Sem recursos para pagar um acompanhamento particular, começou a buscar formas de estimular o desenvolvimento do menino em casa. E, assim, nasceu a página “Amiguinhos do Cauã”, no Facebook.

“Nessa época, ele não brincava com brinquedos comprados, não gostava de nada. Então, eu fiz um, com coisas recicladas. Ele participou de toda a criação do brinquedo e, para minha alegria, aceitou brincar. Parei de comprar brinquedos, comecei a fazer em casa e postar no meu perfil. Outras mães viram e começaram a fazer com os filhos, autistas e típicos, daí fiz a página para ficar mais prático e organizado”, revela.

Apesar das dificuldades, ela nunca teve medo de lidar com o autismo e, inclusive, incentiva outras mães e pais a não enxergarem o transtorno como algo ruim. “Não tenham medo, confiem em seus filhos e em si mesmos. Os autistas são pessoas lindas de se conviver. Os pais têm a mania de idealizar o futuro dos filhos e eu acho que isso causa o luto e, às vezes, a negação. Vivemos o presente sempre com confiança, paciência e muito amor”, conclui.

Mitos

Especialista em Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), Giovanna Andreozzi, 26, afirma que os mitos criados sobre o assunto não apenas dificultam o diagnóstico precoce, mas criam um esteriótipo negativo, resultando em preconceito. Segundo ela, não há um estudo exato sobre a quantidade de autistas no Brasil, o que também prejudica o acompanhamento adequado.

“Infelizmente, há pouca divulgação e ainda é feita de forma errada, como a personagem de uma novela que passou recentemente; um desserviço. Entre os mitos está a de que todos são gênios. A família acaba de receber um diagnóstico do filho, que nem consegue amarrar os cadarços, e se pergunta ‘por que o meu não é um gênio?’. É um número ínfimo. Precisamos ter um cuidado com os mitos”, alerta.

Ainda de acordo com a psicóloga, não existe um método de tratamento. Cada criança deve ser avaliada para saber o grau de intensidade — leve, moderado ou severo — e, então, receber um acompanhamento individualizado. “Cada criança é única, mesmo que tenha o mesmo diagnóstico. Fazemos uma intervenção baseada na análise do comportamento”, explica.


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