Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
Vida

'Pais sem pressa' defendem resgate da infância

Movimento “slow parenting” promove uma infância sem agenda lotada, com menos correria, na qual as crianças podem escolher suas atividades 



1.jpg Pais sem pressa procura desacelerar a vida dos pequenos, permitindo que eles aproveitem mais a infância
02/05/2015 às 15:37

No mundo moderno, as crianças são cada vez mais pressionadas a darem conta de uma agenda tão cheia quanto a dos adultos que fica difícil aproveitar a infância com tranquilidade. E essa carga excessiva de atividades tem causado ansiedade e estresse nos pequenos.

Para contrapor essa vida em alta velocidade foi que surgiu o movimento “slow parenting” (“pais sem pressa”, em livre tradução), que promove a desaceleração na rotina dos pais, implicando diretamente na de seus filhos, deixando-os mais livres para brincar, escolher suas próprias atividades, inclusive permitindo que eles não façam nada também.



O movimento começou na Europa e nos Estados Unidos e tem ganhado cada vez mais adeptos no Brasil, que entendem que é mais proveitoso que as crianças façam tudo a seu tempo.

Segundo Alexandra de Andrade, pedagoga e coordenadora de educação da escola Literatus, a prática de “ir mais devagar” já era praticada em outras áreas nos Estados Unidos, como na moda ou na alimentação, e logo se viu a necessidade de estendê-la para a criação dos filhos.

“Chegou logo no País porque já vemos um cenário de crianças precisando de psicólogo. Queremos tanto preencher a vida dos nossos filhos, que atrapalhamos. Isso causa cansaço tanto físico quanto mental”, argumentou a pedagoga, acrescentando que o movimento sugere dar significado às ações e relações. “É preciso entender que o slow parenting não quer dizer caminhar em passos lentos, mas na velocidade certa, criando relações significativas”, completa.

Para isso, Alexandra defende que os pais também desacelerem para estar próximos aos filhos e que acompanhem o tempo ocioso deles. “Os pais precisam estar nesses momentos com as crianças, saber estabelecer limites, mas também dar espaço a elas, para que possam viver a infância”, diz.

Na escola

Muito da pressão em cima das crianças ocorre nas escolas, que costumam enchê-las de tarefas repetitivas. Isto costuma talhar o processo criativo dos pequenos, que não encontram espaço para desenvolver descobertas e livre aprendizado.

Alexandra afirma que no Literatus há uma proposta que vai na contramão dessa realidade. “Mesmo na creche, as crianças de ensino integral seguem uma rotina diferenciada, com vivências e brincadeiras. O lúdico é fundamental nesse processo”, conta.

Tudo a seu tempo

Em Brasília há uma família que adotou esta forma de vida e parece bem contente com os resultados. A fotógrafa Juliana Matos Melo é formada em pedagogia assim como seu marido, o ator Marcelo Melo, e ambos acreditam que não é preciso acelerar nada quando se trata do crescimento de seus filhos.

Pais de quatro crianças, eles concordaram desde o nascimento da mais velha, Elisa, 10 anos, que só colocariam seus filhos na escola quando eles completassem quatro anos, idade em que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional estabelece que as crianças sejam matriculadas em instituições educacionais.

“Nós optamos assim, para que eles fiquem em casa brincando com a gente. Realizamos atividades e brincadeiras direcionadas para os quatro, deixando que eles aproveitem”, conta Juliana, que afirma que ela e o esposo fazem questão de estar com os filhos ao máximo.

Outro cuidado do casal é não permitir que as crianças assistam TV. “Eles assistem filmes. Não tenho nada contra TV, eu assisto. Problema são as propagandas, que estimulam um consumo excessivo desnecessário. A minha postura é para que meus filhos não comecem a querer consumir tudo”, explica.

E como os pais não ficam incentivando as crianças a fazerem atividades extracurriculares, acontece de eles mesmos começarem a querer fazer alguma coisa, como a segunda filha, Ana Clara, 5 anos, que pediu para começar ballet. “Vez ou outra eles me pedem algo, às vezes porque veem outras crianças fazendo. Quando Ana Clara quis fazer ballet, nós a colocamos. Compramos uniforme e tudo mais. Um mês depois ela não quis mais fazer, disse que queria voltar a ficar em casa”, conta a fotógrafa rindo.

Juliana diz que acha importante forçá-los o menos possível, que é preciso respeitá-los antes de tudo. “Nós achamos muito cansativo, todo esse estímulo precoce. Nunca os forcei a andar ou a falar. Tudo no tempo deles”, afirma.

Saiba mais

Livro ‘Sob Pressão’

Assinada pelo jornalista escocês Carl Honoré, a obra 'Sob pressão: criança nenhuma merece superpais' foi lançada em 2008 e trata sobre a relação dos pais modernos com seus filhos. O autor defende que é preciso levar em consideração a opinião das crianças e não sobrecarregá-los com expectativas e anseios.


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