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EDUCAÇÃO INFANTIL

Palmadas ou castigo: como ensinar crianças a lidar com as próprias emoções?

Se isso é tão complicado para “gente grande”, ainda mais para quem ainda está se descobrindo no mundo 09/09/2017 às 16:56
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Foto: Divulgação
Natália Caplan Manaus (AM)

Quantas vezes nós, adultos, já choramos escondidos na calada da noite, ou tivemos dificuldade de nos relacionar de maneira saudável, seja por medo, ou até por motivos que desconhecemos, guardados no inconsciente? Se lidar com as próprias emoções é tão complicado para “gente grande”, quem dirá para quem ainda está se descobrindo no mundo. Cursos de Inteligência Emocional lotam de pessoas em busca de respostas e equilíbrio. Mas quem deve [e como] ensinar isso às crianças?

“Os sentimentos são nossos guias nas interações sociais. Como você se sente, neste momento, interfere diretamente na forma como recebe o que fala e nas decisões em relação a isso. A inteligência emocional é um fator de sucesso pessoal e profissional e nós, simplesmente, fingimos que ela não existe, que os sentimentos podem ser desprezados ou ignorados. Apresentar ferramentas para lidar com os próprios sentimentos é um aprendizado para toda a vida”, diz Elisama Santos Conceição, 32.

Mãe de Miguel, 5, e Helena, 3, é totalmente contra a punição física e utilização de “castigos” como forma de educar. Formada em Direito, ela se tornou educadora parental e consultora em educação não violenta, método que dissemina a técnica da comunicação empática nas relações pessoais e profissionais. Atualmente, ministra palestras, escreveu os livros “{Re}Olhar - Acolhendo quem somos e os filhos que temos” e “Tudo Eu! Confissões de uma Mãe Sincera”, ensinando pais e educadores a trabalhar com disciplina positiva.

“A comunicação não violenta e a disciplina positiva se comunicam no respeito às necessidades de todos os integrantes da família e, baseada nesses conceitos, comecei a falar de educação não violenta. As pessoas acham que não bater significa atender a todas as solicitações da criança. Quero mostrar que podemos negar algo, mas acolher o choro que vem após. Entender as fases do desenvolvimento e que nenhum mau comportamento existe por si só. Crianças querem se sentir amadas e aceitas; e nem sempre sabem como conseguir isso”, afirma.

Violência e amor?

A busca pelo assunto começou após o nascimento do primogênito, em um aprendizado pessoal para educar o filho. Elisama sabia pouco sobre crianças e estava decidida a ensinar com mais empatia, desenvolvendo a Inteligência Emocional e a autodisciplina. Após muito estudo, resolveu dividir os conhecimentos; mostrar que, “entre a permissividade e o autoritarismo, existem outros caminhos”. Na opinião dela, é preciso trabalhar, desde já, nas novas gerações.

“Uma sociedade igualitária, tolerante e empática começa agora. Castigos e palmadas podem encerrar um comportamento temporariamente, mas o que ensinam? Não apresentam formas práticas para lidar com o problema; incentivam a mentira e a dissimulação, já que a criança compreende que apanhou porque o adulto descobriu, e não porque se comportou de forma inadequada. Além de misturar conceitos que jamais deveriam andar juntos: violência e amor”, enfatiza.

No livro “{Re}Olhar - Acolhendo quem somos e os filhos que temos”, Elisama fala como construir uma relação de cooperação e amizade com os filhos, respeitando os sentimentos e necessidades de todos. Em “Tudo Eu”, revela o lado secreto da maternidade.

Trabalhando emoções

“Menino não chora.” “Para de frescura!” “Se continuar chorando, você vai apanhar!”. Esses são apenas exemplos do que ouvimos na infância ou, quem sabe, já falamos aos nossos filhos. De acordo com a especialista em desenvolvimento humano Heloísa Capelas, após os 7 anos de idade, as crianças começam a desenvolver a própria Inteligência Emocional, fazer abstrações e elaborar pensamentos. Por isso, a forma como são ensinadas a lidar com a alegria, tristeza, raiva, medo e amor podem marcá-las para sempre. Confira entrevista exclusiva:

Qual conselho você dá às famílias para lidar com comportamentos negativos?

Para viver melhor em família, é preciso respeitar a expressão de emoção das crianças. Então, autorize-as. Pode chorar e sentir raiva, sim; mas de maneira adequada. Você pode dizer, por exemplo: ‘eu sei, você ficou muito triste ou muito bravo, porque a mamãe não comprou o que você queria; eu entendo e acho que você tem toda a razão, mas aqui, no supermercado, não pode gritar. Quando formos para casa, você pode gritar no seu quarto. Você pode chorar na sua cama’. Quanto mais certeza do posicionamento, mais facilmente a criança compreenderá que a família é um sistema hierárquico. É obrigação do pai e da mãe compreender, permitir que se expresse e adequá-lo ao convívio em sociedade. Eles devem ter oportunidade de falar, de dizer o que pensam, de esclarecer, de reivindicar; mas o ‘poder’ é sempre do pai e da mãe.

Qual é o principal erro de adultos na hora de lidar com as emoções das crianças?

O que aprendemos na infância, via de regra, é que não podíamos chorar, rir muito ou sentir raiva. Essas emoções básicas — alegria, tristeza, raiva, medo e amor — são expressadas muito claramente pelas crianças. Isso faz parte do humano, mas aprendemos na infância que expressar essas emoções era errado. Se fomos ensinados a não expressar essas emoções, é claro que vamos nos relacionar com essas dificuldades. Aí uma criança, escancaradamente e despudoradamente coloca essas emoções em funcionamento e, nós, adultos, simplesmente não sabemos o que fazer. E sabe o que a maioria de nós faz? Repete as broncas que recebeu dos pais: ‘menino não chora’; ‘por que você está rindo?’; ‘vou te dar um bom motivo para chorar’. O resultado disso é que essas crianças, assim como nós, terão dificuldades em lidar com as emoções.

Como ajudar no desenvolvimento da Inteligência Emocional das crianças?

Os pais devem, antes de tudo, desenvolver a própria Inteligência Emocional. As crianças são espelhos dos pais. Quando a relação de pais e filhos é marcada por Inteligência Emocional, o que muda é a qualidade do diálogo. Isso, porque dou direito ao outro de se explicar; legitimo o outro, bem como suas emoções e vontades. Estarei aberta a ouvi-lo e isso facilitará a educação das crianças. Abrir espaço para a criança se explicar não significa que ela passa a ser ‘dona da verdade’. A Inteligência Emocional ensina aos filhos, que família é um sistema hierárquico, os pais vieram antes e, portanto, sabem mais e precisam ser respeitados.

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