Quarta-feira, 03 de Junho de 2020
ARTES

Artista indígena do Amazonas ganha destaque na ArtReview

Duhigó Tukano teve sua obra reverenciada em uma das mais famosas revistas de arte contemporânea do mundo



Duhigo4_B35E548B-CB77-49D9-B0FD-B285E125967E.jpeg Fotos: Salete Lima
01/04/2020 às 06:00

Uma artista plástica, indígena e amazonense está abrindo portas no cenário internacional, após reconhecimento com uma de suas obras que traz em sua síntese a ancestralidade amazônica, na cosmovisão dos Tukano, sua etnia.

A obra chama-se Nepu Arquepu – que significa na tradução da língua indígena Tukano para o português: rede macaco. E a artista é Duhigó (primogênita na língua Tukano) que recebeu destaque na edição deste mês de março em uma das mais famosas e conceituadas revistas de arte contemporânea do mundo, a Art Review, com sede em Londres e 72 anos de crítica especializada no universo da arte.



A obra de Duhigó está exposta da mega-exposição VaiVém, no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte (CCBB-BH) e tem curadoria de Raphael Fonseca, reunindo 350 obras de arte de 141 artistas (entre eles, 32 indígenas, sendo 4 deles amazonenses).

Na crítica de arte escrita pelo editor internacional da ArtReview, Oliver Basciano durante a exposição Vaivém no CCBB do Rio de Janeiro, o jornalista destaca a obra de Duhigó como uma “cena comovente e estranha”,aos olhos europeus, é claro.

E pontua a obra dentre as diversas cenas ancestrais e históricas em “um dos muitos momentos em Vaivém, uma densa pesquisa histórica, cultural, política e econômica das redes de dormir do curador Raphael Fonseca”, destacou Basciano em seu texto.

Oliver Basciano abre sua crítica sobre a exposição Vaivém embalado “na Nepu Arquepu de Duhigó, uma pintura de acrílica sobre madeira de 2019, onde uma mulher inicia um mês de recuperação pós-parto em uma rede pendurada nas vigas de uma maloca com telhado de palha e piso de barro. A jovem mãe nua embala o recém-nascido enquanto o xamã local da tribo Tukano, um povo indígena do noroeste da Amazônia, senta perto, administrando bênçãos e remédios”, escreveu o editor internacional da ArtReview. 

Para o curador da exposição, Raphael Fonseca, assim como outras artistas indígenas incluídas em Vaivém, acompanhar o trabalho da Duhigó, mesmo à distância, foi muito especial.

“Não apenas devido ao tamanho da obra, mas quando se olha atentamente percebemos o quanto de energia e dedicação ela dispendeu para fazê-la. Acho um trabalho essencial para a exposição não apenas pelo fato dela ser uma artista indígena, mas, especialmente, devido à narrativa ser dedicada à representação das mulheres e seus ritos de passagem, como o nascimento de seus filhos”, destacou Raphael.

A obra Nepu Arquepu (Rede Macaco, na tradução) está na mega-exposição VaiVém, no CCBB de Belo Horizonte.

Carreira embalada

No auge de seus 63 anos, Duhigó tem sua carreira embalada por um conjunto de eventos que há um ano vêm ocorrendo em sua caminhada – desde que iniciou a itinerância da Exposição Vaivém, percorrendo os CCBBs de São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e hoje Belo Horizonte.

De acordo com o diretor da Manaus Amazônia Galeria de Arte, Carlysson Sena, responsável pela carreira da artista, em 2019 a obra Nepu Arquepu foi proposta pela curadoria da Pinacoteca de São Paulo, no programa anual de aquisições, o que revela o interesse da instituição na artista.

Outras instituições museais e de pesquisa têm procurado conhecer mais o trabalho de Duhigó, bem como sua obra tem merecido citações e destaques, como essa da ArtReview e recentemente, uma menção em uma rede social do diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo (MASP), o renomado curador Adriano Pedrosa.

“A obra de Duhigó tem realmente despertado a atenção e o impacto do público, tanto amazonense, onde ela já acumula uma gama de fãs e colecionadores de sua arte, como nacionais e internacionais, como o famoso jogador inglês de futebol, David Beckham proprietário da obra “Pote de Caxirí”, produzida em 2009, em Manaus”, explicou Carlysson.

Nascida na aldeia Paricachoeira, no município de São Gabriel da Cachoeira, região do Alto Rio Negro, no Amazonas,Duhigó é filha de pai Tukano e mãe Dessana e mora em Manaus desde 1995.

Para ela, estar em uma das revistas de arte mais importantes do mundo é um passo de um grande sonho que está se realizando. Duhigó quer a cultura Tukano conhecida e amada pelas pessoas por meio de sua arte.

“Eu pinto o que não existe mais, e isto é muito importante para o meu povo. Também pinto as lembranças da minha infância na aldeia. Elas só existem na minha memória, no meu imaginário. Pinto para não deixar a minha cultura morrer”, decreta Duhigó.

Primeiro embalo

Duhigó pôde mostrar seu talento ao mundo por meio das técnicas de pintura aprendidas, assim como o acompanhamento no início de carreira e orientações que recebeu sobre o universo da arte, iniciado em 2003, na Escola de Arte do Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia (IDC). 

Na ocasião, Duhigó participou da Oficina de Arte no IDC e ganhou uma bolsa de estudo para fazer sua formação artística durante quatro anos e meio na Escola de Arte.

“O que nós oferecemos foi a oportunidade de aprender as técnicas de pintura comum a nós, sem interferir nas cores, composição e poética do aluno. Principalmente, a visão de que é possível ter uma profissão respeitada na cidade e viver bem como artista plástica. E acima de tudo, a certeza de que a arte promove a cidadania, por meio, da inclusão social e profissional de artistas como a Duhigó, em um sistema de arte onde os brasileiros indígenas, até então, não estavam inseridos. Quando isso se juntou ao conhecimento e a vivência da sua cultura Tukano e de outras etnias amazônicas que Duhigó possui, nasceu a artista”, destacou a diretora-presidente do IDC, Aidalina do Nascimento Costa.

Reconhecimento do Legislativo

A Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) recentemente homenageou a artista plástica e sua obra em cerimônia alusiva ao Dia Internacional da Mulher, em proposta da deputada estadual, Therezinha Ruiz (PSDB).

Anteriormente, o deputado estadual Adjuto Afonso (PDT) fez uma Moção de Parabenização a Duhigó pelo feito de levar a cultura do Amazonas à uma exposição nacional de grande relevância como a Vaivém.

Já o Senado brasileiro, por meio do Senador Omar Aziz (PSD), reconheceu os artistas amazonenses pelo “esplêndido trabalho realizado na exposição VaiVém” que segundo o Senador “expõe, de forma poética e verdadeira a beleza da cultura amazonense”, destacou Omar no documento oficial do Senado.

News whatsapp image 2019 07 22 at 18.05.21 90eb8751 43a8 4e1f 8e11 fa49c5f58238
Jornalista de A CRÍTICA

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.