Sábado, 07 de Dezembro de 2019
BEBÊS ARCO-ÍRIS

'Para ver o arco-íris é preciso não temer a tempestade', diz mãe que sofreu sete abortos

Termo criado nos Estados Unidos representa o renascimento da esperança para famílias que sofreram perdas. Em Manaus, grupo terapêutico oferece suporte emocional para mulheres



IMG_5103.JPG Tatiana e o marido enfrentaram a perda de Lucca com apenas dez dias de vida, até a gestação de Niccolas (Foto: Divulgação)
23/04/2017 às 05:00

“Depois de cada tempestade, vem um arco-íris”. Foi dessa frase que nasceu o termo “rainbow babies”, que significa “bebês arco-íris” em inglês. A expressão é dada à semente gerada após a perda de um filho, seja ainda na gestação, logo após o nascimento, por doença, acidente, ou outras fatalidades. Representa o misto de fé e esperança de quem carrega no ventre, ou nos braços, uma nova vida.

“Esperar um bebê arco-íris é uma mistura de sentimentos: esperança, medo, fé, alegria, renascimento e muito amor”, diz Glaucimar Oliveira da Silva, 31, que deu a luz a Luiz Miguel no último dia 13, após sofrer uma perda, em setembro de 2015. “Aos cinco meses de gestação, entrei em trabalho de parto. Era uma gravidez gemelar e, infelizmente, devido à prematuridade extrema, minhas ‘Vitórias’ não resistiram”, lembra.



Devido às complicações durante o trabalho de parto prematuro, ela não teve a chance de conhecer as filhas. A família nunca soube exatamente o que aconteceu. Após liberação médica, a supervisora de Recursos Humanos engravidou novamente. O pequeno nasceu com 3kg340 e 48cm5, às 37 semanas (9 meses). Ela incentiva outras mães de anjo a não abrirem mão de recomeçar.

“Minha família e eu acreditamos em um Deus de milagres. Veio nosso bebê arco-íris, em uma gravidez tranquila. Não tenho nem palavras para descrever... Eu choro só de olhar para ele. Muita gratidão a Deus. O amor e a fé falaram mais alto”, afirma. “Não desistam dos seus sonhos. Um novo filho não substituirá seu anjo, mas um novo amor preenche esse vazio. Após a tempestade, vem a esperança. Basta ter fé e acreditar”, finaliza.

Perseverança após perdas

Diagnosticada com aborto de repetição de causa imunológica e Insuficiência Istmo Cervical (IIC) — quando o colo uterino é incapaz de manter a gravidez até o final —, Tatiana Miranda enfrentou uma longa batalha para se tornar mãe. Foram quatro anos de tentativas, com sete abortamentos espontâneos.

“Após o segundo aborto, fiz milhares de exames e descobrimos pequenas alterações, incluindo incompatibilidade com o meu marido. Mesmo com tratamento de vacina ILP [feita a partir do sangue paterno], a gestação não evoluía. Um atendente me disse que existia a chamada ‘Santa Imuno’ e minhas esperanças foram renovadas”, conta.

No mês seguinte, na quinta tentativa, tudo estava bem e o nome foi escolhido. Tatiana e o marido aguardavam por Lucca. Entretanto, com 20 semanas de gestação, o útero dilatou e a advogada praticamente entrou em trabalho de parto. Dez dias depois, o pequeno fruto tão esperado nasceu, mas não sobreviveu.

“Meu Lucca nasceu com 21 semanas e, infelizmente, não sobreviveu. Fui do céu ao inferno em 10 dias. Esse foi um dos piores dias da minha vida”, lembra emocionada, ao ressaltar que sofreu mais duas perdas e decidiu entrar na fila de adoção. Quando recebeu a notícia de que estavam perto da “habilitação”, ela engravidou novamente. Desta vez, sem querer.

Da história dela, nasceu o instablog e o site “Gravidez Um Sonho”, no qual ajuda outras mulheres com informações sobre aborto por causa imunológica e para incentivar as “tentantes” a perseverar. Na foto do tão sonhado filho, ela escreveu: “Para ver o arco-íris é preciso não temer a tempestade”.

“Realizei cerclagem com 13 semanas e fiz repouso leve. Valeu à pena cada esforço! Apesar do risco de parto prematuro, Nicolas (foto acima) nasceu dia 26 de dezembro de 2016, com 38 semanas, mais de 3kg e super saudável”, afirma. “Aborto por causa imunológica é ainda um assunto muito delicado e, por isso, achei que tinha que divulgar”, conclui.

Perda e esperança

Com uma narrativa que combina a força do texto e a sutileza do projeto gráfico, o livro “Até Breve, José” convida o leitor a uma delicada experiência literária sobre a perda. Camila Goytacaz escreve para o filho desde o momento em que soube da gestação. Após a morte do bebê, ainda recém-nascido, continua a conversar com ele sobre os detalhes cotidianos. Com uma linguagem leve, pontuada por lampejos espirituosos, o livro relata a dor da perda e o reencontro com a esperança. Onde comprar: Casa MoaraCasa do Brincar e ilithia.

TRÊS PERGUNTAS PARA Luciana Lima Valgas, psicóloga clínica

Qual é o maior desafio para quem perde um bebê?

O reconhecimento social da sua dor e do luto. O luto gestacional e perinatal é quase sempre um luto solitário para os pais, pois é pouco reconhecido pelo entorno social e familiar do casal. Frases como: ‘Você é nova, logo terá outro filho!’ e ‘Foi melhor assim, não chore!’ São exemplos de como esse luto é pouco compreendido.

Como a família deve lidar com a dor?

Primeiro, falar sobre a dor. Viver o luto e não negá-lo. Entender que o luto é um processo doloroso que precisa ser vivido em sua intensidade para ter possibilidade de elaboração. Mas por ser pouco reconhecido socialmente, os grupos terapêuticos, de apoio ou virtual, são espaços onde é possível a escuta da dor, as identificações e ressignificação da perda.

Esse simbolismo do ‘bebê arco-íris’ tem impacto na vida dos pais?

É comum, muitas vezes, quando uma gestação ocorre logo após a perda, a mãe se deprimir e evoluir para um luto patológico. Dessa forma, entendemos que seria mais adequado falarmos em ‘gestação arco-íris’. Assim tiramos do bebê toda e qualquer responsabilidade de ser somente a cura da dor de seus pais.

DESTAQUE

Em Manaus, existe o grupo terapêutico ‘Luto Materno: Perda Gestacional e Neonatal’, realizado quinzenalmente. Criado em 2015, tem a finalidade de oferecer suporte emocional e uma escuta analítica da experiência do luto para a ressignificação da perda e construção de novas representações para a dor. Interessados em participar devem enviar e-mail para o Espaço Materno.


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