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Parto cirúrgico salva vidas, mas deve ser feito sob indicações médicas reais

Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda uma taxa máxima aceitável de 15% de cirurgias, no Brasil, elas ultrapassam 52% no setor público e 88% no setor privado, tornando o País campeão de cesáreas 18/01/2015 às 18:47
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A visão dos brasileiros é de que uma cesariana é menos arriscada que o parto natural
Natália Caplan ---

Medo de não suportar a dor de um parto normal, a “praticidade” de escolher a hora e o dia em que o bebê nascerá para não ser “pega de surpresa”, insegurança sobre a tal “placenta velha” ou ter a “bacia estreita”, gestação de gêmeos, diabetes, pressão alta, cordão enrolado no pescoço, bebê sentado... Esses são apenas alguns dos motivos que fazem do Brasil o campeão das cesáreas.

Enquanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda uma taxa máxima aceitável de 15% de cirurgias, no País, elas ultrapassam 52% no setor público e 88% no setor privado, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). “A maioria das indicações de cesariana é relativa. Optando-se por uma cesariana, deve-se considerar o balanço entre riscos e benefícios para a mãe e para o concepto”, afirma o obstetra Gabriel Saldaña.

Professor na Escola Superior de Ciências da Saúde da Universidade do Estado do Amazonas (ESA/UEA), ele é um dos idealizadores do Programa de Preparação para o Parto e Nascimento Natural, junto com o doutor Hugo Sabatino. “Não há evidências de boa qualidade de que a cesariana seja a melhor via de parto em casos de gestação gemelar ou cesárea anterior, por exemplo”, afirma, ao ressaltar reais indicações para o procedimento cirúrgico.

“Evidências de boa qualidade sugerem que a cesariana representa a melhor via de parto nos seguintes casos: placenta prévia, descolamento prematuro da placenta normalmente inserida e apresentação córmica (feto ‘atravessado’). Quando as indicações de cesárea são relativas, tanto a mulher quanto a família, devem ser informadas e participar de quaisquer decisões sobre a via de parto”, explica.

Integrante de uma equipe humanizada que atende em domicílio, hospitais e casas de parto de Brasília, Allice Lopes lamenta que, em muitos casos, a escolha seja por motivos banais. “O mito número um, nas minhas vivências como doula, é a ‘placenta velha’. Há também a bolsa rota, mas profissionais atualizados sabem como lidar com este fato”, diz. “O ideal seria que toda mulher tivesse direito a um parto digno ou a uma cesariana com indicação real”, completa.

Porém, segundo ela, é comum ouvir relatos de profissionais que entram em pânico e acreditam que a cirurgia é a melhor solução. O sofrimento fetal, inclusive, é uma das justificativas mais recorrentes. “O sofrimento fetal existe, mas infelizmente alguns profissionais de saúde utilizam o termo como uma manobra para conduzir mulheres para a cirurgia. Se há sofrimento fetal, não existe essa história de marcar para o dia seguinte ou fim de semana”, enfatiza.

A doula também falou sobre um dos principais e mais temidos mitos do parto normal: o cordão enrolado no pescoço do bebê. “É absolutamente comum e não é uma indicação de cesariana. Os bebês se movimentam boa parte do tempo, portanto, fazem e desfazem circulares de cordão. Devemos nos beneficiar da tecnologia e sua segurança, porém sem abandonar um evento tão importante do ponto de vista biológico, emocional e social, que é o parto”, declara.

Paradigma

Estudos internacionais demonstram que fetos nascidos entre 36 e 38 semanas, antes do período normal de gestação (40 semanas), têm 120 vezes mais chances de desenvolver problemas respiratórios agudos e, em consequência, precisam de internação em unidades de cuidados intermediários ou UTIs neonatais. Além disso, no parto cirúrgico há uma separação abrupta e precoce entre mãe e filho, num momento primordial para a criação de vínculo.

Porém a visão dos brasileiros é de que uma cesariana é menos arriscada que o parto natural. “Estamos envoltas em uma cultura que teme o evento do nascimento e o dificulta ao máximo. Uma cirurgia de médio porte — que necessita de 75 pontos — se torna, no imaginário popular, mais fácil que um trabalho de parto. É difícil quebrar esse ciclo. Não é por meio da agressão ou da inferiorização, mas o convencimento vem pela informação”, diz Allice Lopes.

A maioria apresenta o medo das dores do parto e o desconhecimento das vantagens do nascimento normal como os principais fatores para o crescimento do número de cirurgias no País. “Cirurgias são maravilhosas e salvam vidas, quando necessárias. Mas vários problemas acontecem por causa de medidas de rotina, desnecessárias”, ressalta a doula.

Sobre o medo do parto normal, a brasiliense foi enfática. “Geralmente, o medo envolve a violência obstétrica e não o parto em si. Quando bem assistido, o parto normal é mais seguro, há diversos órgãos nacionais e internacionais que publicam estudos sobre o assunto”, conclui.

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