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Pedro Mariano aposta em arranjos mais sofisticados ao lançar disco com orquestra

Em conversa com o Portal A CRÍTICA, ele falou sobre a ideia para o novo trabalho, as escolhas do repertório e a herança musical dos pais, Elis Regina e César Camargo Mariano 10/10/2014 às 15:37
Show 1
Trabalho mistura regravações e inéditas em arranjos sofisticados para banda e orquestra de cordas
Renildo Rodrigues Manaus (AM)

Não, Pedro Mariano não se incomoda que o nome de Elis Regina seja citado quase obrigatoriamente em entrevistas sobre o seu trabalho. “Não tenho vergonha de ser filho dela, pelo contrário. É um legado musical importantíssimo que eu recebi e estou representando”, afirma. É melhor que seja assim, até porque Pedro não tem escolha – não se é filho de Elis e César Camargo Mariano impunemente.

A dupla, que durante um período nos anos 1970 celebrou a união pessoal e musical, é responsável por uma série de discos sensacionais, e uma das obras mais significativas em uma época onde a competição não era pequena – só entre as cantoras, Nara Leão, Maria Bethânia, Gal Costa, Alcione e Clara Nunes foram apontadas como rivais de Elis em diferentes momentos. Mesmo assim, a intérprete gaúcha é tida como uma das vozes definitivas da música brasileira, e levar adiante uma carreira musical sendo “filho de Elis” é mais difícil do que recompensador.

O que não intimidou Pedro e os irmãos Maria Rita e João Marcelo Bôscoli. Cada qual a seu modo – Pedro e Rita como cantores, João Marcelo como produtor e diretor da gravadora Trama –, os “filhos de Elis” têm se saído muito bem, obrigado. Com nove discos no currículo, incluindo o novo lançamento “Pedro Mariano e Orquestra”, o cantor paulista falou com exclusividade ao Portal A CRÍTICA sobre a fase atual, interesses, admirações e o peso da herança musical.

Portal A CRÍTICA: Gostaria de saber como surgiu a ideia de gravar com orquestra. O show parece remeter ao trabalho do seu pai, o pianista e arranjador César Camargo Mariano, e a formações instrumentais de outras épocas, como as big bands dos anos 50. Gostaria que você falasse sobre isso.

Pedro Mariano: É um pouco isso mesmo, mas não foi algo pensado, conscientemente, como um tributo ao som de outras épocas. Costumo dizer que, depois do dó-ré-mi-fá-sol, o resto é plágio, já que sempre vai haver precedentes pra música que você fez, como é o caso desse disco. A verdade é que eu sempre quis trabalhar com orquestra, mas esse sempre foi um projeto difícil, desafiador, porque é toda uma gama de sonoridades, são muitos os músicos, e é preciso equacionar a coisa: escolher o repertório certo, montar arranjos que não soem datados, “coisa do passado”, usar a orquestra como um elemento de inovação na música. Então pensei, sim, no trabalho do meu pai, que sempre escreveu arranjos inovadores, mas também procurei referências modernas, contemporâneas, pra esse show. Um disco que me marcou muito, por exemplo, foi um lançado pelo Sting em 2010, o “Symphonicities”, onde ele revisita o repertório do The Police com arranjos orquestrais. Então, você chega e vê as músicas dessa banda, que foi uma referência muito forte pra minha geração, um power trio, e elas estão aqui numa dinâmica completamente diferente, e soando novas, uma outra dimensão. Aquele do Metallica, também (“S&M”, lançado em 2000). Essa foi a dinâmica que eu quis imprimir a esse trabalho.

Portal: No novo disco, é clara a predileção por músicas mais contemplativas, em tempo médio, o que marca uma mudança em relação ao estilo mais dançante dos seus primeiros trabalhos. Isso é sinal de que você pretende enveredar por esse caminho, ou é algo mais desse projeto mesmo?

PM: Sempre tentei equilibrar a parte dançante com as músicas mais românticas nos meus discos. Mas, quando você tem uma orquestra, esse tempo médio surge naturalmente, a música pede mais espaço para acomodar as cordas. Não acredito que esse show represente uma guinada na minha carreira, no sentido de fazer música mais calma, mas, ao mesmo tempo, não quero parar por aqui. Quero fazer mais trabalhos com orquestra, quero reunir um time de 40 músicos (foram 25 nesse disco), encher o som com mais cores. Essa coisa do upbeat seria um pouco contrária à natureza do projeto, já que mesmo as cordas não podem competir com a metaleira, com uma coisa mais suingada.

Portal: Você gravou “Al Otro Lado del Río”, do compositor uruguaio Jorge Drexler. Você acompanha o trabalho dele? Há outros compositores latino-americanos que você gostaria de gravar?

PM: Acompanho sim, mas o Jorge Drexler entrou nesse trabalho mais por causa dessa música em particular, do que por vontade de explorar o repertório latino. Pela afinidade natural, o fato dele gravar bossa nova, tem uma coisa muito próxima entre a música brasileira e a música do Jorge Drexler, e essa canção sempre mexeu muito comigo. Gosto, por exemplo, do Fito Páez, ou de caras mais antigos, como o Armando Manzanero, o bolero, esse tipo de música sempre entrou lá em casa. Mas não penso, por enquanto, em abordar esse repertório. Confesso que a língua espanhola foi uma barreira pra eu não gravar essa música antes. Tinha muito medo de vacilar na pronúncia, mas treinei e deu tudo certo. A música latina em geral é linda, muito emotiva, e não descarto a vontade de gravar mais autores latinos no futuro.

Portal: E a escolha de “Sangrando”, de Gonzaguinha, tem a ver com a herança materna? Afinal, Elis Regina foi uma das grandes intérpretes do compositor.

PM: Não, não foi por remeter a ela, não. Até porque, se eu gravar um grande compositor brasileiro, inevitavelmente eu vou esbarrar numa interpretação dela, porque a minha mãe gravou todos os grandes compositores brasileiros, vários dos quais ela inclusive lançou. Escolhi essa porque o Gonzaguinha é um compositor muito intenso, muito visceral, e infelizmente muito pouco explorado pelos cantores brasileiros. Talvez isso se explique pelo fato de as canções do Gonzaguinha serem muito particulares. É difícil você entrar na história da canção, especialmente as baladas, e não se emocionar, não se afligir com a realidade dolorosa que ele passa nelas. Mas são músicas incríveis.

Portal: Fechando a questão do repertório, gostaria de saber mais sobre a parceria com Jair Oliveira, que assina boa parte das canções desse novo disco. Gostaria de saber como o senhor avalia o trabalho dele na MPB atual, e se há novos compositores que o senhor gostaria de gravar.

PM: O Jair é um caso à parte na minha carreira. Ele é um dos únicos compositores de quem eu gravaria, fácil, 100% do repertório. Mas também sou suspeito pra falar (risos). Somos amigos de longa data, irmãos mesmo, jogamos bola toda semana, vivemos na casa um do outro, e fazemos música, que eu não tenho competência pra botar no papel, mas ele tem e faz essas coisas incríveis. Então ele escreve e eu canto (risos). Mas tem muita gente boa, competente, o Brandileone (do grupo 5 a Seco), o Dani Black, uma rapaziada que faz o crossover entre a grande tradição brasileira e a linguagem jovem, contemporânea. Também tem a nova galera do samba, no Rio. Assim como tem muita gente abaixo da média, que faz música de momento, dentro da MPB, mas sem qualidade, e que neguinho idolatra. Um pouco fruto da celebridade instantânea, um jornalista vai lá, se empolga, e a coisa viraliza. Mas o maior problema mesmo é o mercado deturpado. Se você me perguntar o que tem de bom na música brasileira, eu vou ter que te perguntar de volta, mas dentro ou fora do mercado? Porque há uma renovação muito grande, mas que não chega ao grande público, não tem chance de chegar.

Portal: Quais recordações você guarda de Manaus? Há expectativa para termos 'Pedro Mariano e Orquestra' na cidade num futuro próximo?

PM: A turnê começa efetivamente no ano que vem. Porque é uma logística muito trabalhosa, são dezenas de membros na equipe, os músicos da orquestra, então a gente escolheu lançar o trabalho e ter uma pré-temporada pra planejar direitinho as datas. Manaus é uma cidade muito legal, o público é super receptivo, empolgado. Um dos meus sonhos é tocar no Teatro Amazonas. Há alguns anos eu toquei aí, num evento da prefeitura, mas do lado de fora do teatro! Tô com saudade daí, e a cidade tá na pauta da turnê, mas ainda não tem uma data.

Portal: Recentemente, a cantora Bebel Gilberto mostrou certo desconforto em ser lembrada como ‘a filha do João Gilberto’. Te incomoda o fato de a imprensa sempre se referir a você evocando o nome dos seus pais? Você não se ressente de poder ter sua carreira avaliada em seus próprios termos?

PM: Olha, não me incomoda, porque não é mentira. Tudo depende do ponto de vista. Se você, ao escrever um texto sobre mim, me apresentar como ‘Pedro Mariano, filho da cantora Elis Regina e do pianista César Camargo Mariano’, é uma informação, ponto – se é relevante ou não, vai depender de quem lê. Agora, se você usa o nome dos meus pais como um comparativo, pra avaliar minha carreira em relação à deles, aí eu acho isso covardia. Era outra época, outra situação, e a história da minha mãe se encerrou no auge – ela não teve o direito de lançar um álbum inferior, porque em carreiras longas isso é uma decorrência natural, alguns discos são melhores que outros. Então, como você compara uma carreira como a dela com a minha, que está em curso? Ainda estou construindo o meu caminho, desenhando a minha história, e a da Elis está aí, completa. Não tenho vergonha de ser filho dela, pelo contrário. É um legado musical importantíssimo que eu recebi e estou representando, mas não estou dando sequência a nada, e sim fazendo a minha história. Então, não me incomodo que citem, são dois grandes expoentes da música brasileira, dos quais tenho profundo orgulho – orgulho esse que eu espero que a minha filha possa sentir quando minha história estiver encerrada. Mas não se faz esse tipo de comparação.

 

Faixas:

  1. Simples (Jair Oliveira)
  2. Certas Coisas (Lulu Santos/Nelson Motta)
  3. Pra Você Dar o Nome (Tó Brandileone)
  4. Al Otro Lado del Río (Jorge Drexler)
  5. Um Pouco Mais Perto (Ana Carolina)
  6. Faltando um Pedaço
  7. Você
  8. Sei Lá Eu
  9. Ventania
  10. A Medida da Paixão
  11. Pontos Cardeais
  12. Sem Você Sou Não
  13. Sangrando
  14. Miragem

Gravado ao vivo no Teatro Alfa, em São Paulo. Distribuído pela LAB 344.

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