Domingo, 20 de Setembro de 2020
LITERATURA

Planos literários: Como o coronavírus afetou a rotina de escritores

Autores amazonenses falam sobre projetos, os novos rumos da literatura e os impactos sofridos em tempos de pandemia



GABRIEL_MAR_7E5B595C-3FAB-446D-ADD2-2CB1890AEBF0.jpg Para o escritor Gabriel Mar, atual crise forçará mudanças necessárias para o mercado literário (Foto: Divulgação)
06/05/2020 às 14:26

Nem Saramargo podia prever que um dia o mundo da literatura sofreria com os impactos de uma pandemia tão colossal quanto a que pintou no clássico “Ensaio Sobre a Cegueira”, de 1995. Dadas as devidas proporções, o que parecia um cenário utópico narrado a distância e somente nos livros, hoje ganha contornos nada sutis. 

Com o surgimento do novo coronavírus e a queda na economia resultante do confinamento social, o colapso no mercado editorial - que já vinha se agravando antes da atual crise - rendeu números nunca antes vistos. Em meio a esse cenário, escritores precisaram reescrever os planos para o restante deste ano, tudo para se readaptar a um novo fazer literário.



O poeta, escritor e músico Celdo Braga acredita que o momento é um verdadeiro divisor de águas. “A gente já tinha uma ameaça quase que efetivada dos livros começarem a ser poucos procurados. As nossas livrarias estão cada vez mais fechando”, lamenta Celdo.

O escritor conta que antes da pandemia, estava começando a trabalhar na reedição de uma de suas obras, o livro “Varal Sonhos ao Sol”, lançado originalmente em 2010, inspirado em lembranças de sua mãe nos tempos em que viviam no interior do Amazonas. O projeto teve que ser adiado.

“Na literatura, este ano eu também tive um projeto de reeditar uma nova edição de ‘Varal Sonhos ao Sol’. Como o investimento destinado para esse tipo de trabalho tem sido praticamente nenhum com toda essa crise, decidimos com a editora que vamos continuar o projeto para o próximo ano”, explica.

Como se não bastasse a questão financeira e de planejamento, o escritor amazonense Jan Santos atenta para uma terceira questão causada pelo atual momento e que atrapalha bastante a vida de quem vive da escrita: A estagnação. 

“No início da pandemia, muitos autores e editoras nacionais disponibilizaram material gratuito, a fim de aliviar a tensão do público em casa. Contudo, a longo prazo, o processo criativo sofre com essa mesma tensão, porque também estagna junto com a vida cotidiana. Talvez, quando a situação estiver mais amena, os contadores de histórias possam olhar esses episódios de modo a usá-los como a matéria-prima para novos trabalhos”, palpita Jan.

Atualmente, o escritor revela estar trabalhando em dois novos projetos literários com vertentes diferentes. A primeira delas é uma história em quadrinhos chamada "TROVÃO", a outra é uma obra ilustrada, chamada de "O livro do rio", ambos projetos vencedores do Prêmio Manaus de Conexões Culturais. “‘TROVÃO’, que conta com roteiro meu e ilustrações do criador da história, Luiz Andrade, estava com lançamento programado originalmente para maio e infelizmente teve que ser adiado por conta da situação”, lamenta.

Para Gabriel Mar, jovem escritor amazonense e autor do fenômeno “Bem-vindos à Rua Maravilha”, que chegou a alcançar o topo da lista de mais vendidos pela Amazon no Brasil na categoria “Literatura e Ficção LGBT”, a atual crise vai forçar mudanças de adaptação que o mercado tanto necessita.“Formatos digitais de publicação são mais baratos tanto para produzir quanto para o leitor final”, argumenta.

Com quatro livros na bagagem, o autor se prepara para correr atrás do tempo perdido após se ver forçado a parar de trabalhar nos lançamentos que previa para 2020. “Essa situação acabou atrasando meus planos de lançar um conto ainda esse ano. Mas como não há previsão de uma normalidade segura, e eu já estou mais adaptado ao confinamento, então já consegui voltar a produzir com calma e foco”, finaliza.

Repórter de A Crítica

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