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Primeira Classe: a dedicação da professora Ritta Haikal

Prestes a completar 75 anos, a advogada, contabilista e professora continua lecionando quatro dias por semana e figura em nossa coluna esta semana 18/10/2015 às 17:29
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Ritta contou que reza muito, adora arrumar os móveis de sua casa e costuma sair com amigos
Lucas Jardim Manaus (AM)

Quase todas as pessoas com quem comentei que entrevistaria Ritta Haikal para esta coluna me disseram que foram alunas dela. Isso serve para exemplificar um pouco da marca significativa que ela deixou na educação amazonense. Prestes a completar 75 anos, a advogada, contabilista e professora continua lecionando religiosamente quatro dias por semana, preparando um livro que deve vir à luz no ano que vem e sendo a matriarca presente de uma família que hoje conta com uma filha e três netos. Sua dedicação orna nosso PRIMEIRA CLASSE desta semana.

O fotógrafo lhe reconheceu quando chegamos. A senhora escreveu para o A CRÍTICA?

Fui articulista e colunista em alguns jornais, entre eles o A CRÍTICA. Na época, eu ainda advogava...

Ah, a senhora é advogada por formação?

Também. Também sou formada em contabilidade, língua inglesa e língua portuguesa.

De onde veio essa vontade de aprender tanto?

Eu não sei... Foi influência dos meus pais, sobretudo, de meu pai.

Como ele lhe influenciou?

Por ter vindo de uma família humilde e não ter completado o ensino primário, ele nunca poupou esforço para nos proporcionar o melhor em matéria de educação.

E o que lhe chamou atenção nas línguas?

Sempre gostei delas. Estudei inglês, português, espanhol, francês... Além disso, estudei piano e pintura.

Como começou a dar aula?

Eu comecei no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos [ICBEU], onde dei aula de inglês por seis anos.

Em que ano você começou a dar aula lá?

Ai, não me fale em anos que eu me perco [risos]! Mas creio que tenha sido em 1974.

Tudo isso? Nossa...

É, faz tempo. Eu completo agora, para o mês, 75 anos!

Isto é tranquilo para a senhora?

Ah, não tenho problema com idade. Para mim, o envelhecimento é natural, todos da minha época estão envelhecendo concomitantemente e esconder a idade é bobagem.

Sinto que isso ainda é tabu para algumas mulheres...

É tabu, não é? Mas do que adianta você dizer que está com 65 anos se as pessoas que conviveram com você estão com 10 anos a mais. É ridículo... Então sou tranquila.

Depois do ICBEU, o que fez?

Em 1985, me formei em Direito e advoguei por 13 anos. Não parei de lecionar, mas parei de advogar.

Por que parou?

Porque descobri que lecionar é minha vocação. Além disso, a advocacia me era muito desgastante.

Em que sentido?

Tudo era muito moroso e, para piorar, a advocacia faz inimigos, sobretudo quando se advoga para amigos e parentes. Isso me fez deixá-la.

Como ficou a vida familiar no meio disso tudo?

Fui casada por 27 anos com meu marido [o empresário Chaouki Haikal]. Hoje, sou viúva, mas sou feliz.

Teve filhos?

Eu costumo dizer que tenho quatro filhos: a minha filha Margerita, e meus netos Natasha, João Pedro e Maria Ritta.

E em termos de estilo, como a senhora se define?

Minha roupa é clássica. Não uso decote nem roupa sem manga, até porque depois de uma certa idade, você tem que esconder [risos]

Tem algum perfume favorito?

Ah, o perfume que eu já uso há mais de 15 anos, o Angel, do Thierry Mugler. Sou conhecida por usá-lo.

O que faz além de dar aula?

Eu gosto de arrumar e decorar a minha casa. Sempre mudo algo de lugar. Rezo muito e saio bastante. Tenho muitos amigos e amigas.

BATE-BOLA

Administração pública

“Em 1985, eu fui aprovada para o concurso da [Secretaria Estadual de Educação] Seduc. Trabalhei dois anos em estágio probatório na [Escola] Estelita Tapajós. Depois, comecei a advogar bastante e ocupei vários cargos. Fui Secretária Municipal do Meio Ambiente, fui Subsecretária na extinta Secretaria de Humanização, fui assessora e chefe de gabinete do ministro Mauro Campbell quando ele foi Secretário de Interior e Justiça... Nem sei mais tudo o que fui, de tanta coisa...”.

Legado

“Eu fico preocupada quando dizem assim: ‘Professora, a mãe da minha namorada estudou com a senhora’. Algumas, eu lembro, outras não, mas por delicadeza, digo que lembro. Ao longo de 54 anos, é impossível dar conta de lembrar de todo mundo. Aí falam que a mãe da namorada estudou comigo, que o primo estudou... O que me preocupa é quando falam: ‘Minha vó estudou com a ‘senhora’ [risos]. Aí é muito pesado, não acha?”.

Devoção

“A minha família sempre teve muita devoção a Santa Rita, e isso passou de geração a geração. Eu tenho uma fé [nela] e vários acontecimentos reforçaram essa fé. A minha mãe sofreu muito para que eu nascesse. Naquele tempo, o parto era a fórceps e ela ficou três dias sofrendo. Não havia cesariana nem nada disso 75 anos atrás. Então, rezaram a Santa Rita e disseram que, se eu fosse menina, nascesse viva, e se minha mãe não morresse, meu nome seria Ritta de Cássia, em homenagem à santa”.

Escrita

“Amo trabalhar com a língua portuguesa voltada ao Direito. Trabalho com muitos advogados e juízes. Pretendo terminar meu livro, que será para esse público, e lançá-lo no ano que vem. Já era para tê-lo feito, sinceramente [risos]. Ele será meu terceiro. O primeiro que lancei foi o ‘Manual de Prática Redacional’, pela Federação das Indústrias, há mais de vinte anos. Depois, a convite da Prefeitura, na última gestão do Amazonino [Mendes], eu escrevi um manual direcionado para correspondência oficial. Desse, só foram publicados dois volumes, para autoridades, mas ele ficou no endereço eletrônico do município”.

Leitura

 “Gosto muito de ler. Hoje em dia, minha paixão são poemas. Eu sou totalmente apaixonada por Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles e Clarice Lispector. Gosto muito de algumas crônicas da Lya Luft. Apesar da linguagem dela ser muito solta, me agrada porque são temas que falam muito ao coração. Gosto muito da prosa da Clarice também. É difícil e hermética, os alunos detestam [risos], mas eu amo. Também gosto muito do Manoel Bandeira. Ele morreu há tantos anos, se você pensar, mas ele continua tão atual. Hoje eu não consigo, fico até constrangida em dizê-lo, ler um livro por inteiro, exceto que ele seja muito bom. Eu gosto é de crônica, de poema... Eu não durmo sem ler um poema”.

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