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Vida

Primeira Classe: Charufe Nasser

Aos 69 anos, a chef de cozinha chamada de “Sultana do Seringal” pretende lançar próximo livro em 2016. Ela fala sobre a mistura entre folclore e culinária, família e a saudade do passado 26/12/2015 às 12:19
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"A referência que eu tenho de justiça são dos meus pais, Nasser Abrahim Nasser e Faride Abrahim", disse
Laynna Feitoza ---

“Não podes consumir além do teu apetite. A outra metade do pão pertence à outra pessoa, e deves deixar um pouco do pão para o hóspede inesperado”. É com este trecho que a chef de cozinha Charufe Nasser inicia o seu próximo livro, "Banquete de lendas" ao mesmo tempo que nos convida para degustar o banquete de signos e significados que é a sua vida. Aos 69 anos, a chamada “Sultana do Seringal” exala perfume no tom contralto de dia voz ao falar sobre a mistura entre folclore e culinária, família e a saudade que tem do passado. E nós, claro, comemos do seu pão partilhado. 

Você tem uma vasta história com a gastronomia, não é? 

Eu era uma princesinha, filha de milionário. Fiz tour pela Europa, mas finalmente quando dormi rica e acordei pobre me perguntei: “O que vou fazer para manter o meu nível?”  Aí eu disse que ia vender kibe, numa barraquinha na Praça da Polícia, onde começou minha vida na Marcílio Dias. Então eu vendia 800 kibes por dia, foi um sucesso. Aí vi que eu podia me manter bem com a culinária e como eu estudei na Europa, aprendi francês na França, italiano na Itália, e espanhol na Espanha, fui me envolvendo com a culinária também. Também estudei no Líbano, então meu forte é a comida árabe. E em cada país aprendi sobre uma coisa.

Como é a relação com seu marido?

Estou com ele (Lincoln Holtz) há 30 anos. Eu conheci ele de costas. Me senti atraída pelas costas. Minha amiga disse “mas como, se não viu a cara dele?” Me aproximei, conversamos, e aí ele veio para Manaus. Ele é gaúcho, mas nos conhecemos no Rio de Janeiro, numa praia. Aí foi aquele amor louco, uma loucura. Ele veio para Manaus, deixou a família e ficou. Vivemos entre tapas e beijos, a cidade toda conhece (risos). Mas é meu anjo da guarda. Deus abriu o céu e caiu um anjo na minha cama. Ele cuida bem de mim. 

Para você, o que é o melhor da vida?

“Uma das melhores coisas da vida da gente é ter amigos. Os amigos substituem qualquer ausência. Quando o pai ou mãe morrem, o apoio dos amigos é uma das coisas principais da vida. Depois do amor físico, carnal que a gente tem por um homem, reina o amor fraternal. E eu tenho ótimos amigos que me acudem, socorrem, guardam e protegem. 

O Líbano é o lugar que lhe deu sentido maior na culinária? 

Sim, porque os árabes são muito importantes em muitas coisas. Na linguagem, filosofia e literatura. Se você lê a história dos árabes fica encantada. Foram os árabes que trouxeram para a Europa o açafrão, o arroz, os cereais. E eles são craques na mistura dos sabores. Os doces de Portugal, que a gente come, como folheados e recheados, foram os mouros que levaram para lá. A minha maior especialidade é a comida árabe, sim. 

Do que mais sente falta do passado?

Todo domingo vou visitar meu irmão e a gente fica relembrando como era boa a vida de antigamente. A gente podia sair, usar jóias, sair de peito aberto na rua. As cadeiras ficavam abertas nas calçadas, havia a maior camaradagem. Naquele tempo não tinha a rivalidade que tem hoje. Tenho saudade do passado. 

Tem amuleto da sorte?

O amuleto da minha sorte é minha língua. Se soubesses o poder da língua... a língua perguntou para os órgãos do corpo “Como vão vocês?” E eles responderam “Muito bem sem ti”. Dizem que a melhor e pior parte do corpo é a língua. Minha língua é meu escudo, porque eu sou franca. Eu não levo para casa. Até que eu já estou mais moderada, mas minha língua me acompanhou por muito tempo.

BATE-BOLA

Livros como filhos

“Fiz o primeiro livro, ‘Sultana do Seringal’. Foi um sucesso, é uma autobiografia romanceada. Vendi quatro mil exemplares sozinha. Depois conheci a Liduína Moura. Ela disse ‘Charufe, resolvi fazer um livro de lendas com as receitas’. Por exemplo, explicando a lenda do açaí com a foto do açaí e as receitas do açaí; a lenda do tucumã com receitas do tucumã. A Liduína fez as lendas, e o nome do meu livro de culinária é “Banquete de Lendas”, um livro belíssimo. O livro está terminado, mas ainda vou lançar, talvez em março de 2016”.

Sonora

“Eu tô decepcionada com o Chico Buarque, porque ele é petista, mas é um grande poeta (risos). Eu gosto do Edu Lobo... eu sou da velha guarda. Meu ritmo predileto é bolero e tango, e música italiana. Tenho uma coleçao de CD’s e LP’s de tango que pouca gente tem. Meu predileto é o Roberto Goyeneche. De música italiana... a música que mais canto é Champagne, do Peppino di Capri. Adoro música portuguesa, os fados. Agora estou apaixonada pela Mariza, canta que é uma loucura”.

Cotidiano

“Eu tenho um restaurante na minha sala. É o maior sucesso dia de quinta-feira. Eu sou especializada em comida italiana, francesa, portuguesa, árabe, faço qualquer tipo. Eu acordo, vou para a feira, cuido da minha cozinha, das minhas comidas porque eu só faço um almoço por semana. Eu digo que Deus trabalhou seis dias e descansou um. Eu trabalho um e descanso seis (risos) mas não é bem descanso. Fico sempre pesquisando, lendo sobre gastronomia”.

Alicerce

“A referência maior que eu tenho de justiça veio dos meus pais, Nasser Abrahim Nasser e Faride Abrahim. Aprendi com eles tudo o que eu sou e procuro passar ao meu filho, Oyama Neto, à minha nora, Christina, e aos meus netos, Trula (3) e Ames (9 meses). Eu sou uma avó babona. Eles moram em NY e quando estou com eles faço tudo. Minha neta foi falar com o Papai Noel lá e pediu de presente uma vinda para Manaus. Eles vêm ao meu aniversário de 70 anos, e vou dançar uma valsa com o bebê no colo”.

Aroma

Eu sou famosa porque só uso um perfume há 50 anos. Meu cheiro é cheiro de jasmin. O meu perfume de toda a vida é Fracas, de Robert Piguet. Depois eles pararam de produzir, mas eu tenho uma fonte em Paris que acha o Fracas para mim. Como a quantidade que ele manda é difícil encontrar, eu uso hoje o Juicy Couture.

Beleza

“Adoro bijuteria, não saio sem brinco ou pulseira. Hoje existem cópias maravilhosas. Até porque não dá mais para andar hoje com jóia. Bijuteria hoje é uma maravilha, elas vêm até com pedras semi-preciosas. Não precisa mais gastar muito para ter. E não saio sem maquiagem. Pinto muito os olhos e agora aprendi a usar batom. Gosto da Dior, Chanel e da Contém 1g”.


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