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Primeira Classe: Leila Barakat e 30 anos de carreira na arquitetura amazonense

A arquiteta, que veio do Sul do País e se tornou uma das maiores expoentes da arquitetura no Estado, fala ao BEM VIVER TV sobre a sua trajetória 31/07/2015 às 15:55
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Leila é apaixonada pela profissão e fez muito pelo reconhecimento dela em Manaus
Lucas Jardim Manaus (AM)

No escritório de Leila Barakat, dois quadros se encaram. Um deles mostra a famosa “Casa da Cascata”, do renomado arquiteto Frank Lloyd Wright. O outro é uma representação do Centro Histórico de Manaus, pintado pelo artista Buy Chaves.

Vestida em trajes práticos, ela se desculpa pela demora, comenta os quadros e conversa sem o deslumbramento que os seus 30 anos de carreira e sucesso lhe permitiriam. Extremamente simples e com uma paixão fervorosa e invejável por seu ofício, Leila Barakat é a estrela da coluna desta semana.

Nestes 30 anos de estrada, você tem algum projeto favorito?

Tenho muito orgulho das residências de alto padrão que fizemos. Falar uma em especial é complicado.

Algum outro nicho também se destaca em seu trabalho?

As áreas comuns dos edifícios de alto padrão, que foi algo que, em especial, me deu muito trabalho.

Por quê?

Porque eu tive que implantar isso em Manaus. Batalhei muito para que as construtoras entregassem os prédios decorados e equipados.

É mais difícil fazer residências ou áreas comuns?

As residências, porque são mais personalizadas.

Nesses casos, o que as pessoas buscam quando lhe procuram?

A maioria delas quer fazer a casa dos seus sonhos. Isso me deixa totalmente realizada.

Você gosta de trabalhar mais nesses projetos?

Gosto. É fantástico porque a relação que a gente se envolve tanto com esses clientes que a realização dele vira a nossa também.

E como você lida com os outros casos?

Depois de descobrir o que o cliente realmente quer para a casa, eu dou sugestões para que a obra se mantenha atrativa para o mercado.

Como você equilibra a vontade do cliente e a do mercado?

Aí entra a nossa experiência. Você tem que sentir o cliente para fazer esse equilíbrio e nem sempre um arquiteto inexperiente o faz.

Como assim?

Às vezes, ele só quer entregar a obra e não se envolver além disso. 

Você não parece aprovar isso...

É porque acho muito fácil entregar, receber e tchau. A obra é um ser vivo em mutação. Ela é um processo. O arquiteto tem que se envolver.

Vocês fazem projetos não-residenciais?

Fazemos, mas quem cuida mais desses é meu sócio, que é meu esposo há 30 anos, o [arquiteto João Pedro] Figueiredo.

Por que ele cuida mais dessa parte?

Porque eu sinto que não sou tão necessária nesses projetos.

Mas então... São 30 anos de carreira e de casamento?

[Risos] É. Cursamos arquitetura na UFRGS juntos e a afinidade era muito grande...

Foi aí que vocês ficaram juntos?

Na verdade, fomos estagiar também juntos, por isso digo que foi o destino, pois foi aí que a nossa relação começou a ficar estreita.

Nessa época, vocês ainda moravam em Porto Alegre (RS)?

Sim. Estudamos, casamos e tivemos nosso filho, que tem 26 anos lá. Nossa filha, de 22, nasceu aqui.

Como foi a vinda para Manaus?

Fomos convidados para cuidar de projetos na Região Norte de um escritório por quatro anos. Nos baseamos aqui e não saímos mais.

Com tanto trabalho, como fica a vida doméstica?

Funciona com muita parceria. Nós dividimos tudo, 50/50.

Mas é 50/50 mesmo [risos]?

É! As pessoas que não nos conhecem acham que eu faço muito mais que ele e eu digo que eu só sou o que eu sou porque eu tenho a retaguarda que eu tenho.

BATE-BOLA

Manaus

“Em 25 anos que eu estou em Manaus, eu nunca tive um dia em que eu não estivesse 100% satisfeita com o meu trabalho, 100% satisfeita com o mercado de trabalho, cheia de esperança, vislumbrando um crescimento da cidade e sabendo no que eu poderia ajudar para esse crescimento. Manaus é uma cidade que cresce, que te acolhe, e é cheia de possibilidades. Quando viemos para cá, o Sul do Brasil estava tudo pronto! Só prédio, prédio, prédio! E aqui tinha uma cidade toda para ser feita!”

Religião

“Sou católica, frequento uma igreja carismática onde toda terça-feira eu me reporto ao meu lado espiritual, porque é uma missa toda cantada, que me faz entender como a música te leva e te eleva à espiritualidade. Eu gosto muito dessas coisas, mas eu frequento qualquer igreja. Eu sou ecumênica, gosto de frequentar palestras espíritas e do lado musical das igrejas evangélicas... Busco respeitar todas as religiões e não julgo ninguém por isso”.

Livros

“Os livros que mais me marcaram foram ‘A Terceira Onda’ [de Alvin Toffler] e ‘Walden II’ [de B. F. Skinner], que eu li para fazer meu trabalho de conclusão de curso, que era sobre uma cidade do futuro. A inspiração e base para toda a minha tese veio desses livros.‘A Terceira Onda’ falava sobre ter internet e trabalhar em casa, mas ninguém sonhava com isso em 1983, e o ‘Walden II’ foi um livro que me mostrou, baseado em experiências, como as pessoas podiam conviver em sociedades alternativas”.

Arquitetura

“Sou totalmente apaixonada pelo que faço. Foi uma coisa muito precoce, mas eu nunca tive dúvida. E eu nunca paro de trabalhar! Quando eu vejo um filme ou uma novela, eu presto atenção no cenário. Se eu vejo vídeos de cidades, de viagens, eu só vejo arquitetura. Sabe por que? Porque arquitetura está em todos os lugares da vida”.

Luta pela liberdade

"Na minha família, sou a filha mais velha e eu sofri muito porque meu pai, libanês e parte de uma família muçulmana muito conservadora, seguia a tradição de mandar as filhas para o Líbano para casar quando elas atingiam uns 15 anos. Eu morria de medo de ir. Quando eu tinha 13 anos, me joguei no esporte. Como me mantinha ocupada, isso me ajudou. Quando eu ia para o ensino médio, meu pai estava construindo uma casa e eu conversava muito com o engenheiro responsável, que era amigo dele. Isso me deu a ideia de fazer escola técnica de arquitetura e urbanismo e pedir para estagiar na construtora dele. Chegando lá, eu me dedicava tanto porque eu não queria ser esposa de um libanês [risos]! Acabei estagiando em outros escritórios, sempre dedicada, e todo mundo dizia que eu tinha que cursar Arquitetura. Como meus irmãos estudavam em Porto Alegre, meu pai perguntou se eu queria ir morar com eles e cursar e eu aceitei. Então eu sinto que eu tive que lutar pela minha liberdade”.

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