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Estreia

Primeira série brasileira da Netflix, ‘3%’ traz temas polêmicos em universo distópico

Produção questiona segregação e meritocracia em um Brasil pós-apocalíptico, mas atores afirmam: é a realidade 27/11/2016 às 06:00
Natália Caplan São Paulo

Quem já assistiu alguns episódios da primeira produção brasileira da Netflix, “3%”, que estreou na última sexta-feira (25), foi impactado com um choque de realidade. Em forma de distopia — lugar ou estado imaginário, onde se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação — mostra um tempo no qual as pessoas são pré-condicionadas a viver em uma sociedade segregada no Brasil.

“Quero falar sobre isso. Existe um teor político nessa segregação de 3% e 97%. Sempre digo que o Brasil é uma grande distopia”, afirma a atriz Bianca Comparato, em coletiva realizada para apresentar a novidade à imprensa. “Pode servir como um alerta, ou se relaciona já com a segregação que vivemos hoje. Gosto de fazer coisas que eu acredito”, completa ela, que interpreta Michele, a protagonista da trama.

No papel de Ezequiel, o ator João Miguel divide o lugar de destaque na história com Bianca. Semelhantemente à colega, ele quis fazer parte do trabalho para “conversar” sobre o tema polêmico com o público. “Todo mundo já foi do ‘lado de cá’. Podemos ver como isso reflete na sociedade. Essa questão do poder é muito forte.  Procuro personagens que tragam uma reflexão. Levamos ao extremo para questionar esse sistema”, declara.

Na opinião de Michel Gomes (Fernando), apesar de tratar de um futuro hipotético, “3%” reflete a atual e injusta realidade em grande parte do planeta. Ele compara a sociedade a uma longa escada, onde os degraus são diferentes, conforme a posição de cada indivíduo no sistema de meritocracia — modelo de hierarquização e premiação baseado nos méritos pessoais de cada um.

“Sempre me pergunto como esse mérito funciona. Eles estão sob pressão o tempo todo e acontecem coisas terríveis. Após as gravações, eu chegava em casa no 220wv, não conseguia dormir. Começa de uma forma muito impactante, que nos faz pensar ‘o que será que vem pela frente?’, ‘quem tem o mérito e quem não tem?’... No meu ponto de vista, não estamos tão longe dessa realidade”, enfatiza.

Amazônia nos planos?

Que tal uma série “padrão Netflix de qualidade” 100% brasileira sobre a Amazônia? A possibilidade foi confirmada durante a apresentação do primeiro trabalho nacional da empresa de streaming, “3%”. De acordo com o vice-presidente de séries internacionais, Erik Barmack, o Brasil deverá se tornar cenários de grandes produções nos próximos anos.“Estamos vendo algumas coisas sobre meio ambiente, procurando a melhor oportunidade. A questão é que tipo de programa. No futuro pensamos, sim, sobre produções em diferentes partes do Brasil”, revela, ao ressaltar que a proposta é surpreender. “A ideia não é que as produções sejam as melhores do Brasil, mas do mundo”, completa. Ainda de acordo com o norte-americano, a Netflix está à procura de narrativas que mostrem a cultura e vida do País. Não importa o gênero, mas encontrar “pessoas com talento e paixão para dar vida às histórias”.  “Vocês vão ver isso acontecendo quando começarmos a filmar a terceira ou quarta série. Buscamos pessoas que tenham histórias para contar”, finaliza.

DESTAQUE

Disponível em 190 países, em mais de 20 idiomas, a série foca em uma competição entre jovens submetidos a provas físicas e intelectuais. Eles devem provar ser “dignos” de sair do lugar de miséria onde nasceram para morar em uma terra onde há prosperidade. Para isso, deixam família e amigos, ultrapassando os limites do bom senso para conquistar um lugar entre os “3%” merecedores.

BUSCA RÁPIDA

Uma das inspirações do criador de “3%”, Pedro Aguilera, é o livro “Admirável Mundo Novo” (“Brave New World”, na versão original em inglês), um romance distópico escrito por Aldous Huxley, publicado em 1932. Apesar de lembrar “Jogos Vorazes” e “Divergente”, a história do brasileiro surgiu antes e teve um piloto compartilhado nas redes sociais, em 2009.

FICHA TÉCNICA

Produção: Boutique Filmes e Netflix Brasil

Produção executiva: Tiago Mello

Direção geral: César Charlone, Daina Giannecchini, Dani Libardi e Jotagá Crema

Roteiro e criação: Pedro Aguilera

Direção de arte: Valdy Lopes Junior

Direção de fotografia: Eduardo Piagge

Música: André Mehmari

*A repórter viajou à convite da Netflix.

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