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Profissão mulher: elas cada vez mais inclusas em setores antes tomados por homens

Conheça a história de três representantes do gênero feminino que romperam barreiras e consolidaram-se em profissões inusitadas, equilibrando suas vidas entre as funções de mães, esposas, irmãs e amigas 09/03/2013 às 12:22
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A bombeiro militar Karina Reis é a primeira mulher da Região Norte a pilotar helicóptero na Segurança Pública
Laynna Feitoza Manaus, AM

Elas são guerreiras, diferentes, destemidas e refletem uma realidade muito diferente do que a de outrora, onde homens dominavam quase que completamente alguns setores específicos de trabalho. Elas são, acima de tudo, mulheres.

Conheça a história de três representantes do gênero feminino que romperam barreiras e consolidaram-se em profissões inusitadas, equilibrando suas vidas entre as funções de mães, esposas, irmãs e amigas.

“Corri tanto atrás do infrator que me deram três dias de folga” - Zeyna Gorayeb, policial civil


Uma policial civil conhecida por defender os direitos do próximo: esta é Zeyna Gorayeb, 52. Atualmente lotada na Delegacia do Menor Infrator, atua na área policial há 28 anos. De acordo com ela, a paixão pelo ramo das investigações começou ainda na infância.

“Eu sempre gostei, desde criança, dessa área de investigação e polícia. Todo jornal que chegava em casa eu pegava pra ler e ia direto na parte policial. Via filmes e amo muito minha profissão. Entrei na polícia com 24 anos e tinha filho pequeno, e depois do estágio probatório resolvi estudar Direito”, disse Zeyna, que além de ser graduada em Direito, é pós-graduada em Direito Penal.

No início da carreira, Zeyna afirmou ter sofrido preconceito, pois, segundo ela, a profissão de policial ainda era muito marginalizada e as mulheres da época ainda eram vistas como o sexo frágil, como aquelas que temiam tudo. “Quando entrei na polícia folgava pouco, por falta de contingente. Como o passar do tempo, o quadro foi aumentando e essa realidade foi mudando. Havia mais mulheres no ramo administrativo, mas não no policial em si”, contou Gorayeb ao acritica.com.

Diversas foram as histórias que rondaram a vida de Zeyna na polícia civil, mas ela pontuou duas em especial, que jamais serão esquecidas, de acordo com ela. “Eu trabalhava, na época, na primeira Delegacia do Aeroporto Internacional, e o delegado titular era o Délio Gomes. Lembro que recebemos uma ocorrência onde tinha um rapaz que estava rondando o estacionamento e me chamaram para averiguar quem era", destacou.

Ao chegar lá, Zeyna percebeu que o homem estava tentando roubar um carro e, ao vê-la, saiu correndo. "E eu saí correndo atrás. Eu consegui segurá-lo, mas a roupa dele estava tão fedorenta que acabava largando e ele conseguia atravessar portões e invadir áreas restritas. Ele entrou na pista do Aeroporto e um rapaz que estava na área das bagagens conseguiu segurá-lo. Descobrimos então que ele era foragido do presídio e havia sido condenado por assalto, roubava carros mesmo. Depois disso, o delegado me deu 3 dias de folga porque eu não conseguia andar no outro dia, de tanto que eu tinha corrido atrás do rapaz”, lembrou, aos risos, a policial civil.

Outra história interessante da carreira de Zeyna refere-se à vez em que ela foi buscar um rapaz na própria casa para depor na delegacia (a primeira delegacia em que ela trabalhou, o 4º Distrito Policial, que funcionava ao lado do Vivaldão).

“Na época trabalhei com a doutora Dilma, e ela mandou eu ir buscar um homem por conta de uma queixa, para dar esclarecimentos sobre a acusação. Quando cheguei na casa dele, ele estava deitado na rede e então me apresentei. Ele perguntou se ia ficar preso e eu disse que não, que ele iria me acompanhar apenas para depor. Ele então disse que não tinha dinheiro e como estávamos sem viatura, eu o levei para a delegacia de ônibus”, contou.

O reconhecimento ao esforço e diferencial de Zeyna foi tamanho que a delegada titular, por vezes, brincava com ela dizendo: “Vários homens foram e não trouxeram, e a mulher foi sozinha e trouxe o cara de ônibus”, recordou Zeyna.

“É fantástico o momento em que você pode conduzir um aeronave sozinha” - Sandra Scantamburlo, piloto de avião


Os céus também não são restritos apenas a homens, e a prova disso é Sandra Scantamburlo (de preto), 28, aeroviária e também piloto de avião. Sandra começou a estudar no curso de Piloto Privado aos 16 anos, e tirou o brevê (permissão para voar) em 2007. Segundo ela, desde pequena nutria paixão pela profissão, mas não sabia como entrar no meio.

“Quando eu estudava no ensino médio, estagiei em uma companhia aérea. E aí foi quando eu conheci mais a profissão e comecei a estudar”, ressaltou Sandra. De acordo com Sandra, o que mais se impõe como dificuldade para dar continuidade ao curso é o valor elevado das horas de voo, necessárias para as atividades práticas do aluno de aviação.

Sandra fez o curso de Piloto Privado no aeroclube de Votuporanga (SP), e complementou dizendo que a família nunca se opôs à sua escolha. “Eu fui a primeira da minha família a entrar na aviação. Minha família nunca teve preconceito, mas no aeroclube sim, de certa forma. Posso dizer que metade deles apoiava e metade deles não apoiava tanto. Eles não deixam na cara, mas em algumas conversas acabava percebendo que havia restrições por parte deles”, assegurou a piloto.

Um momento especial na carreira de Sandra, segundo ela, foi o seu primeiro voo solo, em 2007. “É fantástico o momento em que você pode conduzir uma aeronave sozinha. É uma emoção indescritível. A atividade fazia parte da programação das horas práticas que há no curso”, recordou.

Sandra também é coordenadora do curso de Piloto Privado da escola de aviação Amazon Air, em Manaus. Além disso, ela cuida da filha de um ano e trabalha em uma companhia aérea. “Estava finalizando o curso de piloto privado quando tive minha filha. Tenho uma babá, e moro com minha mãe e três irmãos. Quando preciso viajar ela fica com meus familiares. Agora tenho que fazer malabarismos”, brincou a piloto privado.

De acordo com Sandra, as mulheres que querem seguir pela carreira da aviação precisam ter muita persistência. “Porque são várias as etapas: a etapa teórica, a etapa de exames médicos, e geralmente quem estuda tem sempre muita coisa para estudar em pouco tempo, sem falar que ainda é um ramo muito dominado por homens”, certificou.

“Realmente somos tomados pelo instinto de ajudar” - Karina Reis, bombeiro militar e piloto de helicóptero


O universo dos resgates mesclado à vocação de salvar vidas foi a missão que a capitã Karina dos Reis, 27, bombeiro militar, tomou para a sua vida. Ela está há 9 anos na profissão e é também a primeira mulher da Segurança Pública a pilotar helicóptero na Região Norte.

“Eu estudei no Colégio da Polícia Militar, da 7ª série ao 3º ano. Decidi ser militar pela convivência que tinha com os colegas e com meu pai, que também é militar. Com isso, fui criando admiração pela profissão. Terminei o colégio com 15 anos. Fiquei esperando o concurso para bombeiro militar, que não teve em 2002, mas teve no fim de 2003, época em que eu fiz e passei”, destacou Karina.

De acordo com ela, para a família, a decisão de ser bombeiro não foi nenhuma novidade e descreveu as etapas que se seguem após a aprovação. “Porque meu pai já era militar, e eles sempre me apoiaram. Depois da aprovação no concurso, o aprovado vai se preparar na academia de formação. Fui para o Rio de Janeiro, que na época era onde tinha vaga para mulheres, e fiquei 3 anos como cadete. No fim de 2006, formei e voltei para casa como aspirante a oficial”, disse a bombeiro militar.

Ao contrário dos dois relatos anteriores, em sua trajetória, Karina disse não ter sofrido preconceito vindo de homens. “No Rio de Janeiro eu estava na quarta turma de oficiais femininas do estado. Não foi bem uma quebra de barreiras, pois na minha turma havia 72 homens e 3 mulheres e eles respeitavam bastante”, confidenciou Reis.

Em relação à carreira de piloto de helicóptero, Karina ressaltou que a habilitação é disposta de forma diferente. “Para os carros, a habilitação é uma só. Em helicópteros, cada modelo possui uma habilitação específica. Para pilotar outros modelos de helicóptero, você precisará retirar a habilitação referente a cada um deles”, revelou a bombeiro militar que pilota helicópteros da marca Schweizer.

Ela contou também como ingressou na carreira de piloto de helicóptero: “Na época, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) queria fazer um grupamento aéreo em 2009, e teria um concurso interno entre delegados e policiais. Nisso, ao ser aprovada, fui para São Paulo fazer o curso prático de piloto comercial de helicóptero”, informou Reis.

No processo para obter a habilitação de piloto de helicóptero, Karina disse não ter percebido nenhuma discriminação de nenhum rapaz do meio. “Era um concurso, você só passava para a próxima fase se vencesse a anterior. É claro que, no cotidiano, há alguns comentários como 'vem pilotar fogão', vindo de amigos do Corpo. Mas comigo nunca senti maldade. Sempre levei na boa, mas nunca sofri discriminação por ser mulher”, garantiu Reis.

Um dos momentos marcantes destacados por Karina na profissão referiu-se a um resgate, onde, segundo ela, o profissional é tomado pelo instinto de ajudar. “Teve uma parte do curso em Fortaleza (CE) em que fiz um resgate de um militar ferido em um tiroteio. Via a pressão da equipe em salvar um colega que estava trabalhando, porque a adrenalina sobe. Realmente somos tomados pelo instinto de ajudar. Não há medo”, concluiu a bombeiro, que disse gostar das duas profissões proporcionalmente. “Melhor ainda é trabalhar com helicóptero no ramo do Corpo de Bombeiros”, arrematou.

"Caiu a barreira da sexualidade: elas vão criar e intensificar a ocupação do espaço profissional", diz socióloga


A professora Marilene Corrêa, doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirmou que de fato há uma intensificação da participação da mulher no âmbito das carreiras profissionais geralmente dominadas por homens. Segundo ela, a mulher não irá se apropriar por completo das atividades exercidas por homens, mas irá reconfigurar o seu próprio espaço em prol de si mesma e da família.

“Eu não digo que a mulher vai tomar o espaço do homem, mas essa intensificação vai acontecer, não pela necessidade de tomar esse espaço, mas sim pela necessidade de ter oportunidades e usufruir delas. Essa é uma dimensão. A outra diz respeito à formação dessas mulheres no mercado de trabalho. O domínio das tecnologias, engenharias, é um domínio que antes era restrito e hoje não é mais. Caiu a barreira da sexualidade: elas vão criar e intensificar a ocupação desse espaço, por estarem reconfigurando novos espaços profissionais”, elucidou a doutora.

Sobre a capacidade da mulher atual dominar diversas habilidades e atividades simultaneamente, Corrêa explicou que a capacidade de desenvolver funções de mando é proveniente dos tempos ancestrais, antes do início da luta das mulheres por seus direitos.

“Elas já tiveram essa capacidade de liderança e de desenvolver funções de mando. Essa capacidade já existiu ancestralmente, há tempos. Hoje elas têm a necessidade de fazer isso, de se dividir entre várias necessidades por ser preciso. No fundo, a mulher não quer ser a super-mulher e nem ser a subordinada. Ela quer dividir a responsabilidade, compartilhar as tarefas de sobrevivência e os deveres familiares também”, pontuou Marilene.




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