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Projeto de terapia com cães visa benefícios à saúde

Projeto Pet Terapia Amigo Fiel funciona em Manus há um ano e visa colocar os cães em contato com crianças e idosos enfermos ou em lares provisórios para auxiliar o bem-estar geral 16/05/2015 às 11:10
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Projeto possui psicólogos, psicopedagogos, veterinários e adestradores
Laynna Feitoza Manaus (AM)

O aposentado Salviano Reis, 77, espera ansiosamente pela visita ilustre do querido amigo Otto, duas vezes ao mês, na Fundação Dr. Thomas, onde se recupera de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que sofreu. O amor é tanto que ele chega a considerar o querido amigo como um próprio filho. “Ele é a cara do pai, até a barba parece”, diz o idoso.

E ele é ousado: “Quase que ele nasce com dois pés para parecer mais comigo”, diz. À primeira vista, quem lê acha estranho a ausência de pés no “filho” de Salviano. É porque, na vida real, os pés dão espaço para quatro patinhas: Otto é, na verdade, um cão da raça Schnauzer, que visita Reis e vários outros idosos no local regularmente.

As visitas integram o projeto Pet Terapia Amigo Fiel, que funciona há um ano em Manaus e que visa colocar cães em contato com crianças e idosos enfermos ou em lares provisórios para auxiliar no seu bem-estar geral. O que é comprovado pela ciência e também pela dona de casa Wall Nunes, 33, e seus dois filhos pequenos, Pedro Isaac, 5, e Rebeca, 10, que sofrem com diabetes.

“Meu filho antes tinha medo de tudo. Com os animais, tudo ficou diferente. Os cães os motivam a ter coragem para seguir as recomendações médicas”, lembra a mãe. “Olha mamãe, o que o cachorro come tem proteína? As nossas comidas também tem proteínas? Então eu vou comer”, diziam os pequenos à genitora.

Coletividade

A responsável pela implementação do Pet Terapia em Manaus é a psicopedagoga Rose Britto, que também coordena a atividade, conhecida como Terapia Assistida por Animais (TAA) com os cães terapêuticos. No total, locais como Hemoam, Casa Mamãe Margarida e Lar da Criança já receberam a visita dos amigos de quatro patas. A quantidade das visitas dos animais é geralmente quinzenal, mas intensificada no período de datas comemorativas, como Dia das Crianças, Dia das Mães e Natal. 

“Usamos os animais para tirar a inibição da criança e do idoso, bem como para deixá-los relaxados”, recorda ela. Para visitarem os coleguinhas, os cãezinhos passam por avaliações mensais; são sempre vermifugados; recebem treinamento básico de obediência; estão livres de zoonoses e tomam banhos com shampoos de clorexidine (que evita a propagação de ácaros nos bichos) para prevenir alergias nos pacientes.

Segundo a psicóloga do projeto, Giselle Braga, existe um acervo pequeno - mas significativo – na literatura internacional que dá conta dos benefícios que os animais trazem aos humanos. “Há melhoras em frequências cardíacas e na receptividade dos pacientes em relação aos tratamentos”, pondera ela. Ela mesma diz se surpreender ao ter visto, em um lar, um idoso que não falava com ninguém se comunicar com um cachorro do projeto e dar carinhosos apelidos a ele.

“São idosos que, por conta do que passaram na vida, já não falam mais com as pessoas. Às vezes são pessoas em processo de perdas, ou saúde frágil... ou até mesmo pelo ambiente hospitalar que é difícil. A receptividade com as crianças é maior ainda, elas ficam encantadas, adoram. Perguntam quando vão ver os amiguinhos deles de novo. Os pacientes lembram dos animais que já tiveram na vida e esse turbilhão de emoções parece simples, mas impacta bastante”, aponta.

O adestrador Pedro Fonseca prepara os cães do projeto e afirma que o bem gerado é recíproco. Qualquer raça de cachorro pode integrar o projeto – desde que se submeta à socialização. “Começamos levando em locais que tem bastante gente, usamos as técnicas normais de adestramento, e as pessoas vão se aproximando, até os cães se permitirem receber carinho”, destaca.

Dentre os benefícios deste contato de animais e humanos, Pedro ressalta a redução da agressividade e da agitação nos cães. “O próprio Otto não aceitava que ninguém tocasse nele; logo rosnava. Hoje ele está calmo e amoroso. A ajuda é mútua”, pondera. Enquanto a mutualidade é comprovada em relatos, o pai adotivo de Otto, o Sr. Salviano, a reforça em afetos todas as vezes que sente saudades do filho: segura uma foto dele, olha e sussurra: “Papai está com saudade, venha me ver”, contando os dias para o próximo encontro.

Saiba +

Há registros no século IX, na Bélgica, do uso de animais para pacientes com deficiências. Em 1792, em Yorkshire, na Inglaterra, animais também foram utilizados em terapias com pacientes esquizofrênicos. No Brasil, os trabalhos da Dra. Nise da Silveira, na década de 50, no hospital psiquiátrico Dom Pedro II (RJ) dão conta das primeiras tentativas nacionais do uso de animais para fins terapêuticos.

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