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Projeto Histórias Ocultas dá voz a ‘invisíveis’ por meio de vídeo e fotos

Documentário em curta-metragem e exposição de fotos registram relatos de moradores de rua de Manaus e têm lançamento nesta quinta, no Café Teatro 26/03/2016 às 17:03 - Atualizado em 27/03/2016 às 17:48
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Documentário “Histórias ocultas de um cidadão invisível” é o primeiro de uma trilogia enfocando diferentes aspectos do problema dos moradores de rua (Divulgação)
Jony Clay Borges Manaus (AM)

Tal como ocorre em outras metrópoles, em Manaus os moradores de rua costumam ser ignorados na paisagem urbana. Mas uma iniciativa independente quer dar voz a esses habitantes invisíveis da cidade grande por meio de vídeos, áudios e fotografias. Trata-se do Projeto Histórias Ocultas, que exibe seus primeiros registros com o lançamento de um documentário em curta-metragem e de uma exposição de fotografias nesta quinta-feira, dia 31, às 19h30, no Les Artistes Café Teatro (avenida Sete de Setembro, 377, Centro). O evento é gratuito e aberto ao público.

Com duração de 6 minutos e meio, o curta “Histórias ocultas de um cidadão invisível” reúne relatos de sete personagens sem teto, colhidos ao longo de três meses nas ruas de Manaus. A exposição, por sua vez, reúne 12 fotografias e conta ainda com uma seção interativa, onde o visitante pode contemplar imagens individuais de três dos sem-teto ouvidos pelo projeto e escutar trechos de seus relatos em áudio.

No documentário, os entrevistados falam de suas vidas antes das ruas – a rotina, os filhos, os estudos e por aí vai. “Eles relatam casos de conflitos com a família, problemas em casa. São situações que estão presentes na vida de qualquer pessoa”, explica Saadya Jezini, mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e idealizadora do projeto. Ela rejeita a ideia de que o crime leva à vida nas ruas (“Na verdade é o oposto”, diz) e aponta que a via pública serve como fuga. “Uma vez lá, é difícil voltar. E há uma liberdade na rua, uma vida sem obrigações”.

REVELANDO HISTÓRIAS
O germe do Histórias Ocultas surgiu em agosto passado. Saadya, que hoje cursa Jornalismo na Ufam, buscava um substituto para as pesquisas que fazia junto a comunidades ribeirinhas no interior, mas para as quais não tinha mais tempo por conta da nova graduação. E teve a ideia de dirigir seu foco a uma população mais próxima: os moradores de rua.

“Sempre tive certeza de que os moradores de rua têm histórias de vida interessantes de se escutar”, conta Saadya. Para ela, que também é repórter de A CRÍTICA, histórias como essas trazem aprendizados. “Percebi que a gente só evolui como pessoa ou profissional se tiver contato com coisas diferentes da nossa realidade. A gente cresce com essas pessoas”, diz.

Saadya realizou uma primeira visita a desabrigados na área da Manaus Moderna, Zona Sul, acompanhada do fotógrafo Lucas Silva. A experiência, ela conta, foi boa rendeu horas de conversas e muitas fotos. Mas foi só após a repercussão de seus posts sobre a iniciativa nas redes sociais que ela teve a ideia de desenvolver algo maior. “As pessoas comentavam, ‘Que legal seu projeto’, ‘Posso ir contigo? Como faz?’. E pensei, ‘Se as pessoas querem tanto escutar histórias desses personagens, pode dar um desdobramento legal’”, conta.

Saadya Jezini (ao centro) é a idealizadora do Histórias Ocultas, que tem ainda (da esq.) Lucas Silva, Gabriela Sasahara, Caroline Rocha e Camilo Marinho

REGISTROS
Além de Saadya e Silva, o projeto logo ganhou a adesão de Silva e de Camilo Marinho, responsáveis pelos registros audiovisual e fotográfico; Caroline Rocha, assessora de comunicação; e Gabriela Sasahara, responsável por arrecadar pequenas doações de roupas e material de higiene para os desabrigados. De agosto a dezembro, o grupo coletou depoimentos e registros de 16 personagens, moradores do Centro, Educandos e outros bairros de Manaus.

“Coletamos registros importantíssimos, tanto de falas e histórias de vida, quanto de gestuais – os pés, as mãos, os olhos, as emoções”, assinala Saadya. O grupo, ela conta, passou por um pequeno treinamento para conduzir as abordagens aos desabrigados, e buscou fazer registros profissionais, em termos de luz e enquadramentos. “Foi um desafio fazer isso sem invadir a privacidade dos moradores, sem que se sentissem recuados com a presença da câmera”.

OUTROS OLHARES
A experiência com os moradores de rua, de acordo com Saadya, mudou a relação dela e de seus companheiros com essa população. “É algo comum entre nós no grupo. Hoje em dia olho nos olhos do morador, hoje me dói ver alguém pedindo comida. Hoje a gente baixa o vidro, conversa, para o carro”, declara. “Não adiantaria fazer um projeto com moradores de rua se não acreditássemos que cresceremos com as histórias de vida deles”.

Com o Histórias Ocultas, Saadya e seus companheiros esperam levar esse novo olhar a outras pessoas. “Acreditamos que, com esse documentário e a exposição fotográfica, vamos levar um pouco desse sentimento da gente para outras pessoas, para elas passarem a olhar esses moradores de rua de maneira diferente, mais sensível, mais humana. Para que vejam que ali tem uma pessoa, e não um objeto que faz parte do cotidiano da gente”.

Após o lançamento, a mostra do Histórias Ocultas ficará em cartaz no Café Teatro por uma semana, com visitação gratuita de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. Saiba mais sobre a ação pelo Facebook (Facebook.com/Projetohistoriasocultas), Instagram (@historiasocultas) e Youtube (Projeto Histórias Ocultas).

REGISTROS VÃO RENDER TRILOGIA
“Histórias ocultas de um cidadão invisível” é o primeiro do que será uma trilogia de documentários sobre os moradores de rua de Manaus, que vai enfocar o problema também dos pontos de vista da sociedade e do poder público.

Segundo filme da série, “Histórias ocultas de uma sociedade doente”, a ser lançado no dia 28 de maio, vai enfocar o modo como as pessoas veem e tratam os moradores de rua, combinando relatos de sem-teto e depoimentos de transeuntes. O terceiro filme, ainda sem nome, deve sair no dia 26 de julho, buscando o posicionamento do poder público frente à questão.

Para Saadya Jezini, o problema dos moradores de rua só pode ser enfrentado de forma conjunta. “Só vai acontecer se o morador de rua quiser sair de lá, se tiver apoio da família e do poder público, e sem ser marginalizado pela sociedade”, afirma ela. “Sem isso, é muito mais fácil voltar para as ruas”.

APOIO
O Projeto Histórias Ocultas é uma iniciativa realizada de forma independente por estudantes e profissionais das áreas de Comuni- cação e Arquitetura. Além de pequenas contribuições individuais, a iniciativa tem apoio da Linny Arte Papelaria, da Manauscult e da Wizard.

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