Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
Iniciativa

Projeto Histórias Ocultas dá voz a ‘invisíveis’ por meio de vídeo e fotos

Documentário em curta-metragem e exposição de fotos registram relatos de moradores de rua de Manaus e têm lançamento nesta quinta, no Café Teatro



BEM-2.JPG Documentário “Histórias ocultas de um cidadão invisível” é o primeiro de uma trilogia enfocando diferentes aspectos do problema dos moradores de rua (Divulgação)
26/03/2016 às 17:03

Tal como ocorre em outras metrópoles, em Manaus os moradores de rua costumam ser ignorados na paisagem urbana. Mas uma iniciativa independente quer dar voz a esses habitantes invisíveis da cidade grande por meio de vídeos, áudios e fotografias. Trata-se do Projeto Histórias Ocultas, que exibe seus primeiros registros com o lançamento de um documentário em curta-metragem e de uma exposição de fotografias nesta quinta-feira, dia 31, às 19h30, no Les Artistes Café Teatro (avenida Sete de Setembro, 377, Centro). O evento é gratuito e aberto ao público.

Com duração de 6 minutos e meio, o curta “Histórias ocultas de um cidadão invisível” reúne relatos de sete personagens sem teto, colhidos ao longo de três meses nas ruas de Manaus. A exposição, por sua vez, reúne 12 fotografias e conta ainda com uma seção interativa, onde o visitante pode contemplar imagens individuais de três dos sem-teto ouvidos pelo projeto e escutar trechos de seus relatos em áudio.



No documentário, os entrevistados falam de suas vidas antes das ruas – a rotina, os filhos, os estudos e por aí vai. “Eles relatam casos de conflitos com a família, problemas em casa. São situações que estão presentes na vida de qualquer pessoa”, explica Saadya Jezini, mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e idealizadora do projeto. Ela rejeita a ideia de que o crime leva à vida nas ruas (“Na verdade é o oposto”, diz) e aponta que a via pública serve como fuga. “Uma vez lá, é difícil voltar. E há uma liberdade na rua, uma vida sem obrigações”.

REVELANDO HISTÓRIAS
O germe do Histórias Ocultas surgiu em agosto passado. Saadya, que hoje cursa Jornalismo na Ufam, buscava um substituto para as pesquisas que fazia junto a comunidades ribeirinhas no interior, mas para as quais não tinha mais tempo por conta da nova graduação. E teve a ideia de dirigir seu foco a uma população mais próxima: os moradores de rua.

“Sempre tive certeza de que os moradores de rua têm histórias de vida interessantes de se escutar”, conta Saadya. Para ela, que também é repórter de A CRÍTICA, histórias como essas trazem aprendizados. “Percebi que a gente só evolui como pessoa ou profissional se tiver contato com coisas diferentes da nossa realidade. A gente cresce com essas pessoas”, diz.

Saadya realizou uma primeira visita a desabrigados na área da Manaus Moderna, Zona Sul, acompanhada do fotógrafo Lucas Silva. A experiência, ela conta, foi boa rendeu horas de conversas e muitas fotos. Mas foi só após a repercussão de seus posts sobre a iniciativa nas redes sociais que ela teve a ideia de desenvolver algo maior. “As pessoas comentavam, ‘Que legal seu projeto’, ‘Posso ir contigo? Como faz?’. E pensei, ‘Se as pessoas querem tanto escutar histórias desses personagens, pode dar um desdobramento legal’”, conta.

Saadya Jezini (ao centro) é a idealizadora do Histórias Ocultas, que tem ainda (da esq.) Lucas Silva, Gabriela Sasahara, Caroline Rocha e Camilo Marinho

REGISTROS
Além de Saadya e Silva, o projeto logo ganhou a adesão de Silva e de Camilo Marinho, responsáveis pelos registros audiovisual e fotográfico; Caroline Rocha, assessora de comunicação; e Gabriela Sasahara, responsável por arrecadar pequenas doações de roupas e material de higiene para os desabrigados. De agosto a dezembro, o grupo coletou depoimentos e registros de 16 personagens, moradores do Centro, Educandos e outros bairros de Manaus.

“Coletamos registros importantíssimos, tanto de falas e histórias de vida, quanto de gestuais – os pés, as mãos, os olhos, as emoções”, assinala Saadya. O grupo, ela conta, passou por um pequeno treinamento para conduzir as abordagens aos desabrigados, e buscou fazer registros profissionais, em termos de luz e enquadramentos. “Foi um desafio fazer isso sem invadir a privacidade dos moradores, sem que se sentissem recuados com a presença da câmera”.

OUTROS OLHARES
A experiência com os moradores de rua, de acordo com Saadya, mudou a relação dela e de seus companheiros com essa população. “É algo comum entre nós no grupo. Hoje em dia olho nos olhos do morador, hoje me dói ver alguém pedindo comida. Hoje a gente baixa o vidro, conversa, para o carro”, declara. “Não adiantaria fazer um projeto com moradores de rua se não acreditássemos que cresceremos com as histórias de vida deles”.

Com o Histórias Ocultas, Saadya e seus companheiros esperam levar esse novo olhar a outras pessoas. “Acreditamos que, com esse documentário e a exposição fotográfica, vamos levar um pouco desse sentimento da gente para outras pessoas, para elas passarem a olhar esses moradores de rua de maneira diferente, mais sensível, mais humana. Para que vejam que ali tem uma pessoa, e não um objeto que faz parte do cotidiano da gente”.

Após o lançamento, a mostra do Histórias Ocultas ficará em cartaz no Café Teatro por uma semana, com visitação gratuita de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. Saiba mais sobre a ação pelo Facebook (Facebook.com/Projetohistoriasocultas), Instagram (@historiasocultas) e Youtube (Projeto Histórias Ocultas).

REGISTROS VÃO RENDER TRILOGIA
“Histórias ocultas de um cidadão invisível” é o primeiro do que será uma trilogia de documentários sobre os moradores de rua de Manaus, que vai enfocar o problema também dos pontos de vista da sociedade e do poder público.

Segundo filme da série, “Histórias ocultas de uma sociedade doente”, a ser lançado no dia 28 de maio, vai enfocar o modo como as pessoas veem e tratam os moradores de rua, combinando relatos de sem-teto e depoimentos de transeuntes. O terceiro filme, ainda sem nome, deve sair no dia 26 de julho, buscando o posicionamento do poder público frente à questão.

Para Saadya Jezini, o problema dos moradores de rua só pode ser enfrentado de forma conjunta. “Só vai acontecer se o morador de rua quiser sair de lá, se tiver apoio da família e do poder público, e sem ser marginalizado pela sociedade”, afirma ela. “Sem isso, é muito mais fácil voltar para as ruas”.

APOIO
O Projeto Histórias Ocultas é uma iniciativa realizada de forma independente por estudantes e profissionais das áreas de Comuni- cação e Arquitetura. Além de pequenas contribuições individuais, a iniciativa tem apoio da Linny Arte Papelaria, da Manauscult e da Wizard.


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