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Protestos em Hollywood reeditam reivindicações que movimento feminista fez no passado

A cerimônia de entrega do Oscar 2015, em fevereiro, foi marcada por discursos por mais igualdade entre os gêneros 08/03/2015 às 13:06
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Patricia Arquette pediu salários e direitos iguais ao receber prêmio no Oscar
Jony Clay Borges ---

Na politizada cerimônia do último Oscar, no final do mês passado, elas é que chamaram todas as atenções. Começou com Reese Witherspoon e sua campanha #AskHerMore, que incitou os jornalistas no red carpet a esquecer os vestidos e perguntar às artistas indicadas mais sobre seus trabalhos.

Logo depois, Patricia Arquette, melhor Atriz Coadjuvante da noite, concluiu seu discurso pedindo salários e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos. Para completar, o empolgado apoio que recebeu de Meryl Streep viralizou nas redes sociais.

Os protestos no Oscar colocaram num palanque mundial uma reivindicação que o movimento feminista trouxe à tona nos anos 1970: a luta por igualdade no trabalho. Motivos para reclamação não faltam: a desigualdade entre homens e mulheres é evidente na indústria cinematográfica (confira alguns números nesta página) e não se restringe a ela. A novidade é que a reivindicação agora saiu das ruas para alcançar o universo das celebridades e famosos de Hollywood.

A exemplo de Meryl, mulheres por todo o mundo curtiram o desabafo estrelado. Entre elas está Keila Serruya, que também atua atrás das câmeras, como produtora e realizadora audiovisual em Manaus. “Já estava na hora dessas mulheres que se constroem, vivem e morrem nessa indústria cruel expressarem alguma insatisfação. Acho ótimo quando o oprimido se rebela. Demorou um pouco, mas está valendo”, declara ela.

Para Selda Vale da Costa, antropóloga e doutora em Ciências Sociais, a mobilização em Hollywood é salutar para dar visibilidade à mulher na indústria do cinema. “O cinema tem ficado muito na mão dos homens. Mulheres que fazem filmes viram ícones, pois em geral elas não têm tanto acesso, seja por questão de formação ou outras”, aponta ela, lembrando a necessidade de um estudo mais amplo sobre o papel feminino no segmento: “A mulher está presente não só na direção, mas na fotografia, no still. Há várias profissionais que atuam no fazer de um filme”.

A diferença no tratamento entre artistas homens e mulheres no red carpet, que incomodou Reese, também deixa indignada Dila Kotinski, médica veterinária e personal stylist. “Dos homens, perguntam sobre seus projetos futuros. Delas, quem foi o estilista do vestido, a marca das joias”, assevera. “É como dar um atestado de estupidez às mulheres. E elas são tão profissionais quanto os homens”.

As diferenças salariais são outro motivo de indignação: “Pesquisas dizem que no Brasil e na América Latina os homens ganham 30% a mais que as mulheres. Estamos em 2015! Claro que muita coisa mudou, mas essa diferença não poderia mais existir”.

Ideais em focoProtestos no Oscar à parte, o feminismo parece estar ganhando atenção para além dos noticiários. Um exemplo vem dos quadrinhos, segmento vez ou outra acusado de misoginia: a versão feminina de Thor, anunciada pela Marvel no ano passado, apareceu há pouco nas revistas lutando contra um vilão machista. “As malditas feministas estão arruinando tudo”, diz o vilão. “Isso é por falar ‘feminista’ como se fosse um palavrão, idiota”, ela diz, depois de lhe dar um soco.

A visibilidade maior chama a atenção para o movimento, até hoje um tanto associado à queima de sutiãs, como ocorria décadas atrás. “No feminismo tivemos o 8 e o 80. O movimento nos anos 1970 foi importante, embora pecasse pelo exagero. As mulheres queriam ser parecidas com os homens, e não se tratava disso, mas de respeito à diferença e igualdade de direitos”, declara ela, que exalta a mobilização recente em Hollywood. “Mostra que há gente que pensa criticamente e que aproveitou a força da mídia para falar do assunto”.

Keila, por sua vez, espera que a discussão abra espaço para outras bandeiras do feminismo: “O debate deve estar voltado a liberdade sexual, autoridade sobre o próprio corpo, autonomia, oportunidades, exclusão de padrão de beleza, escolha de como quer ter seu bebê ou se não quer ter filhos e por aí vai. Tudo o que poeticamente a queima dos sutiãs representa, mas que ainda está distante da realidade”.

Trajetória acidentada

A queima de sutiãs que ficou marcada na trajetória do feminismo, embora importante, teve alguns efeitos colaterais negativos, segundo Selda Vale da Costa. “Ele permitiu que a mulher fosse exposta de todas as formas. O corpo feminino virou mercadoria, para venda de produtos de beleza. É a valorização de uma artificialidade”, comenta a antropóloga.

Ela avalia que o movimento perdeu força a partir dos anos 1990, ao lado de outras lutas sociais. “Ainda hoje está demorando a se levantarem essas questões novamente”, diz. Protestos nas ruas ainda existem – as russas do grupo Femen são um exemplo –, mas Selda aposta em novos rumos: “Pessoalmente acho que a rebeldia resulta mais em risos. Ainda se tem de encontrar caminhos mais efetivos para mostrar que se quer mudar as coisas”.

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