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‘Quase Aqui’: pintura e memória em exposição de Daniel Senise

Série de obras que revela temáticas de Senise faz parte da comemoração pelos dez anos do Oi Futuro, no Rio de Janeiro 29/08/2015 às 14:15
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Mostra foi aberta na última quinta (27) e fica em cartaz até 23 de outubro
JONY CLAY BORGES Manaus

Nas grandes telas preenchidas com registros incidentais de um trabalho artístico – anotações, riscos, ranhuras, cortes, manchas de líquidos –, o que chama a atenção é o espaço em branco bem no centro, apenas refletindo a iluminação da galeria num retângulo de luz.

Intitulada “Quase aqui”, a série de obras empresta seu nome e revela as temáticas da nova exposição de Daniel Senise, aberta na noite da última quinta-feira, dia 27, no Oi Futuro Flamengo.

A mostra do artista carioca, que ocupa vários andares do centro cultural, reúne instalações e intervenções que fazem referência à memória e à tradição pictórica na arte.

É nas quatro obras da série-título da mostra, produzidas por Senise a partir de 2011, que esses temas aparecem de forma mais evidente. As telas, na verdade mesas de trabalho do ateliê do artista que foram restauradas com massa e tinta branca na área central, remetem à pintura e ao registro da memória.

“Na pintura, o tema em geral aparece no centro, o que está ao redor é o fundo. Aqui (o espaço em branco) é o tema da pintura. E o que é? Não tem nada ali. E, no entanto, o que seria o fundo tem toda uma presença, uma existência em registro”, declara o artista, que explica a origem do nome da série. “Pensei em alguém que perguntasse, ‘Onde está a pintura?’. E a resposta que eu daria seria: ‘Ela está quase aqui’”, diz.

Na série, assim como em muito da obra que vem produzindo desde os anos 1980, Senise explora os limites da linguagem pictórica na arte contemporânea. “As linguagens da arte hoje estão esgarçadas.

Você fala que alguém é um escultor, mas hoje raramente alguém de fato ‘esculpe’ algo, retirando material de uma peça inteira para criar uma obra. Estamos quebrando esses limites culturais”, sentencia o artista.

Caminhante

Essa exploração de Senise se estende ao espaço com “Caminhante”. Para essa intervenção, o artista retirou as paredes em gesso acartonado da galeria para expor as estruturas do espaço, inclusive as janelas do prédio do Oi Futuro Flamengo – que já abrigou a Estação Telefônica Beira-Mar, inaugurada em 1918.

Através delas, o espectador vê as luzes de um horizonte difuso, criado por um conjunto de refletores, numa referência à pintura “Caminhante sobre o mar de névoa”, do pintor romântico alemão do século 19, Caspar David Friedrich, na qual um observador de costas contempla uma paisagem de luz e brumas.

“Tenho feito trabalhos que representam estruturas. Atrás das paredes daqui havia toda essa estrutura montada, e pensei em colocar uma luz que fosse como uma invasão”, recorda Senise, comentando que a luz na sala, que é constante, “congela um momento”. A ideia de contemplação mais tarde trouxe a obra de Friedrich como referência. “A maioria dos temas dele são de alguém de costas vendo uma paisagem”, ele comenta.


Estruturas também aparecem na intervenção sem título de Senise sobre o vitral da recepção do Oi Futuro. As silhuetas na obra, produzidas com fita isolante sobre o vidro retro iluminado, também remetem a temas da arte pictórica, como luz e perspectiva, na exploração de Senise sobre a pintura na contemporaneidade.

Tecnologia

“Senise é um artista da pintura. Em dado momento, suas obras começam a migrar para o espaço, e também ele começa a receber certa influência da tecnologia, trabalhando com a fotografia e desenvolvendo projetos antes da obra finalizada”, destaca Alberto Saraiva, cocurador da mostra ao lado de Flávia Corpas. Nesse trajeto, o carioca não abandonou os temas da arte pictórica. “Nessa exposição, ele trata basicamente de uma instância da fotografia, que é a luz. É um trabalho que veio para o espaço físico, e ele trouxe isso para esse prédio, desenvolvendo projetos específicos de instalações e intervenções”.

A luz é também base do último trabalho de “Quase aqui”, para quem visita a mostra do térreo para cima.

Trata-se de uma instalação imersiva em que os espectadores, entrando em número limitado num local escuro, veem projetada no outro lado da sala uma pequena fotografia, registro de um espaço da juventude de Senise.

É preciso se aproximar para enxergar direito a imagem, mas o visitante que o faz acaba percebendo ser algo impossível.

O título, “Mundial”, lembra o nome da rádio a que Senise escutava na época. “Ela se refere a uma memória minha, mas também a uma coisa que é universal. Cada pessoa tem um registro de coisas suas”, ele diz.

“Quase aqui” fica em cartaz no Oi Futuro Flamengo (rua 2 de Dezembro, 63) até 23 de outubro, com visitação gratuita de terça a domingo.

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