Domingo, 22 de Setembro de 2019
cinema

Quem tem medo das caça-fantasmas? Confira a entrevista com o elenco do longa

Atrizes e diretor falam sobre a polêmica de uma parte do público que, embora não tenha visto o filme, já disse que não deveria ter sido feito e que o elenco feminino não passa de concessão à correção política



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Na teoria, um novo filme dos "Caça-Fantasmas" seria sucesso garantido. Uma geração inteira depois que Bill Murray, Dan Aykroyd, Harold Ramis e Ernie Hudson defenderam Nova York de terrores paranormais e um gigantesco homem de marshmallow na superprodução cômica de Ivan Reitman, de 1984, (com uma sequência em 1989), e após anos de tentativas frustradas de retomadas e recomeços, parecia que a era hora certa para um novo grupo lidar com as mochilas de prótons e o Ecto-1 – e quem melhor para enfrentar esse desafio que Kristen Wiig, de "Missão Madrinha de Casamento" e sua colega, Melissa McCarthy, indicada ao Oscar, ao lado de Leslie Jones e Kate McKinnon de "Saturday Night Live"? E, além delas, por que não o diretor Paul Feig, que trabalhou com Melissa (em "Missão Madrinha de Casamento", "As Bem Armadas" e "A Espiã que Sabia de Menos") e luta por uma maior representação feminina em Hollywood?

Só que nem todo mundo está esperando, empolgado, a nova versão que a Sony Pictures lançará em quinze de julho: praticamente a partir do momento em que os nomes das protagonistas foram anunciados, em janeiro de 2015, foram objeto de críticas intensas de uma parte do público que, embora não tenha visto o filme, já disse que não deveria ter sido feito e que o elenco feminino não passa de concessão à correção política.

Embora algumas estrelas do filme tenham revidado os ataques dos detratores machistas nas redes sociais e as acusações do tipo "Você arruinou a minha infância!", outras evitaram se manifestar. Entretanto, este mês, Melissa McCarthy, Kristen, Wiig, Leslie Jones, Kate McKinnon e Paul Feig se reuniram no Hollywood Roosevelt Hotel para falar da produção e da briga feia e oportuna, embora inesperada, que começaram. Como grupo, as atrizes e o diretor às vezes pareciam mais um quinteto atrapalhado e risonho, comentando, completando e rebatendo as piadas uns dos outros – mas também se revelaram defensores apaixonados de seu trabalho e da equipe, conscientes do que o debate sobre "os Caça-Fantasmas" realmente diz em relação ao sentimento das pessoas sobre a questão de gênero, na tela e fora dela.

Aqui estão alguns trechos editados dessa conversa.

P: Para vocês, enquanto membros do elenco, o "Caça-Fantasmas" original foi importante?

Melissa McCarthy: Foi, sim. Eu era criança e adorava todos os personagens, o jeito como eles se uniram, essa coisa meio estranha, engraçada, heróica. Adoro anti-heróis, gente que não faz nada muito significativo, mas vai lá brigar e se dá bem.

Leslie Jones: Eu achava o Bill Murray muito engraçado porque não se assustava com nada. Mesmo quando alguma coisa acontecia, ele fazia piada. Eu olhava aquilo e pensava: "Ah, é assim que eu quero ser".

Kate McKinnon: Eu nasci no ano que ele foi lançado. Não lembro muito bem a data. (risos)

P: Paul, como surgiu a ideia de fazer um novo "Caça-Fantasmas"?

Paul Feig: (O produtor Ivan Reitman) tinha o roteiro de uma sequência e ficou todo empolgado, perguntou se eu queria dirigir. A ideia era que o time original passaria os macetes da tecnologia para um novo grupo. Aí a [ex-vice-presidente da Sony] Amy Pascal me ligou, convidando para almoçar, e me perguntou por que nenhum diretor de comédia estava a fim de topar o projeto. Eu disse que era porque o filme era meio sagrado e dava medo mexer com os atores, mas ela insistiu: "Pois aí está uma excelente franquia esperando para ser explorada." Aquilo ficou na minha cabeça. Gente engraçada correndo perigo, combatendo a paranormalidade com tecnologia, é uma ideia sensacional; aí comecei a pensar como seria a minha abordagem. "Ah, todas as mulheres engraçadas com quem trabalho e com quem quero muito trabalhar me deixaram ainda mais animado. Deveriam ser as filhas deles? [Não, porque] elas estão recebendo uma herança. Ah, se eu pudesse refilmar!".

P: Em algum momento vocês perceberam que uma parte do público talvez não fosse gostar muito do resultado por causa da premissa do filme e o fato de o elenco todo ser feminino?

Melissa McCarthy: Você quer dizer, gente doida?

Leslie Jones: Você quer dizer as pessoas que não sabem que é filme?

Kristen Wiig: Durante as filmagens não me dei conta, não. Talvez só alguns detalhes aqui e ali.

Paul Feig: Bom, você e a Kate ficaram numa boa porque estão fora das redes sociais. A Leslie e eu penamos. Somos os brigões na lama digital.

Melissa McCarthy: Durante as filmagens o Paul trouxe várias fotos de meninas fantasiadas, com direito a macacão e mochila de prótons e tal. Eu achei o máximo e percebi que parte do público estava mais que preparada.

Leslie Jones: Só acho que o filme não é para essas pessoas que ficam reclamando que o filme arruinou a infância delas.

Kristen Wiig: É gente que precisa de terapia.

Melissa McCarthy: A verdade é que a infância desse pessoal já estava arruinada. E se é um filme que vai estragar tudo, sinal que a coisa já era bem frágil, para começar. É legal recordar; só tem uma porção minúscula de reclamões. Gente normal e saudável não sai dizendo uma coisa dessas. Claro que tem um maluco em cada esquina de cada cidade que faz isso, mas e daí? Os outros 300 mil habitantes estão de boa.

P: Por que tem gente que encara essas superproduções de fantasia, como o novo "Guerra nas Estrelas" ou o seu filme, como campo de batalha para ideias sociais?

Paul Feig: Acho que é a velha guarda agonizando. Faz uma minoria irrisória gritar mais alto porque está perdendo o controle e sabe que vai cair no abismo. Eu entendo, se alguém for fazer um remake de "O Poderoso Chefão" (1972), até eu ia ficar meio, "Epa, peraí", mas quando vem criticando, querendo saber se é só para ganhar dinheiro... Tudo que foi e é feito em Hollywood, desde o início dos tempos, foi e é pelo lucro. Por isso que o "Caça-Fantasmas" original foi feito. Não foi inspiração altruísta. Os estúdios fazem filme para ganhar dinheiro e os diretores tentam fazer algo que divirta o público ao mesmo tempo em que faturam para o estúdio.

P: Tem gente que não gosta da ideia de um filme com um elenco só feminino?

Kate McKinnon: É um conceito relativamente novo. Acho que começou, devagarzinho, com "Missão Madrinha de Casamento" e veio crescendo. Eu lembro que quando "Uma Mãe para o meu Bebê" (2008) saiu, eu pensei: "Ninguém vai ver um filme desses! Por que fizeram?" Eu mesma tive uma reação meio negativa. É aquele machismo incutido que diz, "Não vai dar certo porque nunca se viu coisa parecida antes." E agora estamos vendo que estão saindo cada vez mais filmes no mesmo estilo; vai acabar virando lugar comum, mesmo que ainda não seja.

Leslie Jones: É uma coisa que me surpreende porque a mulherada vem fazendo muita coisa boa há anos. É a mesma coisa quando você vai a um clube de comédia stand-up: [imita a voz do apresentador] "Vocês estão preparados para receber uma mulher?" Estão preparados para um unicórnio? Por que uma mulher é tão surpreendente? Temos dois sexos, o masculino e o feminino, ou seja, se não for um homem no filme, quem mais pode ser?

Melissa McCarthy: É um fenômeno de substituição meio torto, um medo de que se você colocar duas mulheres, dois homens têm que sair. Não sei por que certas pessoas são tão viscerais a respeito disso. Nunca encarei as coisas desse jeito. Quando vejo quatro caras, não penso, "Olha lá, quatro oportunidades de emprego que não vou conseguir". Bom para eles. Tem espaço para todo mundo.

P: Vocês sentem que fazem parte das vidas umas das outras depois de fazer esse filme?

Kristen Wiig: Não dá para participar de uma experiência dessas e não fazer parte da vida uma da outra para sempre.

Leslie Jones: A impressão que eu tenho é a de que travamos uma batalha juntas. Elas são como irmãs para mim. Todo trabalho que fizermos daqui para diante vamos ouvir o Paul: "Meninas! Meninas. Meninas. Vamos devagar. Ei, Melissa, desce daí".

Melissa McCarthy: "Melissa, põe a Kate no chão!". Eu levo a Kate no colo, aqui no quadril, parece um bebê coala. É de um desrespeito adorável.

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