Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
Vida

'Resgatado pela arte': Messias 'Track' transforma escombros em telas improváveis de grafite

A partir de intervenções feitas em ambientes pouco atrativos ao olhar humano, ele dá vida e voz aos lugares que passam longe de ser cartões-postais da cidade



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Nestas telas improváveis, o personagem Bocão Track surge como um redentor do silêncio que paira sobre esses lugares
13/01/2016 às 20:15

Aos 28 anos, o artista, tatuador e estudante de pedagogia Messias “Track” já passou por todo tipo de problema comum a um garoto da periferia de Manaus. Criado no bairro da Compensa, viu de perto o crime, o vício, a violência.

“Eu me sinto resgatado pela arte”, diz ele, que por meio do grafite tem dado vazão não apenas à sua força criativa, mas a uma necessidade tão comum aos artistas da periferia: dar vida e voz aos lugares que passam longe de ser cartões-postais da cidade, mas refletem uma realidade na qual estamos todos inseridos.

Bocão Track

A partir de intervenções artísticas feitas em ambientes pouco atrativos ao olhar humano, e às vezes nem mesmo ao trabalho dos grafiteiros – como construções abandonadas repletas de buracos nas paredes -, ele desenvolveu um personagem que carrega consigo os genes da “quebrada”.

Nestas telas improváveis, o Bocão Track surge como um redentor do silêncio que paira sobre esses lugares: um grito de protesto contra o abandono e marginalização espacial a que as zonas periféricas da cidade estão condenadas.

“É como se ele (Bocão) estivesse gritando. É um grito de liberdade. De liberdade através da arte”, define o artista, cujos trabalhos podem ser vistos em geral no bairro da Compensa, Zona Oeste de Manaus, como o Chaves, desenhado No Beco São Pedro, feito um dia após a morte do ator mexicano Roberto Bolaños, autor e ator que viveu por décadas o carismático personagem. Ou mesmo o assimétrico Bocão do muro da escola Waldemiro Perez Lustosa, na rua T4, cuja personalidade do traço evidencia  uma vez mais o apuro técnico do artista.

Perto dali, numa aberta área ao lado da entrada da Ponte sobre o Rio Negro, outros “Bocões” se juntam à paisagem que mistura ruínas de construção, pichações e belos grafites , com o novo cartão-postal da cidade ao fundo.

Ali, onde o olhar do poder público é cego e os jovens encontram a liberdade que lhes foi tomada ou nem mesmo entregue, a arte de rua também achou um lugar pra chamar de seu. E um artista da periferia, como Messias se apresenta, tem uma galeria particular a céu aberto.

'O grafite salvou minha vida'

Iniciado no piche no início dos anos 2000, Messias migrou alguns anos depois para o bomb, versão do grafite caracterizada pelas criativas fontes tipográficas, legíveis apenas para quem é “letrado” nesta espéciae de abecedário do grafite. Logo, não tardou para conhecer o grafite convencional.

Movido pela ânsia de fazer olhar os lugares, emprestando-lhes um toque provocativo de arte, ele passou a fazer intervenções em escombros, muros e construções abandonadas.

No entanto, ninguém muda um ambiente ser também ele próprio ser transformado. Hoje pai de um menino de quatro anos, nem sempre a vida de Messias foi tão colorida quanto suas obras.

“Antes de eu conhecer o grafite eu andava em galera. O grafite foi um grande impulso pra eu sair da vida que eu levava de estar brigando, puxando terçado. Não só o grafite, mas a cultura hip-hop, o rap em si, pode resgatar muitas pessoas. Eu não tinha esse pensamento de querer ingressar numa faculdade e hoje eu estou indo para o terceiro período da faculdade de licenciatura em pedagogia e tudo isso pelo fato de eu ter conhecido o grafite”, conta ele, destacando a influência da cultura e conhecimento adquirido na arte urbana.

Conhecimento que ele leva de volta para a sua comunidade através de eventos como Colorindo minha Quebrada e o Arte no Beco, que prepara sua terceira edição este ano.






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