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Reuniões escolares: um fardo, obrigação ou adequação?

Projeto de lei em discussão no Senado Federal quer obrigar pais a comparecerem em pelo menos quatro reuniões escolares por ano. Mães e pedagogas debatem a medida 28/08/2015 às 14:45
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Michelle Bianchi acredita que a escola dá suporte para a família na educação dos filhos
Laynna Feitoza Manaus, AM

Do lado A, há pais que vão às reuniões escolares da prole. Do B, há pais que não comparecem presencialmente à escola dos filhos, mas que se utilizam de outras formas para dar atenção à educação dos mesmos. Do lado C, pais que a negligenciam totalmente. E de uma direção oposta, um Projeto de Lei em discussão no Senado Federal está dando o que falar entre os pais brasileiros.

De autoria do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), o Projeto de Lei (PLS) 189/2012 prevê que os pais compareçam obrigatoriamente em pelo menos quatro reuniões escolares por ano ou em diálogos com os professores dos filhos de dois em dois meses. Segundo o projeto, os pais que não cumprirem as medidas ficarão impedidos de prestar concurso público; não poderão receber remuneração de emprego público; não poderão fazer empréstimos em bancos estatais e não poderão tirar passaportes.

Desde que a população soube do Projeto de Lei – que ainda está sendo discutido – muitas mães se posicionaram em relação ao apoio ou não à medida. A funcionária pública Marjorye Alecrim, mãe de Malu, de apenas 1 ano e 8 meses, diz ser contra. “Acho que a intenção é boa, mas forçar pais a assinar papéis de presença em reuniões escolares não os tornará mais amáveis e presentes dentro de casa. Acho que medidas como aumentar a licença-paternidade para no mínimo 3 meses e aumentar também a licença-maternidade serão muito mais efetivas e terão muito mais capacidade de aproximar pais e filhos na essência da convivência familiar do que esta medida do Projeto de Lei”, discorre.

A chocolatier Gemma Galganny, por sua vez, é outra mãe que não vê necessidade de tanto radicalismo, visto que há muitas formas de se acompanhar a vida escolar dos filhos Felipe, 15, Fábio, 11, e Ana, 7. “A gente acompanha as notas pelo portal da escola, temos contatos com os professores. A escola manda e-mail para dizer o que está acontecendo. Se meu filho não fez a tarefa de casa, antes mesmo de ele chegar eu já estou sabendo o que aconteceu, por meio deste canal. A escola só chama os pais para reuniões presenciais quando algo de muito grave acontece. Eu tenho três filhos de turmas diferentes, imagina se eu fosse obrigada a ir nessas reuniões? Nós temos que trabalhar para pagar a escola, e não dispomos de tanto tempo”, afirma.

Os dois lados

Para a mãe e proprietária da Morada Bebê Escola-Creche, Michelle Bianchi, para que a educação de uma criança seja bem sucedida, a família precisa da escola tanto quanto a escola precisa da família. “No entanto, infelizmente, existem inúmeras situações aonde este mecanismo de ‘parceria’ entre família e escola na educação das crianças não funciona, pois de alguma forma e pelas mais diversas razões, muitos pais acabam terceirizando totalmente a responsabilidade de educar os filhos para a escola”, destaca.

Ainda sob o entendimento de Michelle, o Projeto de Lei visa implementar alguns mecanismos práticos de controle e de incentivo para que a sociedade consiga sensibilizar as famílias a acompanhar mais de perto o percurso educacional escolar dos filhos, naqueles casos em que isso não acontece naturalmente. Tudo para que o percurso seja melhor sucedido e consequentemente a educação da criança em geral seja mais completa. “Acho que este Projeto de Lei otimiza este cenário, estabelecendo parâmetros claros para medir e fiscalizar o cumprimento das obrigações da família quanto ao acompanhamento escolar dos filhos e prevendo penalidades razoáveis e de simples aplicação”, declara.

Conceição Lopes, mãe e pedagoga

“É realidade hoje, em qualquer rede de ensino: crianças/alunos abandonadas de suas necessidades. Se fosse só a questão do acompanhamento da reunião no final do bimestre, estava fácil de resolver - a lei seria eficaz. Mas a realidade é mais dura e mais complexa. Temos alunos abandonados em todos os aspectos de suas necessidades e é fato que o desempenho do aluno que tem acompanhamento escolar da família é muito maior do que os que não tem. Além disso, isso tem consequências em outros aspectos na vida da criança e é preciso enxergar a questão de uma maneira mais global e a longo prazo. Acredito nesta lei como uma tentativa inicial de resolver uma questão que é muito mais complexa, que passa pela discussão da responsabilização dos pais na questão do abandono familiar-afetivo. Vejo esta lei mais como um alerta para os pais, pois não acredito na aplicabilidade dela na prática, porque as punições não são efetivas. O que se precisa entender é que acompanhar a vida escolar do filho não é opção, é obrigação e é um direito da criança”.

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