Domingo, 13 de Outubro de 2019
Vida

Rico Dalasam, primeiro rapper negro a se assumir homossexual no Brasil fala do sucesso

Num segmento musical que ainda enfrenta barreiras mantidas à custa do tabu e preconceito, ser um rapper fora do armário é uma forma de resistência



1.gif Rico é formado em produção audiovisual e coleciona trabalhos na moda
08/02/2015 às 15:32

Nascido em Taboão da Serra, na periferia da região metropolitana de São Paulo, o jovem Jefferson Ricardo Silva, de 25 anos, vem chamando a atenção para o trabalho que faz como Rico Dalasam, seu nome artístico nas rodas de MCs. Com o primeiro single em mãos, “Aceite-C”, ele se tornou o primeiro rapper negro e gay assumido no Brasil, que veio “cheio de querer” e “ousou entrar no jogo” mandando rimas sobre aceitação e diversidade.

Num segmento musical que ainda enfrenta barreiras mantidas à custa do tabu e preconceito (de sexo e gênero, por exemplo), ser um rapper fora do armário é não só uma ousadia, mas uma forma de resistência dentro de um movimento que também nasceu da resistência. “O fato de eu contar a minha realidade, um garoto negro, homo e de periferia, pode servir para alimentar algum tipo de militância, mas não tenho pique para ser militante de muita coisa”, pondera Dalasam.

“Me componho de várias minorias. A minha ideia é fazer música e expressar as verdades: quando falo de amor, é amor entre dois caras. O tamanho que o preconceito tem ainda faz com que isso se torne pauta, mas é algo natural”, completa.

Sobre a resistência que o trabalho dele vem enfrentando dentro e fora do rap, que só em anos recentes passou a dividir a cena mainstream com rappers mulheres como Flora Matos e Karol Conká, Dalasam procura não ser incisivo.

“Nesse instante estamos construindo uma curva nova nessa trajetória. Vamos sair para uma sequência de shows e construir uma interação entre a cena alternativa e quem frequenta shows de rap. A partir disso, vamos sentir na pele como se dão essas questões”, diz ele, que tem apresentações marcadas em Minas Gerais, Goiás, Bahia e Londres.

INÍCIO

Rico Dalasam e o rap andam juntos desde cedo. “É o gênero musical com o qual primeiro me identifiquei na vida, ao lado do pagode. Mas o rap sempre foi a pessoa com quem eu gostava de conversar”, conta o artista, também fã de Alcione, Daniela Mercury e Racionais. Aos 13 anos de idade o paulista se viu com facilidade para escrever alguns versos e, por volta dos 16, resolveu se lançar nas batalhas. “Foi quando vi que tinha habilidade acima da média para fazer uns raps e comecei a me ver como MC mesmo”.

Também foi por essa época, por causa da música, que a aceitação da sexualidade dele veio à tona. “Eu já era assumido bem antes, mas para um número menor de pessoas. Era uma coisa velada, todo mundo sabia ou fazia algum comentário, mas eu não fazia nada”.

Segundo Dalasam, o rap o fez querer colocar um pouco da sua história dentro das músicas que fazia. “Foi uma atitude de ousadia minha. Fui experimentando o ritmo e vivendo os desdobramentos disso, que por enquanto têm sido positivos”.

RECEPÇÃO

Dentro da cena, o rapper diz ter sempre trocado ideias “de igual para igual com os caras”. “Todo mundo sempre teve posicionamento de respeito, apesar de ter gente que fala ‘meu, que porra é essa?’”, relata.

“Estamos tentando construir um chão em cima disso, por isso esperamos tanto o que há de melhor quanto algum tipo de resistência por uma pessoa ou grupo. Esse circuito [de shows] vai trazer para a gente um balanço sobre como está isso hoje, até porque a cena do rap é um retrato pequeno do que é a cultura brasileira”.

Enquanto isso, nos comentários do clipe de “Aceite-C”, no Youtube, elogios como “Já virei fã desse cara, música foda, tem que hitar” e “Muito boa voz, postura e style diferenciados” se misturam a conclusões do tipo “Lamentável! Você não representa o rap” e “Clip do bom! Respeito, apesar de não concordar com a escolha (sexual)”. A resposta de Dalasam vem ao fim do mesmo vídeo, em tom recitativo, como se o rapper tivesse que desenhar: “Eu outro não dá pra ser, sem crise, sem chance, que a vida é uma só”.

Movimento ‘queer rap’

O rapper Snoop Dogg é um exemplo de que tabus ainda rondam esse estilo musical. O produtor tem um histórico de comportamentos homofóbicos nas redes sociais; em 2013, durante uma entrevista em que citou Frank Ocean, que havia acabado de se assumir, Dogg declarou: “Ele é um cantor. É aceitável (ser gay) no mundo dos cantores, mas no mundo do rap eu não tenho certeza se isso vai ser aceito porque o rap é muito másculo”.

Lá fora, porém, o cenário é bem mais diverso que no Brasil. Artistas assumidos como Mykki Blanco (foto), Theesatisfaction, Syd tha Kyd, Rocco Katastrophe, Nicky Da B., Le1f, Kazwell, Cakes Da Killa e House of Ladosha são representantes de um movimento que ficou conhecido como “queer rap”.

Por aqui, antes de Rico Dalasam despontar com sua música, a rapper Mademoiselle Lulu Mon’amour (nome artístico do músico goiano Luiz Cesar Pereira, de 33 anos) se lançou como o primeiro MC gay do País, ainda em 2012.


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