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Samba: linguagem dos morros quebrou as fronteiras de classe e redefiniu a cultura brasileiro

A reportagem conversou com sambistas, estudiosos e especialistas em linguagem para falar sobre o falar o 'dialeto do samba', sua origem, características e importância cultural 05/02/2016 às 13:47
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Samba bebeu na fonte da criatividade dos malandros cariocas
Felipe Wanderley Manuas (AM)

Uma das expressões fundamentais da cultura brasileira, o samba, como bem sabemos, não nasceu em berço de ouro. Porém, a força criativa de sua linguagem quebrou as fronteiras de classe e acabou por redefinir a nação, sua cultura e identidade. Nascido nos morros cariocas e recriado em todo o País, esse estilo musical tão brasileiro também tem sua língua própria, repleta de palavras, expressões e neologismos que carregam as marcas da cultura popular onde teve gênese, mas acabam por devolver a ela um repertório cultural ainda mais rico e diversificado.

O “vocabulário do samba”, isto é, aquelas palavras, gírias e expressões originárias da cultura sambista ou divulgadas por meio dela, também já foi cantado em verso. No samba “A Linguagem do Morro”, por exemplo, o compositor Padeirinho da Mangueira, o “filólogo do samba”, abordava a tão curiosa quanto criativa cultura linguística dos morros cariocas. “Baile lá no morro é fandango/nome de carro é carango/ discussão é bafafá”, diziam os versos da canção, mais tarde regravada com sucesso na voz grave de João Nogueira, outro “bamba” de marca maior.A própria palavra “bamba”, aliás, é um exemplo de termo extrapolou o universo das rodas de samba e hoje é amplamente conhecido.

“Bamba é um expert em assunto de samba”, define o sambista Júnior Rodrigues. Citando o mestre Oswaldo Sargentelli como grande divulgador destes termos, o músico lembra algumas palavras próprias desse universo, como “prontidão”, termo cunhado por Noel Rosa para a falta de dinheiro; “boi com abóbora”, ou samba de qualidade duvidosa; e ainda as onomatopeias “ziriguidum” e “balacobaco”, que definem tanto o som do batuque quanto o lugar onde ele acontece.

Compositor amazonense de maior sucesso nacional, o parintinense Chico da Silva conta que nunca utilizou muitas gírias do samba em suas canções por ser um “sambista romântico”, como se define, e usar uma linguagem mais universal em suas letras. Porém, acredita que, bem empregadas, essas palavras enriquecem a composição e divulgam o falar irreverente do povo. “O Moreira da Silva, o Bezerra (da Silva) e o Dicró são os maiores expoentes dessa vertente”, diz o sambista, que este ano prepara sua volta ao cenário musical após período cuidando da saúde.

Para o fotógrafo, compositor e pesquisador musical José Roberto Pinheiro, da mesma forma que o falar da malandragem carioca contribuiu para o enriquecimento do vocabulário sambista, também agregou à própria cultura popular um pouco de criatividade e irreverência. “A cultura popular e a malandragem se misturam e se confundem com o samba”, diz ele, citando termos como “caô” (mentira) e na “miúda” (quietinho), advindos dos morros do Rio de Janeiro.

Mas também há expressões mais restritos ao universo musical desses bambas. “‘Fogo’, por exemplo, é quando há um bloqueio, um branco (do compositor) na hora de fechar uma música”, explica ele, que é um dos compositores das marchinhas da Banda da Bica. Para Chico da Silva, que morou 11 anos em São Paulo, os sambistas paulistas são os mestres da linguagem do samba. “Tinha que ter dicionário pra isso”, brinca ele, por fim.

Blog - Gean Damulakis, Doutor em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro 

“O samba é uma expressão cultural dos morros cariocas, então acabou incorporando muito dessa cultura popular e a divulgando através da criação artística , como uma espécie de caixa de ressonância para algumas expressões que tinham um limite de alcance muito menor. Isso acabou contribuindo para formação da própria identidade nacional e a linguagem entra como grande elemento dessa identidade. O samba(...) é um palanque para determinados grupo sociais com falares que antes seriam descriminados” 

Glossário

Bamba: Expert em assunto de samba; sambista

Boi com abóbora: Samba de qualidade duvidosa. Ex.: “E o samba de sobra/era um tremendo boi com abóbora/rimava açúcar com sal” (Malandro J.B, de Nei Lopes)

Prontidão: Falta de dinheiro. Ex.: “Nessa prontidão sem fim/vou fingindo que sou rico/pra ninguém zombar de mim (Filosofia, de Noel Rosa)

Samba de condomínio: Samba feito por um conjunro de compositores 




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