Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020
Entrevista

Cantora e atriz amazonense Taís Víera faz balanço da trajetória em O Fantasma da Ópera

Versão brasileira do musical Broadway fecha as cortinas após quase dois anos de apresentações na capital paulista



ta_s8_71A27DEA-7481-45F9-9FE4-2981C9290680.jpg Entre os destaques do elenco, Taís Víera, no papel da Madame Giry, que falou sobre bastidores da montagem e todo o legado e aprendizado que uma produção como essa deixa (Fotos: Marcos Mesquita)
19/12/2019 às 18:50

Após quase dois anos em cartaz, mais de 500 apresentações e 750 mil espectadores, a versão brasileira do musical da Broadway “O Fantasma da Ópera” fechou suas cortinas no último dia15 de dezembro, no Teatro Renault, na capital paulista. Ao longo desse período, a produção feita no Brasil impactou milhares de pessoas, que se emocionaram com o enredo clássico, mistura de terror, suspense e romance, escrito entre 1909 e 1910 pelo francês Gaston Leroux (1868-1927), com as famosas canções de Andrew Lloyd Webber e letras de Charles Hart, entoadas em português.

Entre os destaques do elenco, a soprano amazonense Taís Víera, no papel da Madame Giry, supervisora do balé da Ópera, uma espécie de “protetora” do Fantasma. Em clima de despedida desse grande trabalho, Taís conversou com nossa equipe e falou sobre bastidores da montagem e todo o legado e aprendizado que uma produção como essa deixa. Confira os trechos da entrevista:



O que esses espetáculo trouxe para a tua trajetória profissional?

Foi um trabalho muito grande, que acabou ligado ao meu doutorado das Heroínas de Carlos Gomes, não só de encontrar a melhor voz, o “self tone”, mas de você ter resistência de manter a sua melhor voz, sua melhor imagem, melhor atuação, durante todo esse tempo de ensaio, sete apresentações, cinco dias por semana, às vezes mais, pois teve semanas que fizemos nove apresentações... Resistência não era uma coisa que eu tinha quando comecei a fazer o Fantasma. Aliás, quem tem resistência para fazer sete shows por semana durante 19 meses? Tem que ter resistência física para cantar e dançar e isso foi uma coisa que consegui. E tem muitas outras coisas, muitos aprendizados em várias camadas. Fazer o mesmo trabalho repetitivamente durante 500 apresentações sem poder criar muito, para uma pessoa que é criativa como eu foi o maior desafio. Eu estou acostumada a fazer 10 personagens por mês, tá bom 10 é exagero, mas não 500 vezes o mesmo personagem.

E a Madame Giry, o que você aprendeu com ela?

Resiliência. Observando a Madame Giry no espelho é uma roupa preta, fechada, dos pés à cabeça, uma bota preta, cabelo bem preso, ela está em um invólucro negro em que não pode transparecer as emoções, os desejos, nem expandir a própria criatividade... Esse foi um contrato que aceitei e cumpri com muita alegria e felicidade, fui contratada, mas nem todos os dias foram alegria e felicidade. Tem dias que você acorda e fala: ‘Não quero mais fazer esse papel. Estou cansada de fazer essa velha triste. Essa mulher brava’, então esse é um conflito interessante e importante para as pessoas saberem que pode acontecer. Eu valorizo muito o meu trabalho, estou aqui porque eles valorizaram meu trabalho, mas o dinheiro não é o mais importante. Então teve esse conflito. E as pessoas não têm ideia do difícil que é fazer um espetáculo tradicional desses, tem um saco de areia na minha saia para ficar daquele jeito. Só a vestimenta pesa 15 quilos. Quem tá assistindo não tem a menor ideia do que é aquilo, é um musical com muita pirotecnia, trilhos nos cenários, tem riscos, exige muito.

 

Deve ter sido um grande desafio...

Sim, além disso, tem uma coisa muito forte que descobri mais recentemente. Soube que minha vó, mãe do meu pai, paraense, Lídia Alves Vieira, foi viúva de um senhor idoso no primeiro casamento, antes de casar com meu avô, Manoel Alves Vieira, e nascerem meu pai e todos os meus tios. Nesses últimos meses se revelaram coisas muito importantes e eu falei com minha tia do Pará e ela me contou essa história da viuvez da minha avó. Ela ficou casada um mês com esse senhor, ele passou mal durante todo esse tempo, pois já era idoso e ele morreu. Minha vó não ficou com nada na época e foi injeitada pela família. O pai dela teve que pegar ela de volta e a obrigou a se vestir de preto dos pés ao pescoço e a cozinhar para os irmãos na fazenda. Durante dois meses ela ficou subjugada e meio escravizada. Até que uma irmã dela falou com o caixeiro viajante Manoel, meu avô, que era apaixonado por ela, e após meses, o pai dela autorizou que ela se casasse com ele e graças a Deus meu pai nasceu e estou aqui. Então, têm vindo muitas reflexões sobre isso, do quanto nós mulheres ficamos à mercê das vontades do outro, dos sonhos do outro, de uma obra, de homens, do chefe, ignorando o próprio desejo. E fazer essa personagem durante 511 apresentações, com essa roupa que eu soube que minha vó usou uma igual foi uma catarse. Uma limpeza, uma libertação (relatou emocionada). Me sinto hoje enterrando essa história e essa crença na nossa família, com muita gratidão por esse ciclo .

Depois desse papel tão marcante, quais os próximos projetos?

Fazer O Fantasma me deu muita segurança. Hoje não preciso de validação de ninguém para me dar segurança no que eu faço. Só aceito trabalhos se forem coisas que eu acredite, que goste e sei que vou contribuir bastante com minha energia, minha alma e com todos os talentos que Deus me deu que tenho orgulho, pois são presentes divinos. Vou continuar tratando desses talentos muito bem, me desenvolvendo cada vez mais e procurando com minha autoconfiança ajudar aos jovens estudantes a encontrarem isso. Eu estou aqui para dizer isso, que a arte é o caminho certo, que as pessoas fazerem com amor frutifica muito mais, com verdade, sem pisar nos outros, com companheirismo e acreditarem que a arte realmente salva, a arte cura, e tratar todos esses talentos como uma forma de medicina. Tudo isso O Fantasma da Ópera me mostrou.

Em números:  O Fantasma da Ópera é o musical mais longevo, com 31 anos em cartaz na Broadway e mais de 12 mil apresentações. A produção já passou por 160 cidades, 35 países e já foi traduzido para 15 idiomas. No Brasil, mais de 750 mil pessoas se emocionaram com o ‘musical dos musicais’ que ficou em cartaz no País por uma ano e nove meses, no Teatro Renault, em São Paulo.

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Jornalista de A CRÍTICA

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