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TDAH: Mitos e desinformação ainda cercam transtorno que afeta crianças e adolescentes

Preconceito e distorções dificultam acesso de pais a informações e diagnóstico para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) 15/11/2015 às 11:27
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Déficit de atenção com hiperatividade atinge de 3% a 5% das crianças em idade escolar; distúrbio pode comprometer rendimento escolar da criança
Jony Clay Borges* Florianópolis (SC)

O conhecimento sobre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) evoluiu consideravelmente desde que os sintomas do problema foram relatados pela primeira vez, no comecinho do século 20.

Mais de um século depois, porém, pais e crianças ainda percorrem um caminho difícil na busca por informações, diagnósticos e tratamentos para o problema. Isso porque o TDAH, que acomete de 3% a 5% das crianças em todo o mundo, ainda é cercado de mitos, desinformação, preconceito e polêmicas.

A situação foi apontada por alguns participantes do 32º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, realizado na última semana, em Florianópolis. Para Kátia Beatriz Corrêa e Silva, vice-coordenadora do Departamento de Infância e Adolescência da Associação Psiquiátrica do Rio de Janeiro, pais de crianças com TDAH vivem uma via-crúcis quando precisam lidar com o problema.

“A família passa muito tempo procurando ajuda, diagnóstico correto, tratamento correto. Embora haja profissionais com conhecimento, há também muitos que têm preconceito com esse problema”, assinala a psiquiatra.

“Hoje deparamos com muito desconhecimento, informações parciais ou distorcidas, mitos, preconceitos. Ainda há gente hoje que joga a culpa nos pais, porque ‘não educam’, ou nos professores, porque ‘não ensinam’”, relata.

Mito e realidade

Exemplo do desconhecimento acerca do TDAH, aponta Kátia, é a noção de que os sintomas do distúrbio são normais em algumas crianças, ainda que prejudiquem sua vida na escola ou em casa. “Os pais ouvem muito dizer, ‘Ah, seu filho é arteiro? Não tem porque se preocupar, é normal’”, comenta ela, que tem mais de 20 anos de estudo e trabalho com foco em TDAH e bipolaridade.

Mitos à parte, o TDAH é encarado de forma bem real por quem entende do assunto. Reconhecido oficialmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e por diversos países, o transtorno neurobiológico tem causas genéticas e se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Eles aparecem na infância e com frequência acompanham o indivíduo também na vida adulta.

Embora sem afetar a capacidade de aprendizado, a dificuldade em manter a atenção e a impulsividade pode afetar a vida escolar das crianças com TDAH. Elas costumam apresentar desempenho inferior à capacidade intelectual e problemas de comportamento.

As crianças são tidas como “avoadas”, “vivendo no mundo da lua” ou “estabanadas”. Os meninos tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos.

Já nos adultos, ocorrem problemas de desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho, bem como com a memória – são muito esquecidos, além de inquietos e impulsivos.

Tratamento e polêmica

Em boa parte dos casos, o tratamento do TDAH requer o uso de medicamentos, sendo o mais barato e conhecido deles o metilfenidato, cujos nomes comerciais incluem o mais conhecido Ritalina. A droga, usada desde os anos 1960, no entanto é alvo até hoje de polêmica, com acusações de que o distúrbio seria invenção da indústria farmacêutica e de que a “pílula da atenção” estaria sendo dada a crianças sadias para terem melhor rendimento escolar.

“Foi uma distorção criada por profissionais que confundiu também as famílias. Não é uma medicação que se usa só na escola, mas de forma regular”, esclarece Kátia.

Além dos medicamentos, em diversas combinações, o tratamento do TDAH envolve também terapias multidisciplinares, com profissionais como psicólogos, pedagogos e fonoaudiólogos, e ainda orientações aos pais, aos professores e aos próprios portadores.

O tratamento garante a crianças e adultos com TDAH uma vida normal. Para chegar a ele, no entanto, o conhecimento sobre o distúrbio deve chegar com clareza a pais e educadores, para encaminhamento necessário a médicos, neurologistas e psiquiatras na busca pelo diagnóstico correto.

Para Kátia, um passo importante é desfazer os equívocos e esclarecer que o TDAH existe, sim: “O TDAH é um transtorno mental real, com consequências sérias e como tal deve ser encarado”.

* O jornalista viajou a convite da Associação Brasileira de Psiquiatria

Saiba mais

Distúrbio
O TDAH é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e pode acom- panhar o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sinto- mas de desatenção, inquietude e impulsividade.

História
Os sintomas da TDAH foram relatados pela primeira vez pelo médico britânico Sir George Still (1868-1941). Em 1902, numa série de palestras, ele apontou “condições psíquicas anormais” em algumas crianças, que tinham grande dificuldade de manter a atenção e o autocontrole, ainda que dotadas de um intelecto normal.

Política deficiente

O Brasil ainda carece de política governamental para o tratamento do TDAH, de acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). Prova disso é que o metilfenidato, mais comum medicamento para tratamento do transtorno, só é obtido na rede pública de saúde via processos legais ou complexos processos administrativos. A entidade estima que a falta de tratamento para portadores de 5 a 19 anos no Brasil representem custo anual de R$ 1,841 bilhões ao País.

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