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Teatro Amazonas: símbolo do Estado sofreu transformações ao longo das décadas

Célebre casa de espetáculos de Manaus mudou até de nome e de endereço antes de sair do papel; conheça estas e outras mudanças pelas quais edifício passou e passa até hoje 03/04/2016 às 07:00 - Atualizado em 03/04/2016 às 13:58
Jony Clay Borges Manaus (AM)

Já imaginou se o Teatro Amazonas ficasse na altura da rua Henrique Martins, em vez da rua José Clemente? E se fosse cinza azulado, em vez do rosa imperial que ostenta hoje? Ou ainda, se ele não tivesse a sua famosa cúpula? O célebre teatro de Manaus passou por diversas mudanças ao longo de sua história, e todas contribuíram para fazer dele o que é hoje: o principal cartão postal da cidade e do Amazonas, com renome ao redor do mundo.

No ano em que se comemoram os 120 anos do Teatro Amazonas, o BEM VIVER vai publicar uma série de reportagens mensais, sempre no primeiro domingo de cada mês, em homenagem à maior casa de espetáculos de Manaus. Na primeira da série, o caderno relembra as principais mudanças pelas quais o teatro passou, desde mesmo antes de sair do papel até os dias atuais, mostrando como o grande símbolo do Estado poderia ser diferente do que é hoje.

Outro teatro
E ponha diferente nisso. Antes de se firmar o primeiro contrato para a construção de um grande teatro em Manaus, em 1883, o local já previsto para a sua localização era a praça Paissandu. A praça, que desapareceu, compreendia a área entre as atuais vias de Sete de Setembro, Joaquim Sarmento, Henrique Martins e Eduardo Ribeiro.

A área chegou a ser aterrada, mas logo no início de 1884, os contratantes alegaram que o terreno, vizinho do antigo igarapé do Espírito Santo, “não apresentava solidez”, sendo assim impróprio para a construção. A praça São Sebastião, situada num ponto mais alto, acabou sendo escolhido como novo local, e pouco tempo depois foi assentada ali a pedra fundamental do futuro edifício. A construção seguiria um projeto produzido pelo Gabinete de Engenharia de Lisboa, sob encomenda do governo provincial.

Mas não foi bem o que aconteceu. As obras não foram em frente, o contrato de construção foi repassado a outros contratantes e sofreu sucessivas alterações e rescisões no caminho. Os trabalhos ficaram paralisados até 1892, como registrou o historiador Mário Ypiranga Monteiro em sua obra “Teatro Amazonas”.

E poderia ter ficado por isso mesmo, não fosse a chegada de Eduardo Ribeiro ao Governo. Além da maior autonomia que tinha para tomar decisões e também empréstimos, garantida pela recém-proclamada República, ele fez do projeto um ideal para a cidade. “O Teatro era uma peça importante para ele. Sem dúvida teria um papel de destaque junto ao Palácio do Governo, que acabou não sendo construído”, assinala Otoni Mesquita, historiador e autor do livro “Manaus – História e Arquitetura” (1999).

Atribuído a Crispim do Amaral, projeto de 1893 previa decoração da fachada com liras e estátuas de Apolo e musas (Reprodução)
Atribuído a Crispim do Amaral, projeto de 1893 previa decoração da fachada com liras e estátuas de Apolo e musas (Reprodução)

RETOMADA
Ribeiro não perde tempo: liquida o contrato anterior e assume a obra, que começa a caminhar de forma acelerada, seguindo ainda o projeto do Gabinete de Lisboa. Em 1893, todavia, é divulgado um projeto para a fachada do prédio, atribuído a Crispim de Amaral – multiartista pernambucano, ele havia sido contratado para fazer parte da decoração interna do futuro teatro. A essa altura, outra mudança tinha ocorrido: o edifício, até então citado como “Theatro Provincial”, aparece no projeto como “Theatro Amazonas”.

A obra seguiu mais veloz, mas não a ponto de permitir a Ribeiro inaugurar o teatro: ele foi aberto oficialmente por Fileto Pires, seu sucessor, em 31 de dezembro de 1896. A construção, porém, estava incompleta: faltavam muito da decoração interna (inclusive todo o Salão Nobre) e do acabamento do prédio e do entorno.

E a fachada era diferente do projeto de Amaral: dois conjuntos laterais e um conjunto central, este representando Apolo e suas musas, ficaram de fora por conta do peso excessivo. Monteiro, em seu livro, conta que a peça central ficou por muito tempo abandonada, até ser doada a uma metalúrgica e derretida. E uma fonte, prevista ainda no projeto lusitano para ficar em frente à escadaria frontal, também ficou de fora.

Após a inauguração, enquanto recebia companhias e espetáculos líricos, o Teatro recebia também as obras que faltavam. Somente em 1901 o Salão Nobre é enfim aberto ao público. Enquanto o edifício evoluía, fazia evoluir também seu entorno. “À medida que o Teatro ia sendo melhorado, a população pedia melhorias”, comenta Otoni.

Assim, a Praça São Sebastião recebeu seu calçamento, e a simplória coluna em comemoração à Abertura dos Portos deu lugar ao grande monumento hoje no centro do logradouro.

Imponência do TA levou a melhorias na Praça São Sebastião, entre elas o calçamento com ondulados e a substituição da coluna em homenagem à Abertura dos Portos por um monumento (Reprodução)
Imponência do TA levou a melhorias na praça São Sebastião, entre elas o calçamento com ondulados e a substituição da coluna em homenagem à Abertura dos Portos por um monumento (Reprodução)

REGIONAL E CLÁSSICO
Anos mais tarde, em 1929, no marasmo da crise da borracha, o Teatro sofre uma grande reforma. As principais mudanças, que tinham à frente Olímpio de Menezes e Branco e Silva, podem ser vistas no hall, que ganha uma decoração de cunho regionalista, com relevos de plantas e portas em madeira, com vagos motivos Art Nouveau. Já na sala de espetáculos, todas as frisas centrais dos dois últimos pavimentos foram transformadas num único vão, onde havia uma espécie de arquibancada – o que Otoni lembra como “poleiro”.

“O povo que queria fazer algazarra ia lá para cima”, recorda ele, que conheceu o espaço no início dos anos 1970.

Nessa época veio uma grande restauração, que desfaria as mudanças anteriores para dar um ar ainda mais clássico ao Teatro. Além de eliminar a decoração espúria, a obra aplicou o piso em mármore e substituiu as colunatas de ferro do hall por colunas maiores e de base quadrada no hall. Na plateia, as frisas do antigo “poleiro” foram refeitas.

As obras, lembra Otoni, foram além, e incluíram a substituição da palhinha das cadeiras por almofadas, além da instalação de um sistema de refrigeração. “Foi a obra mais marcante, do ponto de vista de demarcar as questões estilísticas do Teatro Amazonas”, sentencia o historiador.

Motivos regionais passaram a dominar o hall do Teatro após reforma realizada no final dos anos 1920 (Reprodução)
Motivos regionais passaram a dominar o hall do Teatro após reforma realizada no final dos anos 1920 (Reprodução)

Reforma de 1929 se estendeu à sala de espetáculos, onde frisas centrais do 2º e 3º pavimentos deram lugar a arquibancada (Reprodução)
Reforma de 1929 se estendeu à sala de espetáculos, onde frisas centrais do 2º e 3º pavimentos deram lugar a arquibancada (Reprodução)

NOVAS DESCOBERTAS
As restaurações subsequentes – a maior delas realizada em 1990, antecedendo as comemorações pelo centenário do Teatro – investiram na manutenção do patrimônio. E esses trabalhos seguem até hoje, como prova a recente descoberta de um mosaico dourado sob os nomes na fachada do edifício e que havia sido encoberto por reformas anteriores.

Outras mudanças menores ocorreram desde lá. Mas, na visão de Otoni, a principal delas tem a ver com o próprio status do Teatro. “Nos anos 1970 e 1980, era comum que ele fosse chamado de ‘elefante branco’, pois ele assumia um pouco essa alegoria, não tinha uso constante. Isso se daria somente a partir do final da década de 1990, com o primeiro Festival de Ópera, e posteriormente os outros festivais, e as ações decorrentes, como formação de plateia”, comenta ele.

O Teatro Amazonas hoje é mantido pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura, e anualmente recebe festivais de ópera, teatro, música e dança, entre outros. Para Otoni, a casa de espetáculos de Manaus hoje tem mais vida do que talvez tenha tido em toda a sua trajetória – e isso é uma garantia de sua permanência no futuro. “Isso tudo é bastante significativo para a permanência do Teatro Amazonas”.

Estruturas de cúpula e telhado em projeto da construção hoje no acervo do TA e reproduzido pelo historiador Mário Ypiranga Monteiro em seu livro "Teatro Amazonas" (Reprodução)
Estruturas de cúpula e telhado em projeto da construção hoje no acervo do TA e reproduzido pelo historiador Mário Ypiranga Monteiro em seu livro "Teatro Amazonas" (Reprodução)

MITOS E POLÊMICA
Com suas 36 mil peças coloridas  de cerâmica e vidro trazidas da Europa e exibindo temas da bandeira do Brasil, a inusitada cúpula é um dos itens que mais chamam a atenção no Teatro Amazonas. E também é cercado de histórias: até hoje, muita gente acredita que o adorno foi acrescentado ao projeto posteriormente, copiado de outro similar que Eduardo Ribeiro teria visto numa feira internacional.

Essa mudança, no entanto, não passa de mito. “Não podemos dizer com precisão (se ela estava no projeto do Gabinete de Lisboa). Mas há plantas de estruturas de ferro da cúpula em 1894”, aponta Otoni Mesquita.

Por outro lado, uma questão é motivo de polêmica até hoje: a cor do Teatro. Mário Ypiranga Monteiro defendia ser sua cor original do edifício era o cinza azulado, e por isso o edifício foi pintado nessa cor nos anos 1980. Novamente, Otoni indica que as evidências são em contrário: “A prospecção feita na restauração de 1974, mostrava que havia resquícios de rosa”.

Certo ou não, a casa lírica hoje ostenta o rosa imperial, e a cor é um dos itens que contribuem para seu charme internacionalmente reconhecido.

Fachada da casa lírica ganhou pintura em cinza azulado nos anos 1980; cor original é objeto de polêmica até hoje (Reprodução)
Fachada da casa lírica ganhou pintura em cinza azulado nos anos 1980; cor original é objeto de polêmica até hoje (Reprodução)

CRONOLOGIA

2012
Descoberta de ladrilhos dourados na fachada
2011
Teatro ganha concha acústica
1990
Restauração feita pela Comagy
1972-1974
Restauração feita pela Odebrecht
1926-1929
Reforma na administração de Efigênio Ferreira de Salles
1901
Inauguração  do Salão Nobre
1896
Inauguração  da iluminação elétrica e inauguração do TA
1892
Retomada das obras no Governo Eduardo Ribeiro
1884
Lançamento da pedra fundamental
1881
Primeiros decretos com vistas à construção de um teatro em Manaus

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