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ARTES CÊNICAS

Teatro da Vertigem apresenta em Manaus peça inspirada em obra de Franz Kafka

"Carta ao pai", do escritor tcheco, é o ponto de partida do espetáculo, com dramaturgia de Alexandre Dal Farra 28/06/2016 às 13:02 - Atualizado em 28/06/2016 às 16:00
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“O Filho” põe em cena um retrato das relações familiares nos dias de hoje (Ligia Jardim/Divulgação)
Rosiel Mendonça Manaus (AM)

Manaus entra pela primeira vez na rota do grupo paulista Teatro da Vertigem, que apresenta por aqui seu novo espetáculo, “O Filho”, inspirado na obra “Carta ao pai” (1953), do escritor tcheco Franz Kafka. A curta temporada da peça acontecerá de 3 a 6 de julho, com sessões diárias às 18h e 20h30, no Café Teatro (Avenida Sete de Setembro, Centro). O acesso é gratuito.

A reportagem conversou por telefone com a diretora da peça, Eliana Monteiro, que acaba de chegar à cidade para realizar um laboratório cênico com alunos da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Segundo ela, “O Filho” põe em cena um retrato das relações familiares nos dias de hoje, marcadas pelo desgaste.

“Na verdade, não se trata de uma adaptação do livro. O texto surgiu de muitas conversas entre eu e o Alexandre Dal Farra, que assina a dramaturgia. Tivemos algumas adaptações e cortes, e a peça aconteceu”, explica Eliana. “Acho que o Alexandre teve uma participação fundamental nesse processo porque ele trouxe uma leitura das famílias de hoje, do quanto essa relação se tornou descartável”.

Eliana também dirigiu o espetáculo “Kastelo”, de 2010, baseado em outra obra de Kafka. Para ela, a proximidade com a literatura do escritor tcheco vem, antes de tudo, de uma questão pessoal. “As obras dele sempre me tocam muito. ‘Carta ao pai’, especificamente, tem um significado pessoal para mim porque me enxerguei na relação do Kafka com o pai dele”.

Publicado postumamente, o livro reproduz uma carta escrita pelo autor em 1919 e nunca entregue ao destinatário. Nela, Franz faz um acerto de contas com o pai, o comerciante judeu Hermann Kafka, e expõe todos os atritos e mágoas acumulados em 36 anos de convivência. Para o filho, o autoritarismo paterno foi o responsável pela sua personalidade resignada.

Enquanto concebia o espetáculo, Eliana Monteiro foi adentrando nessa relação entre pai e filho. “O Hermann queria o tempo todo se inserir na sociedade de Praga pelo empreendedorismo dele, e não aceitava que o filho não pensasse na continuidade dos negócios. O curioso é que, mesmo sendo tão objetivo ao longo da vida, ele acabou inserido e conhecido na sociedade de maneira subjetiva, por meio da carta escrita pelo Kafka”, aponta.

Montagem

“O Filho” mostra a trajetória e as relações de Bruno com seus pais, seus filhos e suas mulheres. Ao constatar e descrever as situações vividas para si, ele tenta aprender, entre outras coisas, o que é ser um homem de verdade. O elenco é formado por Edison Simão, Mawusi Tulani, Paula Klein, Rafael de Bona e Sergio Pardal.

A peça traz todos os elementos que tornaram o Teatro da Vertigem conhecido no País. Um deles é a ocupação de espaços não convencionais onde se passa toda a encenação. Originalmente pensada para um galpão, em Manaus a peça vai ocupar o Café Teatro, um antigo ponto de aviamento que pertenceu a J. G. Araújo no período da borracha.

“Nesse lugar, os personagens depositam os móveis das famílias que não deram certo, então o espetáculo se passa num grande depósito de histórias. Ele fala um pouco do descarte que a família contemporânea é”, diz. 

Essa relação espacial também foi vista no trabalho “A Última Palavra é a Penúltima”, criado a partir do texto “O Esgotado”, de Gilles Deleuze – a intervenção aconteceu na passagem subterrânea da rua Xavier de Toledo, no Centro de São Paulo, que estava fechada desde 1998. 

Resistência em grupo

Manaus será a primeira cidade a receber o circuito “Kafka na Estrada”, que tem patrocínio da Petrobras e apoio local da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult). Depois do Amazonas, o Teatro da Vertigem passa pelo Distrito Federal e Pernambuco.

De acordo com Eliana Monteiro, o Vertigem conta com um patrocínio contínuo da Petrobras há 10 anos, e é esse incentivo que tornou possível a continuidade das ações de pesquisa artística do grupo independente, criado nos anos 90. 

“O apoio fez a gente se desenvolver muito na última década porque passamos a ter uma tranqüilidade maior para desenvolver os projetos. A cada ano podemos focar em um trabalho novo com a garantia de que ele vai acontecer”, pondera ela, que também faz uma avaliação do cenário nacional.

“De um modo geral, a cultura no País continua num momento um tanto precário, ainda mais depois dessa extinção e retorno do MinC. Em São Paulo melhorou um pouco nos últimos anos com a lei de fomento, que permitiu a profissionalização dos grupos e artistas. Mas não tem uma fórmula, é resistência e luta sempre”.

Serviço

o quê: Temporada do espetáculo “O Filho”, do Teatro da Vertigem

quando: De 3 a 6 de julho, às 18h e 20h30 

onde: Café Teatro (Avenida Sete de Setembro, Centro, ao lado do Basa) 

quanto: Gratuito

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