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Trilogia Arrabal: 'Fando e Lis' entra na reta final dos ensaios

Nova montagem da companhia Ateliê 23 revisita o Teatro do Absurdo do dramaturgo Fernando Arrabal; estreia será em dezembro 14/11/2013 às 19:46
Show 1
A cia. de teatro Ateliê 23 possui seis meses na cena manauara
Laynna Feitoza Manaus, AM

Os martírios inconscientes da jornada de Fando, Lis, Namur, Mitaro e Toso em direção à cidade imaginária de Tar é o que aborda o núcleo de teatro da Ateliê 23, em mais um espetáculo da companhia, chamado “Fando e Lis”. Inspirada na história homônima do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, popularizador do gênero Teatro do Absurdo, a montagem integra a segunda série do projeto “Trilogia Arrabal” e estreia nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro, às 19h, no Les Artistes Café Teatro (Av. Sete de Setembro, 377, bairro Centro).

Dirigida por Taciano Soares, diretor do aclamado “A Casa de Inverno” – que recentemente foi apresentado no Festival de Teatro do Rio de Janeiro – a adaptação manauara do texto de 1955 narra a história de Fando, esposo de Lis, que é paralítica. Conduzindo a mulher em um carrinho rumo à Tar, eles encontram Namur, Mitaro e Toso, que seguem junto à eles. Segundo Taciano, os rompantes agressivos e infantis da personalidade de Fando fazem com que ele mate Lis. Assim, ele segue para a cidade junto aos quatro forasteiros, e em uma sucessão de transtornos subliminares e psicológicos por conta da morte da esposa, Fando tenta reconstruir a imagem dos acompanhantes.

“Tudo o que se passa no espetáculo é uma tentativa de Fando mudar a sua realidade ao redor. Num primeiro momento ele é completamente ignorado pelos três homens. No entanto, ele os subverte ao transportar para a imagem deles elementos visuais de Lis, mulher que ele ama e que vê em todo lugar. Durante uma cena o personagem Fando maquia e veste os 3 homens com elementos femininos que fazem referência à ela, para que assim ele passe a acreditar que começa a ser aceito pelos homens que outrora o ignoraram”, salienta o diretor.

Ação dramática

Em cena, os atores Eduardo Klinsmann (Fando), Dinne Queiroz (Lis), Jean Palladino (Namur), Gleidstone Melo (Mitaro) e Ítalo Rui (Toso) não são reprodutores de uma criação específica da direção, e sim igualmente propulsores da ação dramática no espetáculo, garante Soares. “É como se fosse a ‘academia do ator’. Na fase em que preparação corporal, vocal e jogos dramáticos foram trabalhados, potencializamos os recursos dos atores para a criação de suas personagens, e também para aquecermos o instrumento de trabalho que é o corpo, nas criações de cena”, ressalta Taciano.

Cenário

O próprio cenário do espetáculo é o recorte de uma suposta caixa branca, onde duas paredes se encontram e criam duas perspectivas para o público assistir, alega Taciano. Na disposição, metade do público estará numa arquibancada de frente para uma parede e a outra parte no outro lado da plataforma. “A arquibancada é necessária porque queremos possibilitar a experiência do público assistir de ‘cima’ a montagem, como se fôssemos superiores e maiores que estes atores/personagens. Para percebermos que eles são como ratinhos de laboratório, que não percebem que todo o seu universo não passa de uma caixa onde andam e vivem em círculo”, propõe o diretor.

Sensação de passagem

No texto, os personagens estão “aprisionados” à caminhada e à sensação de passagem, sem saber onde estão e onde irão chegar, a partir da incerteza que se firma acerca da existência de Tar, um lugar onde ninguém nunca esteve, conforme Taciano. E isso implica diretamente na ótica que a plateia obterá do palco, na estreia. “Para tentar arrematar essa percepção do público, o primeiro andar de cadeiras da arquibancada começará na altura da cabeça dos atores. Ou seja: para assistir, é impossível não fazer o público olhar para baixo”, pondera o diretor, lembrando que outros dois elementos compõem o cenário: uma árvore seca que faz sombra aos atores e um carrinho de mão, onde Lis é conduzida.

Figurino e trilha

A perspectiva do figurino também envolve a premissa da prisão no que parece ser uma eterna passagem: a vestimenta dos protagonistas está baseada em um visual surrado a um leve toque de impressionismo. “Afinal, Fando e Lis há muitos anos não mudam de roupa, não se arrumam, não se limpam... apenas andam. Ao mesmo tempo, quero que tenha um toque de impressionismo na imagem deles. Nós brincamos um pouco com as cores no cabelo e barba para ajudá-los a compor esses seres não ‘muito reais’. Há um exercício da minha parte em deixa-los mais ‘maduros’”, complementa o diretor, afirmando que Namur, Mitaro e Toso são mais alegóricos.

Já a trilha sonora da obra trabalha a integração ator/personagem no palco. Soares adianta que Fando tocará gaita, de forma nada orquestrada, em momentos seletos da apresentação. “Não queremos uma musicalidade perfeita, porque um personagem como o dele jamais entenderia a construção musical, mas ele usa acordes soltos, paralelos a suas sensações”, aponta, adiantando que a última peça do projeto, chamada “Oração”, está prevista para o primeiro semestre de 2014, concluindo assim o ciclo das obras de Fernando Arrabal.

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