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Entrevista

Uxa Xavier: artista e educadora paulista fala de dança contemporânea para crianças

Diretora da Cia. Lagartixa na Janela (SP), Uxa vai trabalhar pela primeira vez com meninos e meninas de Manaus a convite do projeto “Brincar/Dançar/Jogar/Criar” 01/10/2016 às 20:36
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Uxa, que trabalha há mais de 30 anos com dança para crianças, defende que “quanto mais a arte na sua essência estiver no cotidiano da criança, mais sensível será o adulto” (Fotos: Divulgação)
acritica.com Manaus (AM)

A Dança Contemporânea não precisa ser um território restrito aos adultos – pelo contrário. Para Uxa Xavier, que há mais de 30 anos trabalha com dança para crianças, a linguagem da arte contemporânea permite explorar outros espaços da sensibilidade juvenil. “Escolhi trabalhar com crianças por saber da importância de abrir novas brechas para um pensamento em dança que dialoga com novas éticas de criar, que não seja somente copiar ou interpretar”, afirma ela.

Também diretora da Cia. Lagartixa na Janela, de São Paulo, Uxa vai trabalhar pela primeira vez com crianças de Manaus a convite do “Brincar/Dançar/Jogar/Criar: Oficinas, diálogos e processos criativos”. Lançada no último dia 19, a iniciativa do Projeto Cênica Corporal Uma vem promovendo oficinas gratuitas para crianças de 7 a 12 anos da capital. A artista e educadora paulista irá participar da formação e das demais atividades do projeto no período de 3 a 8 de outubro.

Em entrevista a A CRÍTICA, Uxa fala sobre a relação entre a arte contemporânea e o universo infantil, que ela considera terem muito em comum. “Principalmente os elementos invenção e imaginário, que são estruturas para a criação de poéticas da dança contemporânea”, avalia a artista e educadora.

Uxa também conta um pouco de sua trajetória e seu trabalho na Lagartixa na Janela, e das atividades que irá desenvolver com meninos e meninas de Manaus, no que ela espera ser uma reunião surpreendente para ambas as partes: “Ainda não conheço as crianças de Manaus, portanto será um encontro de muitas descobertas para mim também!”.

Trabalhar com a linguagem artística contemporânea pode ser um desafio para muitos adultos. E as crianças, como respondem a ela?
As crianças são muito porosas, elas ainda não estão enrijecidas com conceitos do tipo “isto é e isto não é”. O fundamental é como criamos relações com elas, como organizamos os elementos fundamentais da dança em articulação com seu universo, seu imaginário.

Que atividades você deverá desenvolver na oficina em Manaus?
Os conteúdos da oficina serão o corpo e suas potências, na sua fisicalidade: como a criança investiga e descobre seu corpo, em sua estrutura anatômica e em sua potência de criação. Tenho uma estrutura muito elaborada de aquecimento que ativa e aciona estados corporais para o jogo/ composições, e principalmente para a escuta do outro que está dançando junto, compartilhando o mesmo espaço e vibrando suas percepções.

A seu ver, de que forma a linguagem da Arte Contemporânea por meio da dança pode contribuir para a formação da criança?
Acho que quanto mais a arte na sua essência estiver no cotidiano da criança, mais sensível será o adulto. A dança na vida de uma criança cria e constrói percepções ao corpo, ao corpo do outro e do coletivo, e de como um corpo cria, inventa e compõe. Acredito sim no quanto essa sensibilidade e percepção transforma o estar no mundo no que se refere a respeito, afeto e identidade. Um corpo sensível jamais fará uma ato de violência ou desrespeito ao outro. Um corpo sensível lê a realidade de uma outra perspectiva.

Você é uma das principais, senão a principal referência na dança contemporânea para crianças no Brasil. O que a levou a seguir essa trajetória?
Não acho que eu seja a principal, mas acredito que faço parte de um grupo de artistas da dança, que pensou e escolheu trabalhar com crianças por saber da importância de uma educação estética em dança, de abrir novas brechas para um pensamento em dança que dialoga com novas éticas de criar, que não seja somente copiar ou interpretar.

Em 2010 você iniciou o Lagartixa na Janela. Qual o foco da companhia, e que atividades você vem desenvolvendo com ela?
O Lagartixa nasceu de uma reflexão que se transformou num desejo sobre criar e estar com crianças em outros espaços que não fossem as salas de aula. Nós nos sustentamos poeticamente em três corpos. O corpo ético, à medida que abrimos espaço para quem quiser entrar e dançar conosco, acreditamos na potência da contemplação. O corpo estético, dado que criamos composições onde os elementos que integram a performance são relacionais, e conectores de relações com o público, como tecidos, nuvens, varais, gravetos, giz, pedrinhas e por aí vai. E corpo político, pois assumimos a escolha de criarmos nossas performances em e para espaços públicos.


Uxa atua desde 2010 à frente da Cia. Lagartixa na Janela, que tem como proposta pesquisar o território de criação e pedagogia em dança contemporânea para crianças

Além da formação, você deve participar de um dos diálogos do projeto “Brincar...”. Sobre o que pretende discutir nesse encontro?
Um dos diálogos será sobre o processo que vai acontecer nas oficinas que darei aí. E no outro encontro vou trazer o material da exposição “A Poética do Encontro” (museudadanca.com.br/lagartixanajanela), que se transformou numa exposição virtual. Todo o processo de criação dessa exposição foi uma experiência muito forte e transformador para toda a equipe que participou dessa criação, então vou contar um pouco como tudo aconteceu.

Ainda em Manaus você vai lançar “Mapas para dançar em muitos lugares”. O que pode dizer sobre o livro?
Esse livro é o resultado de uma proposição que tenho feito desde a criação do Lagartixa, que é transformar uma obra num objeto de investigação tanto para crianças como para educadores. O eixo do livro é nossa primeira performance, “Poemas Cinéticos”, e os elementos que investigamos para sua composição se transformaram em proposições abertas para o leitor dançante. O livro tem um CD com trechos da performance e pequenos capítulos que são as proposições.
 

PERFIL: Uxa Xavier
Professora de dança para crianças há mais de 30 anos, é também membro do Council Internacional Dance (CID) da Unesco e professora convidada no Curso de Teoria e Prática em Arte e Educação da ECA-USP na linguagem de Dança. Integrou o Fórum Paulista de Cultura da Infância entre 2008 e 2009. Atualmente dirige o Lagartixa na Janela, grupo de pesquisa e criação em Dança para espaços públicos/Dança em contexto e Educação, criado em 2010.
 

INICIATIVA: Projeto apresenta dança contemporânea a crianças
As atividades do “Brincar/Dançar/Jogar/Criar” tiveram início no último dia 19, com oficinas mediadas pelo artista amazonense Francisco Rider, que continua à frente da formação até o dia 30 de setembro. No período de 3 a 7 de outubro, as atividades seguem com a mediação de Uxa Xavier, da Cia. de Dança Lagartixa na Janela, de São Paulo.

Todas as aulas acontecem na Escola Municipal Maria das Graças Andrade Vasconcelos, Aldeias Infantis SOS Manaus, no Alvorada, Zona Centro-Oeste. O último dia da formação irá coincidir com a mostra de processos criativos com as crianças participantes do projeto, a ser realizada no Les Artistes Café Teatro, no Centro.

“Brincar/Dançar/Jogar/Criar” é uma ação do Projeto Uma, coordenado pelo artista amazonense Francisco Rider. A iniciativa foi contemplada com o prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança 2014, e tem apoio cultural da Secretaria Municipal de Educação (SEMED), do Curso de Dança da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas e do Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas (Caua/Ufam).

‘Diálogos’ tratam de arte e infância
Além das oficinas e da mostra de processos, o “Brincar/Dançar/Jogar/Criar” vai promover palestras/diálogos e lançamento de livro. Participam dos encontros Francisco Rider e Uxa Xavier, mais Selma Bustamante, atriz e diretora do Grupo Baião de Dois (AM); Ecila Mabelini, pesquisadora e doutoranda em Literatura Infantil e Juvenil; e Gandhy Piorski, artista visual e pesquisador do imaginário infantil, que será o mediador das atividades.

Os encontros irão tratar de temas da Arte e Educação com foco no universo infantil, sendo voltados a educadores, pedagogos, artistas, bailarinos, atores, estudantes e interessados em processos artísticos para crianças.

As atividades gratuitas serão realizadas nos dias 7, no Les Artistes Café Teatro (Centro), logo após a mostra, com Rider e Uxa; e 8 de outubro, no Centro de Artes da Universidade Federal do Amazonas (Centro), com os demais participantes, a partir das 14h. Ainda durante os encontros, Uxa fará o lançamento em Manaus do livro “Mapas para dançar em muitos lugares” (2014).
 

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